O olhar blindado

Márcia Denser *

O fato político, a partir da morte de J.F.Kennedy em 1963, tornou-se puro espetáculo. Contudo não basta constatar “que tudo é circo” e pronto, assim em seco. É necessário ir às fontes do conceito “sociedade do espetáculo” formulado pelo pensamento crítico francês (e não anglo-saxão).

Ensina Guy Debord que a sociedade modernizada até o estágio espetacular integrado se caracteriza pela combinação de cinco aspectos principais:
1 - a incessante renovação tecnológica;
2 - a fusão econômico-estatal;
3 - o segredo generalizado;
4 - a mentira sem contestação;
5 - o presente perpétuo.

No plano das técnicas, a imagem construída e escolhida por outra pessoa se tornou a principal ligação do indivíduo com o mundo que, antes, ele olhava por si mesmo. A partir de então, é evidente que a imagem será a sustentação de tudo, pois dentro de uma imagem é possível justapor sem contradição qualquer coisa. O fluxo de imagens carrega tudo; como perpétua surpresa arbitrária, não deixa nenhum tempo para a reflexão, independente do que o espectador possa entender ou pensar. Nessa experiência concreta de submissão permanente encontra-se a raiz psicológica da adesão tão unânime ao que aí está.

O discurso espetacular faz calar tudo o que não lhe convém. É, portanto, totalmente ilógico. E como já ninguém pode contradizê-lo (pois a lógica não é fácil e ninguém quer ensiná-la aos espectadores) este é o império da “ideologia do pensamento único”.

Onde impera a falta de lógica, isto é, a perda da possibilidade de reconhecer de imediato o que é importante, o que é secundário e o que é fora de propósito, este é o resultado da espetacularização capitalizada global: um mundo irracional.

Nenhum drogado estuda lógica. A supressão da personalidade acompanha fatalmente as condições da existência submetida às normas espetaculares – cada vez mais afastada da possibilidade de conhecer experiências autênticas e, por isso, de descobrir experiências individuais. Essa existência postula uma fidelidade sempre em mutação, uma série de adesões decepcionantes a produtos ilusórios. Trata-se de correr atrás da inflação dos sinais depreciados da vida. A droga ajuda a pessoa a se conformar com essa organização das coisas; a loucura ajuda a evitá-la.

O próprio MacLuhan, o primeiro apologista do espetáculo, que parecia o imbecil mais convicto do século XX, mudou de opinião ao descobrir enfim, em 1976, que a pressão da mídia conduz ao irracional. O pensador de Toronto passou décadas a louvar as múltiplas liberdades trazidas pela “aldeia global”, de acesso instantâneo a todos e sem esforço, só que as aldeias, ao contrário das cidades, sempre foram dominadas pelo conformismo, pelo isolamento, pelo controle mesquinho, pelo tédio, pelos mesmos mexericos seculares. No fundo, MacLuhan acertou quanto às denominações e ao método, sem perceber que o resultado seria exatamente o oposto.

A esta altura, vocês devem estar se perguntando onde quero chegar com toda essa conversa para boi dormir, não é? Na realidade já cheguei e o recado é para quem (como eu) assiste o desenrolar da CPI: BLINDEM O OLHAR, armem-se até os dentes, confrontem as imagens, tentem não sucumbir à fascinação soporífera da telinha. O embotamento crítico, a estupidez satisfeita e a covardia generalizada – as três características mais marcantes dos brasileiros pós-90 – começam aí.

Sem demagogia, mas algo pensado e escrito por sujeitos como Orwell (1984), como Chomsky: não são os políticos nem os poderosos que irão mudar as coisas, mas o povo, ou seja, nós. Todos nós. A menos, é claro, que para você esteja tudo bem, tudo certo, wonderful, maravilha.

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