O Oriente Médio em transição, sob o olhar de um velho sábio

A melhor coisa que li durante o  feriado de carnaval sobre a chamada revolução de jasmim, em curso no Norte da África e Oriente Médio, foi A mass expression of outrage against injustice, longa entrevista do historiador anglo-americano Bernard Lewis (94 anos em plena e lúcida atividade!) a David Horovitz, do Jerusalem Post, de 1º de março. Lewis, professor emérito de Estudos do Oriente Próximo de Princeton, é o mais importante islamólogo da atualidade, tendo publicado abundantemente sobre o assunto, com destaque para A crise do Islã: guerra santa e terror profano (Zahar); O Oriente Médio: do advento do Cristianismo aos dias de hoje (Zahar);  A descoberta da Europa pelo Islã (Perspectiva); Islam: the religion and the people, em co-autoria com B. Ellis Churchill (Upper Saddle River); Political words and ideas in Islam (Princeton University Press); Islam and the West (Cambridge University Press); Islam in history  (Transaction); The jews of Islam (Routledge);  e Faith and power (Oxford U. Press), entre outros trabalhos.

A entrevista foi realizada na casa do embaixador americano em Israel, James Cunningham.

Na conversa com o jornalista israelense, Lewis descarta o otimismo superficial de quanta platitude e baboseira têm sido publicadas no Brasil e no mundo desde o final do ano passado, à guisa de interpretação dos acontecimentos na Tunísia, no Egito, no Bahrein, na Líbia e alhures, sob o prisma de leitura de uma revolução democrática. Isso porque, como ele explica, as noções ocidentais de liberdades democráticas e eleições livres, baseadas no princípio da rotatividade de poder entre governo e oposição, simplesmente nunca tiveram ampla difusão naquelas paragens. Mais precisamente, no léxico árabe e islâmico, o vocábulo liberdade tem um significado jurídico-social (a condição de quem não é escravo), e não político.

À primeira vista, o raciocínio parece ecoar um certo  determinismo cultural  presente na obra O choque de civilizações (título, primeiramente de um artigo publicado em 1993 na revista Foreign Affairs, três anos  mais tarde aprofundado  em livro com o mesmo nome) do falecido cientista político de Harvard Samuel P. Huntington, cuja não tão  implícita polêmica com um também certo triunfalismo liberal-democrático globalizante propalado em O fim da história e o último homem por Francis Fukuyama (título do seu livro de 1992 originado  de um ensaio de  1989 para a revista The National Interest) marcou a última década do século passado, quando as elites governamental, militar  e acadêmica dos  Estados Unidos buscavam um novo rationale para o papel internacional da superpotência depois do fim da guerra fria.

No entanto, Lewis chama atenção para uma outra  tradição da cultura política islâmica que, em sua opinião,  poderia ser resgatada e prestigiada de modo a assegurar a superação dos regimes despóticos que assolam a região há várias décadas, em países ainda pouco ou nada afeitos ao mecanismo e aos rituais das democracias parlamentares.

O historiador acredita que os “regimes autoritários, até mesmo ditatoriais, que dominam o Oriente Médio islâmico na atualidade são uma criação moderna. Os regimes pré-modernos eram muito mais abertos, muito mais tolerantes”. (Mais sobre isso daqui a pouco.)

A seu ver, a importação apressada de modelos eleitorais do Oriente apenas servirá para desencadear, em pouco tempo, o pior dos desfechos: a tomada do poder por movimentos islâmicos fundamentalistas, tradicionalmente bem organizados e com forte inserção nos setores marginalizados daquelas sociedades. (Lewis não hesita em classificar a Irmandade Muçulmana egípcia e seus congêneres pelo mundo afora como “movimento islâmico radical, muito perigoso”. E vaticina: “Se eles conquistarem o poder, as consequências para o Egito serão desastrosas”.)

