O governo está virando pó

Responda aí, sem titubear:

- Qual é a personalidade de relevo do governo Bolsonaro, inclusive o próprio, que ainda não está derretendo?

Se a cachorrinha da primeira-dama for considerada uma personalidade de relevo (nem sei se ela tem cachorrinha), é capaz de dar pra colocá-la como exemplo único. Mas não pode demorar muito, senão até a lulu da madame entra rapidinho na rota dos desgastes em cascata que vêm ocorrendo.

Pela ordem, de cima pra baixo (ou de baixo pra cima, dependendo do ponto de vista): Bolsonaro, o capitão-presidente, amarga índices rasteiros de popularidade desde que subiu a rampa. E continua em queda. Também, pudera. Quando sua tropa não lhe cria dificuldades ele próprio se apressa em aprontar alguma bobagem pra ajudar a limar a própria imagem. Se analisar o quadro em retrospectiva, a gente pode começar pela sua última trapalhada. Dia sim e outro também ele se desmente ou é desmentido em público. Por exemplo: como condição para convencer os parlamentares a aprovar a reforma da Previdência, comprometeu-se a suprimir todos os privilégios. Urrando à tropa, trombeteou que todos deviam dar sua cota de sacrifício. Até ouvir pela janela do 4º andar do Palácio do Planalto a atoarda dos policiais exigindo tratamento diferenciado no projeto em exame e acusações fortes, entre elas a de “traidor”. Rapidão ele saiu da zona de conforto e foi passar a mão na cabeça dos camaradinhas. Bateu a mão no telefone e ligou pessoalmente pra vários deputados, inclusive o relator, Samuel Moreira, com aquela voz “delicada” que o caracteriza: “Ô, Moreira, dá uma aliviada aí que esse pessoal deu uma mãozinha boas pra me eleger, vê aí se dá uma força, talquêi?” Talvez não tenha sido exatamente assim, mas aposto que foi parecido.

O relator do projeto da reforma previdenciária não se comoveu com o pedido, e segurou a onda. Deve ter se lembrado daquela intromissão indébita que Bolsonaro fez ao sustar um aumento dos preços do diesel pela Petrobras, que além de derrubar as bolsas deu um prejuízo destamanho – 32 bilhões de desvalorização da estatal num tapa só. Moreira preferiu segurar o balaio sem fazer marola, peitou o capitão e disse que a ajudinha aos camaradas de farda não ia rolar. E não rolou.

Pra cada peso uma medida

O homem forte do governo, que atende pela alcunha de Posto Ypiranga mas na intimidade é conhecido por Paulo Guedes, ainda outro dia caiu de pau nos servidores públicos acusando-os de mover um baita lobby em proveito próprio junto à comissão da reforma da previdência. Mas fez um silêncio tumular diante da gritaria dos policiais. E faz sentido. Afinal, para cada peso, uma medida, talquêi?

O ministro da Educação – ou seriam os ministros da educação? – todo dia chuta uma bola fora. Desde o corte dos recursos para as instituições superiores até a suspeita decisão de fazer as provas do ENEM de forma virtual, Weintraub coleciona uma lista gorda de frases que não deveriam estar na boca de um ministro... da educação! Se o antecessor polemizou ao anunciar que ia retirar a narrativa do golpe militar de 64 dos livros de história, entre outras sandices, o atual já trocou Kafka por kafta, ameaçou de corte as universidades onde disse haver “balbúrdia” e baixos índices de aproveitamento (no dia seguinte, a UnB, principal acusada de balburdiar,  subiu no ranking das melhores universidades da América do Sul), incentivou os alunos a fazerem delação de professores que faltassem às aulas para participar de manifestações, errou na matemática quando usou chocolates para provar que o contingenciamento dos recursos era pequeno e virou alvo de chacota mundial numa versão tosca de Gene Kelly em “Cantando na Chuva”, ao aparecer numa live usando guarda-chuva, segundo ele, “para se proteger de fake news”...

O laranjal e o mangueiral

O ministro do Meio Ambiente, coitado, não apenas faz, como diz bobagens. O ministro do Turismo tem de se segurar numa corda bamba e rota para explicar que não tem nada a ver com as candidaturas-laranjas que brotam no quintal dele numa safra de dar gosto a qualquer agropecuarista. Por falar nisso, a ministra da Agricultura, para ficar apenas numa frase infeliz, disse que brasileiro não passa fome porque tem manga pra comer... Maria Antonieta pelo menos foi mais charmosa, ao recomendar que o povão comesse brioches na falta de pão.

Augusto Heleno, que até aqui vinha tendo uma postura equilibrada, desequilibrou-se ao subir num caminhão de som para fazer comício em favor de Bolsonaro na última manifestação organizada pelos seus apoiadores. Isso é papel de ministro de estado?

Sérgio Moro, aquele que jogou fora a imagem em troca de um carguinho ali no STF, anda se espremendo pra explicar como foi possível apitar o jogo e jogar no ataque ao mesmo tempo. Era outro homem forte que derreteu e continua pingando a cada vazamento de titica do The Intercept.

Além de tudo, azarado

Se for computar todas as idiotices que Bolsonaro vem dizendo – a última foi a afirmação de que trabalho (de crianças) “não atrapalha a vida de ninguém” – dá pra encher um caminhão que vai sair derramando porcaria pelo caminho de tão lotado. Ele não apenas derrete como se autoderrete.

Além de tudo, o capitão não dá sorte. Acreditou que dava pra repetir a presepada de posar com a camisa do Flamengo com Moro ao lado naquele jogo em que foi aplaudido. Mas no dia em que o Brasil enfrentou a   Argentina, mal foi anunciado no estádio, levou uma sonora vaia, mesmo rodando a bandeira nacional à moda Janaína Paschoal, a Pomba Gira dos trópicos. E olha que o Brasil ganhou, imagina se perde aquele jogo.

Pra completar a urucubaca, o capitão nunca vai engolir – nem cheirar – aquele carregamento de cocaína encontrado no avião reserva da FAB a serviço da Presidência. Aquele baque ele vai soluçar pelo resto da vida. Bem que podia ter ocorrido num daqueles governos do PT, né? Mas aconteceu logo no dele.

Todos os personagens importantes do governo vêm dando substanciosas cotas de contribuição para o afundamento. Por isso, aqueles 39 quilos de tapioca lá do avião mal dão pra fazer meia dúzia de beijus. O  governo do capitão está literalmente – e sem trocadilhos - virando pó. Muito pó.

>>Estamos em queda livre. Mas, até aqui, tudo bem, né?

>>Rainha da Inglaterra? Yes, my captain. E ache muito bom!

 

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