O livre arbítrio

Jaci encontrou Emanuel conversando com Agostinho de Hipona, um bispo conhecido por seus conhecimentos teológicos e livros importantes para o cristianismo. Resolveu não se aproximar. A pequena Lua sabia que o amigo Emanuel adorava conversar com os doutores do Templo. Ele perdia a noção do tempo quando se tratava de ampliar a sua onisciência. Assim, escolheu não interferir no debate acalorado que, carinhosamente, unia os dois personagens.

Ao escolher esperar, resolveu ler, quietinha, o livro que reservara para a leitura noturna. Assim, abriu o Padmasambhava, e encontrou a seguinte lição de Buda: “Se queres saber sobre tua vida passada, olhe para tua vida presente; se queres saber sobre tua vida futura, olhe para teus atos presentes.” Reflexiva, começou a analisar as suas escolhas do passado que moldaram o seu presente. Nele, relembrou quando iluminou, esperançada, a chegada de treze caravelas na terra que chamava de Pindorama. Não imaginara que a missa que os homens desembarcados rezaram para louvar uma divindade amorosa, seria o início do extermínio de grande parte de seu povo.

– Acho que o nosso encontro dançou – era a voz de Oxalá, trazendo o pensamento de Jaci para o mundo do presente. – Como atrair a atenção de Emanuel quando está com os doutores e de Jaci concentrada nos livros? Sem chance!

Èpa Bàbá! – saudou Jaci, abrindo o seu lindo sorriso. – E deixe de ser ciumento. Escolho conversar com o meu orixá preferido a qualquer livro.

– Eu gosto do mundo das suas escolhas, Jaci – brincou Oxalá. – Viver é fazer opções, é ter que, diariamente, fazer escolhas sobre todas as coisas. Mesmo o ato de não escolher é uma escolha, uma forma de decidir.

– O problema mesmo são as escolhas das criaturas que colocamos na terra – ponderou Oxalá. – E não estou falando das escolhas que eles fazem no nascer da consciência. O momento de engatinhar ou caminhar. O ficar ou o namorar a pessoa amada. A amizade que queremos como modelo ou até mesmo a profissão que será exercida. Não são essas escolhas que me preocupam.

– E quais são as suas preocupações, amigo? – interrompeu Emanuel, que entrara na sala, portando uma antiga Bíblia na mão, escolhida previamente para presentear o amigo Agostinho. – Estou conversando com Agostinho exatamente sobre o livre arbítrio, que ele diz ser a possibilidade da humanidade escolher entre o bem e o mal. Embora defenda que devemos estimulá-la a ter a liberdade de fazer bom uso do livre arbítrio.

– O que tem me preocupado é a moda inventada por alguns governantes – esclareceu Oxalá. – É essa história de ter que escolher entre a “opção econômica” ou a “opção social”. Entre a proteção do Mercado ou a defesa da Vida no enfretamento da pandemia que eles estão sofrendo.

– Oxente! O que há de novidade nesse dilema? – perguntou Jaci. – Eles sempre escolheram a “opção econômica”. Nunca abandonaram a política que preserva o privilégio do Capital sobre as pessoas. Para eles, a pessoa humana é uma espécie de mercadoria a ser apropriada como coisa, assim como fazem com a natureza e as riquezas que nela colocamos para serem usufruídas universalmente.

– Verdade Jaci! – Por mais que tenhamos ensinado a eles que escolher a “opção social” é o melhor caminho para a salvação, eles seguem praticando a desigualdade e a injustiça – concordou Emanuel. “Bem-aventurado é aquele que atende ao pobre; o Senhor o livrará no dia do mal!”

– Mas não é de agora mesmo – também assentiu Oxalá. – Lembrem-se que até diziam que eram diferentes e superiores desde a nascença, pois integrantes da nobreza,  sangue-azul e fidalgos. E que não perdiam essas qualidades mesmo quando escravizavam e traficavam pessoas, invadiam terras ou exploravam a vida humana.

– Mas hoje eles falam mais bonito. Não falam que exploram ou assassinam os nossos povos – retomou Jaci. – Eles usam palavras que soam modernas, como globalização, razões de mercado, riscos econômicos, privatizações, competitividade, defensivos agrícolas, flexibilização de direitos, blindagem econômica, exploração sustentável da floresta e outras variantes para o mesmo gênero.

– Acabei de escutar de Agostinho,  que “As pessoas costumam amar a verdade quando esta as ilumina, porém tendem a odiá-la quando as confronta” – complementou Emanuel. – Essa turma acha delirante e inconveniente quando pregamos isso.

– “Somente após a última árvore ser cortada. Somente após o último rio ser envenenado. Somente após o último peixe ser pescado. Somente então o homem descobrirá que dinheiro não pode ser comido” – recitou Jaci um provérbio do povo Cree.

– A humanidade é responsável por suas próprias escolhas. Foi para a liberdade que meu Pai a libertou – reafirmou Emanoel. – Espero que todos “permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão”.

–  “Que os orixás livrem todos da morte, da guerra, dos acidentes, tanto em casa como na rua, em todo lugar”, como diria minha Mãe Menininha do Gantois – suspirou Oxalá. – E que saiam da acomodação, da submissão, para a ação transformadora do mundo.

– “A verdade deve ser dita com amor, mas o amor nunca pode impedir a verdade de ser dita” – concluiu Emanuel com outro ensinamento do amigo visitante.

– O  nosso amor pela humanidade não pode nos impedir de enxergar que ela mesma está escolhendo a autodestruição – concordou Oxalá. – O livre-arbítrio está sendo praticado para ampliar a maldade, especialmente através de governantes que têm a obrigação de combatê-la.

– A ação, a omissão ou o simples acomodamento tem provocado consequências seríssimas – concordou Jaci. – Mas no time das boas escolhas gostei muito da que Buda fez. Ele escolheu sair da proteção e do luxo da cidade encantada criada pelo seu pai, para encantar o mundo com a sua mensagem de paz, simplicidade, retidão e amor. Esse é o verdadeiro livre-arbítrio que devemos ensinar.

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