Depois de recorrer a um paralelo extrarregional para reforçar seu ponto de vista – o caso da República de Weimar (1919-1933), na Alemanha do entre-guerras, que, sem familiaridade com uma cultura política democrática, acabou entregando o poder a Hitler “numa eleição livre e limpa” –, ele recorda uma experiência que viu e acompanhou in loco, há mais de 60 anos, na Turquia, ao tempo que lecionava na Escola de Ciências Políticas de Ankara. “[O] governo turco realizou uma eleição livre e genuinamente justa – a eleição de 1950 –, na qual foi derrotado, [...] abandonou o poder em silêncio e com dignidade e o entregou à oposição vitoriosa. O que se seguiu a isso eu só posso descrever como uma catástrofe. Adnan Menderes, o líder do partido vencedor, [...] não tardou a deixar perfeitamente claro que não tinha nenhuma intenção de sair pelo mesmo caminho por onde havia entrado; que considerava aquilo uma mudança de regime; e que não tinha respeito algum pelo processo eleitoral. E o povo da Turquia começou a perceber isso. Um dia, passados alguns anos e ainda sob o regime de Menderes, eu estava reunido na sala dos professores discutindo a história das diferentes formas [de governo] e instituições políticas, quando, de repente, um deles afirmou, para espanto de todos nós: ‘Bem, o pai da democracia turca é o Adnan Menderes’. Nós outros nos olhamos atônitos: ‘Adnan Menderes, pai da democracia turca? O que você quer dizer com isso?’ E o mesmo professor retrucou: ‘Ora, ele estuprou a mãe da democracia, não foi?’. [...] Isso já aconteceu uma, duas, várias vezes. Você vence uma eleição porque ela é imposta ao país, mas é encarada como uma rua de mão única. A maioria dos países da região não está preparada para eleições. [...] Caso haja uma eleição genuinamente livre – supondo que isso possa mesmo acontecer –, os partidos religiosos contam com uma vantagem imediata. Primeiro, sua rede de comunicação baseada nos pregadores das mesquitas, rede essa com que nenhuma outra tendência política pode esperar se igualar. Segundo, eles falam uma linguagem familiar. A linguagem da democracia ocidental é, em sua maior parte, recém-traduzida e ininteligível para as grandes massas.”

Tradição consultiva

Para Lewis, a alternativa mais viável aos regimes autoritários ora violentamente contestados está na tradição ‘consultiva’ que tem uma longa história na região e por muito tempo serviu de base às instituições de autogoverno local.

Ele explica o funcionamento desse arranjo valendo-se de trechos de um relatório do embaixador da França absolutista na corte do sultão turco, poucos anos antes da Revolução Francesa. Pressionado por seu governo a avançar mais rápido numa negociação que se arrastava havia muito, o diplomata reagiu: ‘“Os senhores têm de entender que isto aqui não é a França, onde o rei é o único senhor e pode agir a seu bel-prazer. Aqui, o sultão precisa consultar os atuais ocupantes dos altos postos, precisa consultar os antigos ocupantes desses altos postos. Tem de consultar os mercadores, as corporações artesanais, todos os demais grupos”’.

O professor admite que esse sistema de consultas entre grupos não é sinônimo de democracia, “como empregamos essa palavra no mundo ocidental.” Mesmo assim, lhe reconhece “uma autoridade” não-estatal, “que emana de dentro do grupo, seja este o dos proprietários rurais, ou do serviço público, ou ainda dos escribas, ou lá do que for. Isso é muito importante. Essa forma consultiva é capaz de fornecer uma base muito mais sólida para o desenvolvimento de um governo livre e civilizado”, no futuro. (Noto que Lewis inclui nessa tradição até mesmo o atual governo multipartidário do Iraque, pacientemente montado pelo premiê Nuri al-Maliki, uma xiita moderado, nove meses depois das eleições gerais, com apoio dos Estados Unidos. Maliki tem três vices, um curdo, um sunita e um xiita, e seu gabinete conta com 34 ministros representantes dos diversos grupos étnicos e religiosos do país. Haja consulta!)

As recomendações de Bernard Lewis trazem à memória a clássica distinção que a teoria política estabelece entre democracia e liberalismo. A primeira expressa o método decisório baseado na regra da maioria (quem tem mais votos ganha e leva). Já o segundo é fruto de uma tradição que remonta à Magna Carta, de 1215, que os vassalos do rei inglês João Sem Terra lhe impuseram, eliminando a decretação de novos tributos sem o consentimento do conselho formado pelos representantes da nobreza, o que viria a se transformar na Câmara dos Lordes. Enfim, liberalismo corresponde à defesa do indivíduo contra o arbítrio de todo e qualquer governo, mesmo que este seja respaldado por esmagadora maioria do povo e seus representantes. Este é o fundamento dos direitos das minorias – sejam elas políticas, religiosas, culturais ou de qualquer outro tipo – no contexto desse regime híbrido gerado pela experiência histórica do Ocidente e conhecido como democracia liberal. Nas últimas décadas, ele foi transplantado para solos distantes, com um razoável histórico de sucesso, como exemplificam os casos da Turquia e da Indonésia, que, a propósito, são países esmagadoramente muçulmanos, ainda que não árabes.

