O patriotismo esquizofrênico

"O principal ponto a ser destacado é que a distorção do patriotismo expressa pelos grupos de apoio ao Bolsonaro se estendem a suas práticas governamentais"

No dia 26 de maio de 2019 me despi dos meus princípios políticos para observar presencialmente a manifestação pró-Bolsonaro, uma das poucas da história de apoio a presidentes em exercício. Fiz a opção de ir à manifestação porque, apesar de ser oposição ao governo Bolsonaro desde o primeiro turno eleitoral, considero a importância de ver, ouvir e entender o que se passava na ocasião e assim não mais ser vítima do “não é bem assim, você não sabe o que está falando!”.

De antemão, peço desculpas a todos aqueles que de bom coração apoiam o governo, mas as linhas a seguir serão ácidas ao reproduzir e analisar o comportamento majoritário da referida manifestação que ocorreu em Brasília. Ao chegar na Esplanada vi diferentes contradições que poderiam ser tema desse artigo, mas um senhor estendendo uma bandeira dos Estados Unidos foi o ponto decisivo para definir como tema o patriotismo tão falado por Jair Bolsonaro e seus seguidores.

Por essência, e não sou eu quem digo, mas os dicionários e a história, o nacionalismo é uma ideologia que busca a valorização e identificação de uma nação. Conectado ao nacionalismo está o patriotismo que se caracteriza pelo sentimento de orgulho e devoção à pátria, seus símbolos e patrimônio material e imaterial. Logo, esperamos que pessoas que pregam o patriotismo com tanto vigor tenham como princípio a defesa do território, das riquezas naturais e culturais do país, mas não foi com isso que me deparei.

Avistei inúmeras pessoas vestindo blusas da seleção Brasileira, carros de som e gritos reproduzindo a frase: “está bonito demais ver esse patriotismo”, contudo, essas mesmas pessoas levantavam bandeiras dos Estados Unidos e de Israel, faziam referência ao ministro Sérgio Moro como super-herói Americano, negavam as estruturas democráticas e estimulavam o separatismo com críticas ao nordeste e glorificação da “república curitibana”.

Ao observar a situação só consigo chegar a uma conclusão: Jair Bolsonaro é mau-caráter, por utilizar, desde o período eleitoral, o patriotismo de forma superficial como plataforma de campanha, tendo em vista que boa parte da população não possui senso crítico para identificar a distorção do conceito feita por ele. Considero que esse cenário é sem dúvida mais um dos reflexos de uma nação com memória histórica curta, baixo conhecimento da história do país e do processo eleitoral, o que resulta na compreensão do termo patriotismo de forma simples e sem reflexão.

Nesse contexto, algumas justificativas sobre a utilização desses símbolos surgem com a alegação de que esses são “exemplos” do que os manifestantes buscam para o Brasil. Sei que é natural que existam em manifestações movimentos internacionalistas, solidariedade para com uma causa e até mesmo apoio a conflitos internos de outros países, porém não é disso que estou falando. Realmente o que presenciei foi uma verdadeira confusão com o conceito de patriotismo e exaltação de outras nações. Um vazio de conteúdo com falas compostas apenas por frases de efeito sem explicações mais profundas, um vazio de falas patriotas que não refletem os comportamentos dos presentes e do próprio presidente.

O principal ponto a ser destacado é que a distorção do patriotismo expressa pelos grupos de apoio ao Bolsonaro se estendem a suas práticas governamentais. Quando analisamos as principais decisões políticas do governo Jair Bolsonaro é possível perceber uma ausência desacerbada de preocupação com o patrimônio material e imaterial do nosso país. Bolsonaro apenas reivindica um patriotismo ultrapassado de décadas passadas como o ensino cívico, o hino nacional, mas não reflete em seus atos a preocupação de defesa da nação no que se refere às medidas estratégicas.

Qual o maior símbolo da nossa nação se não a Amazônia que é reivindicada como o pulmão e/ou coração do mundo? Quando o presidente transfere o Serviço Florestal Brasileiro para o Ministério da Agricultura, quando o seu ministro do Meio Ambiente sugere alterações no código florestal, quando o CONAMA, Conselho Nacional de Meio Ambiente, é drasticamente reduzido, percebemos o desmonte da política ambiental que reflete diretamente no desmatamento desenfreado do nosso território. Ou seja, um patriotismo que desvaloriza nosso patrimônio material?

Podemos prosseguir falando das investidas de privatização das refinarias da Petrobras que, o que são senão uma afronta a soberania nacional? Abrir mão do controle da exploração do petróleo no nosso território para o capital estrangeiro nada mais é do que reproduzir a história da Companhia Vale do Rio Doce. Uma estatal vendida abaixo do preço de mercado, hoje controlada por capital privado sem compromisso com garantias sociais e que gera mortes e tragédias ambientais na mesma proporção dos empregos. Um patriota não colocaria um recurso natural tão estratégico para economia do país na mão de outras nações.

Agora me pego pensando: não seria eu, uma ambientalista, defensora dos direitos humanos e progressista muito mais nacionalista do que aqueles que estavam presentes naquele ato? Sim! Sou nacionalista não por princípio, mas por efeito das pautas que defendo que, por sua vez, protegem e valorizam nossa nação como a manutenção das estatais estratégicas para economia do país, preservação do meio ambiente, valorização da educação e da unidade nacional, reconhecimento e proteção das comunidades tradicionais de indígenas e quilombolas de modo a promover justiça histórica.

Acredito que o nacionalismo e patriotismo devem ser reflexo de uma prática de valorização de uma nação, quando o patriotismo é reduzido a exaltação de símbolos tradicionais se torna vazio, sem nexo e vergonhoso. Minha conclusão? Se quiserem, sejam patriotas, mas sejam de verdade, porque fugir do perigo comunista está mais para falta de aula de história do que preocupação com a pátria.

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