O nascimento do Estado palestino e a Primavera Árabe

A Assembléia-Geral das Nações Unidas deverá votar, durante o presente mês de setembro, se reconhece ou não a Palestina como um Estado soberano e independente. Considerando que há de fato grande chance de aprovação, o nascimento do Estado palestino e a atual Primavera Árabe representam uma reconfiguração geopolítica de extrema importância para o Ocidente, devendo gerar ganhos políticos e econômicos significativos para os Estados Unidos, para alguns países Europeus, mas, também, para o Brasil.

A ONU caminha decisivamente para a chamada solução de dois estados, apoiada pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Hussein Obama. Essa solução refere-se à criação do Estado palestino como “solução” para o conflito intratável existente com o Estado de Israel. O jogo geopolítico é dos mais complexos e incertos. O governo israelense já avisou que deve convocar reservistas para uma eventual escala do conflito violento com os palestinos, especialmente na Faixa de Gaza.

É fundamental o fato de que a chamada Primavera Árabe foi capaz de derrubar os mandatários do Egito, da Tunísia e da Líbia, mas, até o momento, não houve mudança na maneira de governar. Por isso, egípcios e tunisianos continuam nas ruas em confronto com a polícia.

Tal semi-continuidade de poder abre questionamento sobre o suporte que esses governos dão aos movimentos palestinos. Historicamente eles têm apoiado o Fatah. Partido nacionalista e maior facção da organização para a Libertação da Palestina (OLP), o Fatah defende a negociação como forma de “reconciliação” com os israelenses. O Outro grupo político, o Hamas, é formado por uma entidade filantrópica, um partido político e um grupo armado. Muitos países, como os Estados Unidos, consideram o Hamas um grupo terrorista. Para outros países, terrorista é apenas seu braço armado.

Terra de “quase 60 mil palestinos” e cerca de 10 milhões de descendentes de árabes, segundo o Comitê Brasileiro de Interesse Nacional Palestino, e de 90 mil judeus, conforme o IBGE, o Brasil possui uma postura bastante diferente. O governo brasileiro tem se colocado como player nas questões políticas no Oriente Médio e incentivado trocas comerciais com diversos países árabes e, também, com Israel.

Neste processo, o Brasil se credenciou como um interlocutor crível e equilibrado no processo de paz. No último 3 de dezembro, o governo brasileiro reconheceu o Estado palestino, segundo as fronteiras existentes anteriormente à guerra dos Seis Dias, ocorrida em 1967. Na América Latina, Argentina, Paraguai, Uruguai e Chile também já manifestaram apoio à criação do novo Estado.

Além da dimensão política, o Ministério das Relações Exteriores tem promovido a cooperação técnica com os palestinos, mas ao mesmo tempo assinou um acordo de livre comércio de Israel com o Mercosul. Também concedeu empréstimo de R$ 5,4 milhões destinados três finalidades: reformas econômicas do governo palestino, reforço da paz, e promoção da igualdade. Esse valor se agrega aos cerca de US$ 20 milhões doados pelo Brasil para o desenvolvimento dos territórios palestinos ocupados.

Nas Relações Internacionais, a chamada Cooperação Técnica, muitas vezes baseada na concessão de recursos de doação, é parte de uma estratégia mais ampla de envolvimento político e comercial. O Brasil tem procurado expandir seus interesses e tornar positiva a balança comercial com países árabes. Porém, ele não é o único a fazer esse movimento.

Os Estados Unidos e países europeus planejam auferir ganhos de igual natureza, mas de escala exponencialmente maior. No dia 30 de agosto, Obama retirou a restrição de concessão de financiamentos à Autoridade Palestina. Essa medida impeditiva fora criada em 2007, quando o Hamas venceu as eleições para controle da Faixa de Gaza.

No mesmo dia, a senadora Illeana Ros-Lehtinen, republicana e presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado estadunidense, apresentou projeto de lei que altera o critério de financiamento que o governo dos Estados Unidos concede às Nações Unidas. Pela proposta, os norte-americanos poderão escolher os projetos que eles financiam e aqueles que não devem receber dólares. A ideia é restringir financiamentos aos palestinos e proteger Israel.

Obama terá, portanto, uma boa briga nessa Casa Legislativa, onde 27 senadores já se manifestaram, em maio passado, contrariamente a qualquer ajuda aos palestinos. Como as eleições presidenciais nos Estados Unidos ocorrem no próximo ano e o presidente já está em campanha (http://www.barackobama.com/), Obama terá que correr contra o relógio para conseguir alavancar a paz entre palestinos e israelenses a níveis nunca antes vivenciados.

Essa conjuntura ajuda a compreender a decisão do governo britânico, também tomada no último dia 30 de agosto, de descongelar US$ 1,5 bilhão de dinheiro Líbio retido em bancos britânicos. O dinheiro irá para operações humanitárias das Nações Unidas na Líbia.

Tal ajuda humanitária chega na frente de interesses comerciais. Se a aproximação estadunidense e européia com os países árabes agrega estabilidade ao sistema internacional por reduzir chances de terrorismo, ela também possui o efeito adicional de procurar ocupar um espaço atualmente preenchido pela China, e de colocar o Irã em uma sinuca de bico.

No Irã, o governo de Mahmoud Ahmadinejad enfrenta uma crise econômica e social, com grande aumento da criminalidade e dissolução de casamentos, dois temas que os líderes religiosos, os aiatolás, não suportam. Caso a Primavera Árabe resulte na (provável) queda do atual governo da Síria, o Irã, seu aliado, ficará ainda mais desestabilizado, consequentemente enfraquecendo o Hezbollah, grupo político e paramilitar xiita, com atuação no Líbano, que tem sido apoiado pelo ditador sírio Al-Assad. Portanto, se o governo da Síria cair, o governo do Irã poderá facilmente levar uma puxada de tapete.
 
Com relação à China, seus investimentos na África são volumosos. Apenas na Líbia, os investimentos conhecidos da China somam US$ 20 bilhões, financiando principalmente a cadeia de extração de petróleo, energia e transportes. Boa parte do continente africano serve como fonte de inúmeras matérias-primas extraídas a baixos custos e sem critérios sociais e ambientais avançados. Essa fonte de recursos ajuda a economia chinesa a se estabelecer internacionalmente em todos os segmentos industriais, com preços praticamente imbatíveis.

Para diversas economias no mundo é fundamental aumentar os custos de produção chineses. Como não se pode interferir diretamente nas políticas internas da China, a alternativa é dificultar e tornar mais custoso o acesso chinês a matérias-primas.

Caso os Estados Unidos e a Europa não consigam aumentar os custos de produção chineses, o processo de desindustrialização de suas economias pode atingir níveis críticos, dificultando a manutenção do dólar como moeda âncora e, em última instância, da liderança econômica, política e militar dos Estados Unidos. Os efeitos na economia de outros países, como o Brasil, também são extremamente severos.

Portanto, o nascimento do Estado palestino representa um momento decisivo para o futuro próximo. Haverá uma reconfiguração de forças políticas no Oriente Médio, com impactos diretos nas eleições norte-americanas. Ao mesmo tempo, abre-se caminho para a “ocidentalização econômica” do mercado consumidor árabe e, em seguida, do restante da África. Esse arranjo pode também contribuir para alavancar a combalida economia dos países ocidentais industrializados.

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