Mas, afinal, se não é o ideário liberal-democrático aquilo que impulsiona as manifestações de massa na Tunísia e no Egito e, agora também, a guerra civil na Líbia, o que é, então? A resposta de Lewis motiva uma viagem às profundezas do inconsciente coletivo  islamo-árabe. “Existe um tema comum de raiva e ressentimento. E a raiva e o ressentimento são universais e bem fundamentados. Provêm de uma série de fatores. Antes que tudo, existe o óbvio: a maior percepção que essas pessoas têm, graças aos modernos meios de comunicação, da diferença entre a situação delas e a situação em outras partes do mundo. Quero dizer, ser abjetamente pobre é ruim demais. Mas, quando todos os demais à volta de você estão muito distantes dessa situação de pobreza abjeta, então isso se torna intolerável. Outro aspecto é o sexual. É preciso lembrar que, no mundo muçulmano, o sexo casual, ao estilo ocidental, não existe. Se um jovem quer sexo, ele tem duas possibilidades: o casamento e o bordel. Aí estão essas vastas multidões de homens jovens, sem dinheiro quer para o bordel, quer para o dote, com um furioso desejo sexual. De um lado, isso pode levar o sujeito a se tornar um homem-bomba, atraído pelas virgens do paraíso, as únicas ao seu alcance. De outro, à pura frustração.

Mais adiante, o mestre tenta explicar por que muitos membros das multidões que vão às ruas exigindo a queda dos seus ditadores são os mesmos que as pesquisas de opinião apontam como defensores de castigos físicos ou até da pena capital para adúlteras e homossexuais: “Não é fácil definir do que eles estão a favor. É muito mais fácil definir a que eles se opõem. São contra as atuais tiranias, que, no seu entender, não apenas os oprimem, mas também desonram seu nome, sua religião, sua nacionalidade. Querem algo melhor no lugar delas. Só que esse algo melhor é definido de diferentes modos. Normalmente, eles não falam em termos de democracia parlamentar, eleições livres e assim por diante. Isso não faz parte do discurso comum. Para diferentes grupos, significa coisas diferentes. Mas, comumente, a coisa é definida em termos religiosos. Não significa, necessariamente, o tipo de religião adotado pela Irmandade Muçulmana. Há também uma tradição islâmica [...] como a que eu referi anteriormente, a tradição consultiva. É uma forma de governo”.

Mulheres

Em outra parte importante da entrevista, Lewis traz à baila uma questão que considera decisiva para o rumo dos recentes acontecimentos no Oriente Médio: a condição feminina e seu futuro. Ele tende a compartilhar a visão de que a principal razão do relativo atraso do mundo islâmico, em comparação com o Ocidente, é o tratamento dispensado às mulheres. Nesse ponto, invoca o testemunho pioneiro do escritor turco Namik Kamal, proferido por volta de 1880. ‘“Ele disse: ‘[...] Pela maneira como tratamos as nossas mulheres, nos privamos do talento [...] da metade da população. E ainda confiamos a primeira educação da outra metade a mães ignorantes e humilhadas’. A questão vai além disso. Uma criança criada num lar muçulmano tradicional se acostuma ao mando autoritário, autocrático desde o começo. Penso que a situação das mulheres é de crucial importância”.

Por isso, ele não se surpreendeu com o fato de a revolução de jasmim haver começado na Tunísia, “o único país árabe que realmente fez alguma coisa pelas mulheres. Na Tunísia, a educação é obrigatória para as meninas, da escola primária em diante. Na Tunísia, há mulheres exercendo profissões de nível superior. Existem médicas, advogadas, jornalistas, políticas e assim por diante. As mulheres desempenham um papel significativo na vida pública tunisiana. Penso que isso vai ter um enorme impacto. Já está tendo na Tunísia, e você pode ver isso de várias maneiras. Mas isso, certamente, se alastrará a outras partes do mundo. [A] questão da mulher e do seu papel é de crucial importância para o futuro do mundo muçulmano em geral.”

