O gato, o rato e o porrete

Leio jornais, revistas e sites cotidianamente e quando encontro algo que entendo interessante, guardo. Se jornal ou revista, destaco a página e coloco em algum arquivo ou gaveta. Se site, salvo a matéria em alguma pasta do meu computador. Às vezes, esses artigos ficam na gaveta ou pasta por algum tempo, quando não anos, e ao reencontrá-los vejo que não há mais razão para guardá-los, então jogo fora. Outras vezes, os utilizo para escrever sobre o tema.

Domingo, dia 22 passado, revendo no computador alguns desses artigos encontro um publicado no site da revista Carta Capital no dia 13 de abril deste ano. No site, há o texto e uma foto ilustrando-o. A foto retrata um jovem homem negro, usando um jaleco azul com as iniciais SMAS, que suspeito ser a abreviatura de Secretaria Municipal de Assistência Social do Rio de Janeiro, com luvas brancas, correndo atrás de outro jovem, também negro.

Sob a foto, a legenda “Gato e rato: eis a estratégia usada pelos agentes da prefeitura”. Esclareço: estratégia usada para convencer o usuário de crack ou de outras drogas de que ele deve se internar para ser tratado. Será que esta estratégia dá certo?

Achei oportuno abordar o tema neste momento por que estamos em pleno processo de campanha eleitoral e muitos candidatos a prefeitos e vereadores têm a receita infalível para livrar os eleitores de todos os malefícios das drogas. Muitos dirão: “A droga é uma tragédia e para livrar os nossos jovens desta desgraça tenho como proposta: @#&!*$”.

Ou seja, cada um dos candidatos e das candidatas apresentará o projeto estratégico de salvação, mesmo que para isto desrespeite as leis, como faz, por exemplo, o internamento compulsório.

A estratégia da Prefeitura do Rio de Janeiro é o internamento compulsório. Para cumpri-la, coloca seus funcionários a correr atrás de usuários de drogas. Portanto, basta o agente de saúde ou assistente social ter velocidade e força física para pegar o usuário, contê-lo, socá-lo dentro de uma viatura e mandá-lo para tratamento (prendê-lo). Ao tirar o cidadão ou a cidadã da rua, resolve o problema do prefeito e dos higienistas: a cidade fica limpa destes abomináveis. Mas não resolve o problema do usuário ou da usuária.

O internamento compulsório é pior que mandar alguém para a cadeia. O suspeito de ter cometido um crime, por exemplo, Carlos Cachoeira, é investigado e julgado com direito a defesa. Apenas se um juiz ou um tribunal considerá-lo culpado é que ele vai para a prisão. No caso do internamento compulsório, o cidadão e a cidadã que já são vítimas da droga, vão presos sem nenhum direito a defesa ou julgamento. Vão presos para serem tratados. Esse tipo de prática é inconstitucional, ilegal e, como tratamento, não dá resultado.

Na matéria “A truculência não resolve”, no site da mesma Carta Capital, assinada por Francisco Alves Filho, há uma frase de um homem chamado Celso, evangélico fervoroso, que, no mínimo, me preocupou. Diz Celso: “A quantidade de meninos recolhidos aumentou bastante. Gosto do que faço, é preciso recuperá-los”. Em seguida, na mesma matéria, sou informado que 544 meninos foram compulsoriamente detidos nos últimos 12 meses. Ou seja, 45 meninos por mês. Média de 1,5 menino por dia. São detidos e levados para onde? Alguém deve estar faturando alguma grana com essa política incorreta.

Incorreta porque é um método totalmente equivocado. Internamento compulsório sem apoio social e da família é de difícil resultado. A própria matéria nos informa que o percentual de sucesso é de 28,16%. Quando sai do internamento, se não tiver o apoio social do serviço público e da família, é difícil manter o tratamento e o menino ou a menina longe das drogas.

Os temas sobre usuários de drogas serão recorrentes nestas eleições. Duas certezas tenho: não será com internamento compulsório que recuperaremos estas crianças e tampouco com ações isoladas das prefeituras. Portanto, pensem muito para que a proposta não fique só no “@#&!*$”. Alguns candidatos agregam ao seu programa o porrete.

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