O impostor – o que há em comum entre a Lava Jato e o livro de Javier Cercas

Javier Cercas, escritor espanhol pouco conhecido no Brasil, tem entre seus livros um com o título de O Impostor. Nele, Cercas narra a história de Enric Marco, catalão que ganhou reconhecimento e homenagens públicas em toda Espanha e parte da Europa.

Enric Marco foi, entre outras coisas, presidente da Amical de Mauthausen, associação que reúne os sobreviventes espanhóis dos campos de extermínio nazistas e, nesta condição, fazia discursos emocionados e emocionantes sobre como funcionavam os campos de extermínio.

Narrava os horrores que milhares de homens, mulheres e crianças passavam nesses locais. Marco deu palestras, entrevistas, conferências em escolas, universidades, parlamentos e depoimentos para jornais, TVs, livros etc.. Recebeu medalhas e foi homenageado por líderes de todo o mundo.

O Impostor de Cercas é um extraordinário romance. Não é ficção, é crônica, é biografia e autobiografia. Conta, e ao mesmo tempo se pergunta e nos pergunta, como pode um homem (Enric Marco) conseguir enganar por tanto tempo um país? Como pode este homem, Enric Marco, se tornar um dos maiores impostores da história da humanidade?

Em entrevista à Sylvia Colombo, publicada na Ilustrada (editoria de cultura do jornal Folha de S.Paulo) em 16 de maio de 2015, Javier Cercas afirma que Marco “é um espelho monstruoso do que somos todos nós”.

“Marco inventou um passado heroico porque queria que todos o admirassem, que o quisessem.”

Sylvia Colombo, na entrevista, afirma: “Houve críticas por você ter dado voz a um impostor, como se assim o justificasse”. Ao que responde Cercas: “Acho um erro a ideia de que não devemos buscar entender a razão dos vilões. Necessitamos entender o Mal. Se não entendemos o Mal, não podemos combatê-lo. [...]. Não basta dizer que Hitler foi um monstro. Gritar que há uma bomba não a desarma, é preciso ir até ela e desativá-la”.

O romance é não-ficção. A história de Marco é ficção. Marco começa a construir sua (mentira) história-ficção na juventude, atribui-se um passado de lutador contra a ditadura franquista. Mistura fatos com mentiras e, assim, vai traçando sua autobiografia.

Muitos desejam ter algo, sem ser alguém. Alguns desejam ser alguém, não se importando em ter. Muitos desejam ser aquilo que não são. Marco é este caso: ser o que não é.

Vivemos uma época em que há impostores (gente querendo ser o que não é) em todas as instituições e por todos os lados. O Brasil não é exceção. Eric Marco foi desmascarado quando já tinha mais de 80 anos de idade.

Espero que, para cair a máscara da impostura que representa a Operação Lava Jato, não seja necessário tanto tempo. Enric Marco tinha que, assim como deve ser com os membros da Lava Jato, todos os dias fazer exercícios mentais de como não esquecer a história que inventou e, a cada dia, retomar o mesmo fio da meada, continuar a desenrolá-lo para criminalizar as suas vítimas.

Nestes mais de 80 anos, não sei quantas vezes Marco entrou em contradição. Os membros da Lava Jato, apesar de negarem, já perderam as contas, mas a recuperam com a ajuda de computadores e da Rede Globo.

Enric Marco não tinha provas de ter estado dentro de um campo de extermínio, formou a convicção de que lá esteve e convenceu muita gente.

Vargas Llosa no artigo, “La era de los impostores”, escreve:

¿Que Marco era, que es, un narciso codicioso de publicidad, un ávido mediópata, obsesionado por salir siempre en la foto? […]. Pero su enfermedad es una enfermedad de nuestro tiempo, la de una cultura en la que la verdad es menos importante que la apariencia, en la que representar es la mejor (acaso la única) manera de ser y de vivir.

La ficción ha pasado a sustituir a la realidad en el mundo que vivimos y, por eso, los mediocres personajes del mundo real no nos interesan ni entretienen. Los fabuladores, sí.

Os membros da Lava Jato não têm provas de que o Lula cometeu crimes, mas têm a convicção. Ocorre que Marco não precisava provar que esteve num campo de extermínio, bastava convencer. Mas Moro tem que provar que há crime.

“Gritar que há uma bomba não a desarma, é preciso ir até ela e desativá-la.”

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