O populismo homicida de Bolsonaro

Ao pedir ao ministro da Saúde para estudar a suspensão da obrigatoriedade no uso da máscara, Bolsonaro emite mais um sinal, entre muitos, de que não apenas é um truculento, insensível, incompetente e mais trocentos epítetos e palavrões à livre escolha do leitor. Sua principal característica, no entanto, é um populismo com cheiro de morte. Até aqui, Bolsonaro não fez qualquer declaração ou ato que não venha encharcada de populismo. O problema se torna sério - muito sério - quando se observa que, diferentemente de populistas historicamente conhecidos, Bolsonaro exerce dia e noite um populismo nocivo, perigoso, homicida.

A característica básica do populismo é o contato direto do pretenso líder com as massas, sem intermediação de partidos ou corporações. Importante é estabelecer um vínculo emocional com o povo. Daí a predileção de Bolsonaro pelas passeatas e passeios de moto, já que não pode usar os meios de massa como o rádio e a TV por causa dos panelaços. Líderes populistas costumam cunhar para si ou pagar para alguém cunhar expressões que o definam e o celebrem de forma rápida e direta. Getúlio era o “pai dos pobres”. Perón, o “libertador”. E Bolsonaro, o “mito”, palavra que seus apoiadores gritam histericamente ao vê-lo.

Triunfalismo e patriotismo extremado 

O discurso do líder populista é sempre triunfante e apelativo aos sentimentos de patriotismo extremado. Observe-se esse trecho de discurso radiofônico de Getúlio Vargas: “Brasileiros! No alvorecer do novo ano, quando nas almas e nos corações se acende mais viva e crepitante a chama das alegrias e das esperanças e sentimentos, mais forte e dominadora a aspiração de vencer, de realizar e progredir, venho comunicar-me convosco e falar, diretamente, a todos, sem distinções de classe, profissão ou hierarquia, para unidos e confraternizados, erguermos bem alto o pensamento, num voto irrevogável pela grandeza e pela felicidade do Brasil”.

O discurso de Bolsonaro, no tom militar-triunfalista, vai no mesmo rumo. É todo recheado de expressões como “nosso Brasil”, “nossa pátria”, “meu exército”, “ a família brasileira”, “Deus acima de tudo” etc. Pouco importa que pratique exatamente o contrário dos conceitos embutidos no discurso. Em vez de “nosso Brasil”, defende e aplaude a devastação ambiental. Em vez de “nossa pátria”, curva-se vergonhosamente a líderes populistas como Donald Trump, de quem copia vergonhosamente os piores exemplos, inclusive de retrocessos como o voto impresso e as ameaças de golpe se perder as eleições.

No lugar do conceito geral de família, coloca a sua em primeiro lugar, principalmente os filhos. E enche a boca de “Deus”, mas sistematicamente nega os mais basilares princípios cristãos, como a tolerância, o perdão, o respeito e o sentimento de fraternidade. Aliás, este último, quando se expressa em relação às vítimas da covid, é de forma automática, mecânica, sem qualquer traço de sentimento real, nos discursos elaborados pelos ghostwriters do Palácio do Planalto. Mas o   descaso e a insensibilidade ficam evidentes quando fala de improviso.

Buchada, pequizada e jaraqui 

Ao longo da história, não houve homem público de projeção que não tenha cedido, aqui ou ali, a algum ato, palavra ou gesto populista. Para conquistar a simpatia dos nordestinos, tornou-se clichê se deixarem fotografar com chapéu de vaqueiro, andando de jegue ou comendo buchada. No Centro-Oeste, terra do pequi, enfrentam uma pequizada, a mais importante e popular iguaria da região. E mesmo detestando, abrem para as câmeras um sorriso amarelo que nem o pequi que estão comendo.

Jânio Quadros tirava pão com mortadela do bolso e comia em público. Mandava salpicar pó de giz no paletó mal-ajambrado para parecer caspa, e assim ficar mais “povão”. O ex-governador do Amazonas, Amazonino Mendes, deixava-se filmar e fotografar em casas humildes comendo jaraqui frito com baião de dois, pratos típicos de ribeirinhos pobres. Populismo? Sim. Mas quase se diria inofensivos, diante do que Bolsonaro anda fazendo.

Seus atos e palavras populistas ignoram os efeitos devastadores que provocam. Insisto: eles não apenas capitalizam simpatia e apoio, mas são indutores de condutas que põem em risco a vida das pessoas. Numa palavra dura: matam. No caso presente, quando nega os benefícios da máscara, promove e incentiva aglomerações e nega a importância das vacinas, empurra a população para o contágio e, consequentemente, para a morte.

Logo que assumiu o governo, começou uma campanha de liberação de armas, para atender aos que só se consideram seguros se armados. Quando todas as pesquisas revelam que quanto mais armas, mais mortes, e não o contrário. Da mesma forma, propôs o fim dos radares nas estradas, para agradar os comodistas que se sentem prejudicados pelos seus efeitos, ignorando solenemente os riscos do aumento de vítimas de acidentes.

Na mesma trilha populista-homicida propôs o fim da obrigatoriedade do uso das cadeirinhas para as crianças nos carros de passeio. Pouco importa se os meninos, sem a proteção, vivam ou morram. Importante é tirar dos pais esse “incômodo”, semelhante à máscara. E angariar a simpatia deles.

Em suma, diante de populistas “bonzinhos” como Getúlio Vargas e Jânio Quadros, que só capitalizavam para si a simpatia – e os votos - das classes menos esclarecidas, Bolsonaro usa o populismo como arma devastadoramente letal. Até porque pouco importa se vão ou não ocorrer mortes provocadas pelo seu péssimo exemplo. Importante é tocar pra frente o projeto populista-homicida de perpetuação no poder, principalmente se for um poder ditatorial, sem essa tal de democracia pra atrapalhar.

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