Aproximando-se do final da conversa Bernard Lewis dá um conselho aos israelenses, que, como quase todo o mundo, foram surpreendidos pelo estouro das revoltas na sua belicosa vizinhança: “Observem cuidadosamente, mantenham silêncio e tomem as providências necessárias”. Por fim, recomenda também que o Estado judeu aprenda a aproveitar melhor a vantagem do seu efeito-demonstração nos seus vizinhos. Quase nenhum analista comenta isso, mas existe “um número crescente de pessoas no mundo árabe que olham, eu até diria, com fascínio o que veem em Israel, o funcionamento de uma sociedade livre e aberta. [...] Um modelo de governo democrático, de sociedade livre e aberta com direitos para as mulheres – um ponto cada vez mais importante especialmente na percepção delas próprias. [...] Cada vez mais [as pessoas] compreendem isso [e] [...] estariam muito mais dispostas a falar abertamente a esse respeito se se sentissem seguras para fazê-lo, o que, obviamente, não é o caso”.

Concluindo

Quem ficou pelo menos curioso com os trechos da entrevista que acabo de comentar deve, é claro, acessá-la e lê-la na íntegra. Suspeito que muitos leitores sairão convictos de que as observações de Lewis corroboram a tese fatalista de Huntington e sepultam de uma vez por todas as esperanças de Fukuyama quanto à expansão indefinida da liberal-democracia.

Os antiamericanos mais afoitos, então, terão ‘interpretado’ cada linha da entrevista como uma condenação cabal do delírio ideológico do ex-presidente George W. Bush e dos seus asseclas neoconservadores quando pretenderam semear a tenra plantinha da democracia no desértico solo do Iraque...

Não penso assim. Lewis parece-me menos um velho desiludido com a capacidade dos povos muçulmanos do Oriente Médio para construírem para si formas não-patológicas de convivência política, do que um observador bem informado, experiente e realista – alguém que sabe que o objetivo estratégico da liberal-democracia não está logo ali na esquina, mas que, ainda sim, vê o resgate da tradição consultiva islâmica como um meio tático importante para, um dia, alcançá-lo.

Também creio seja prematuro afirmar que a mudança de regime operada pelos Estados Unidos no Iraque não passou de um redondo e sangrento fracasso. Outro bom artigo que li no feriadão, Iraq, from surge to sovereignty, da ex-consultora política-chefe do Comando Geral da Força Multinacional no Iraque entre 2008 e 2010, Emma Sky (para a Foreign Affairs de março/abril), alinha informações e dados, desenvolve argumentos, enfim, ilumina avanços que põem em xeque essa interpretação catastrofista (redução significativa do número de baixas e da frequência de atentados terroristas e capacitação das forças de segurança locais para assumir tarefas de policiamento depois da retirada dos americanos).

E, por favor, vamos parar de imaginar que foi a direita republicana dos Estados Unidos que inventou a estratégia de regime change! Como prova o bem escrito e melhor documentado livro do cientista político da Universidade da Virginia John M. Owen IV, The Clash of ideas in world politics: transnational networks, states, and regime change, 1510-2010 (Princeton University Press, 2010), ao longo do último meio milênio ocorreram nada menos de 209 intervenções promovidas por potências militares com a finalidade de mudar a ideologia e as regras do jogo do poder em outros países. Essas intervenções, esclarece Owen, se deram em três grandes “ondas”: a primeira, entre 1520 e o início do século seguinte, pôs em luta monarcas católicos e protestantes na Europa Ocidental e Central; a segunda, da década de 70 do século 18 até o final do século 19, varreu as Américas e a Europa sob a forma de combates entre os modelos monárquico-absolutista, monárquico-constitucional e republicano; a terceira onda, do final dos anos 10 ao final dos anos 80 do século passado, se traduziu nas rivalidades entre comunismo, liberal-democracia e fascismo (este até 1945). Para o autor, o início deste século marca o advento de uma quarta onda,  contrapondo “secularismo” a “várias formas de islamismo”, na sequência dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, que arrastaram o governo Bush à intervenção militar no Afeganistão e no Iraque.

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