O retrato de um mundo avacalhado

A frase é de Nelson Rodrigues: “O Brasil é muito impopular dentro do Brasil”. Assim, tudo que diga respeito à nossa pátria logo recebe os adjetivos “esculhambado”, “avacalhado” etc. Nosso grande sonho, acalentado desde a infância, é chegar ao sério “1º Mundo”, no qual tudo funcionaria melhor.

Fiquei pensando nisso há poucos dias, quando li que Willie Bean se candidatou à prefeitura de Fairhope (EUA) – trata-se de um cachorro da raça Labrador. Aliás, ainda sobre eleições, deu empate na de Cave Creek, também nos EUA. A solução? Decidiu-se a vaga através de um jogo de baralho! Fiquei pasmo ao ver a fotografia do juiz da cidade embaralhando as cartas diante dos dois candidatos ao cargo.

Não menos curiosa é a Constituição do Arkansas (EUA), a qual previa que “nenhuma pessoa idiota ou maluca pode votar”. Sugeriu-se, recentemente, uma mudança nesta lei, proibindo que idiotas se candidatem a cargos públicos.  Enquanto isso, na Romênia, os eleitores devem ter achado todos os candidatos idiotas, e decidiram eleger Neculai Ivascu – um morto!

Na conceituada Coréia do Sul descobriram 134 servidores públicos  pelas ruas distribuindo dinheiro e presentes a eleitores, buscando a reeleição dos políticos que os contrataram. No Reino Unido, anunciou-se que os eleitores que comparecessem às eleições locais seriam premiados com televisores, iPods e até vales para compras de supermercado. Diante da repercussão na imprensa, o governo inglês defendeu-se dizendo que a ideia já era utilizada nos EUA, onde são distribuídas até galinhas para os eleitores. Na Rússia, registrou-se que o partido “Rússia Unida”, do presidente Putin, estava a distribuir mochilas e até garrafas de vodca para os eleitores. E nos EUA jornais denunciaram que um dos candidatos a prefeito de Nova York gastou US$ 85 milhões em sua campanha.

Para completar, na China os eleitores da cidade de Dingmei foram às ruas protestar contra a falta de corrupção eleitoral. Em diversas entrevistas, os moradores declararam sempre ganhar dinheiro e presentes dos candidatos, algo que não aconteceu nas últimas eleições em função de uma promessa religiosa feita por estes, e que desagradou a todos.

No sério Japão, os jornais denunciaram que os membros do Congresso Nacional embolsaram um salário de R$ 45 mil por apenas dois dias de trabalho no mês de agosto do ano passado. No México, denunciou-se que os parlamentares apreciaram apenas 2,6% dos projetos que lhes competiam durante um período legislativo inteiro. Na séria e conceituada União Européia, um eurodeputado alemão tornou públicas as provas de que em 7,2 mil casos seus colegas assinaram a lista de presenças logo de manhã e foram embora para casa, recebendo sem trabalhar.

Na Argentina, uma ONG levou à justiça o caso de 17 listas de frequência do Congresso Nacional, que davam como presentes às sessões deputados que estavam em Brasília, Nova York e até nas Filipinas. No Japão, denunciaram em 2008 que nada menos que 150 parlamentares viajaram para o exterior durante as férias por conta do governo. E na Índia explodiu o escândalo dos parlamentares que receberam propostas de venda de votos a troco de R$ 1 milhão.

Diante deste quadro, que tal olharmos com um pouco mais de carinho e esperança as nossas instituições, nos situando no mundo com mais justiça?  Afinal, e volto a citar Nelson Rodrigues, “nossa tragédia é que não temos o mínimo de autoestima”.

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