O fôlego de Kerry

Expedito Filho


O senador John Kerry, candidato do Partido Democrata, venceu o debate de ontem na Universidade de Miami, segundo pesquisa instantânea feita pela rede de Televisão ABC. Após o debate, 45% do eleitorado respondeu que Kerry foi o grande vencedor do debate. Para outros 36%, Bush teria sido o vitorioso. Outros 16% acreditam que houve um empate entre os dois candidatos. A pergunta agora é saber se a vitória foi suficiente para permitir a Kerry o início de uma virada Até aqui, o que se pode dizer é que as idéias de Kerry ficaram mais claras para o eleitorado americano e que o senador, que já andava abraçado com a derrota, ganhou fôlego para continuar no jogo, mas ainda não mudou o voto dos eleitores que pretendem votar em Bush.

O problema é que a eleição será nos Estados Unidos. E aí a defesa da guerra preventiva contra o terror, feita pelo presidente George W. Bush, que transformou essa campanha em escolha de xerife, é musica para os ouvidos da maioria do eleitorado americano.

Já o discurso de Kerry, embora politicamente correto, é para a grande maioria uma declaração de fraqueza. Mas, ontem, ele conseguiu surpreender ao dar clareza a suas idéias.

Desde o atentado terrorista às torres gêmeas do World Trade Center, a maioria do eleitorado acredita que esperar pelas Organizações das Nações Unidas é perder tempo na guerra contra o terror. Mas, ontem, Kerry defendeu que os Estados Unidos deveriam estender as mãos para o mundo, não para ficar mais fracos. Ao contrario. Durante o debate, ele disse que, com a aliança internacional, os Estados Unidos ficariam ainda mais fortes.

Bush tentou equilibrar o debate falando para seu público domestico. Em discurso curto e grosso, disse que, enquanto for presidente, ele não deixaria a presidência do país nas mãos de um presidente estrangeiro, numa insinuação de com Kerry isso pode acontecer. Na verdade, Bush manteve a estratégia de sempre. De um lado, reforçou a tese do medo e, do outro, procurou pintar seu oponente com as tintas da incoerência. Na era Bush, a política externa americana é a guerra contra o terror e ponto. E para vencer esta guerra é necessário alguém coerente e forte. É com essa fantasia eleitoral que Bush espera seduzir o amedrontado eleitorado americano. De acordo com a pesquisa instantânea, somente conseguiu seduzir pouco mais de um terço do eleitorado.

O tom amigável de ambos candidatos também foi favorável a Kerry. Bush foi obrigado a reconhecer o bom desempenho de Kerry na guerra do Vietnan. Em contrapartida, o candidato democrata não tocou no fato de Bush não ter ido à guerra do Vietnan, embora estivesse servindo à guarda nacional americana.

É preciso esperar para saber até que ponto o debate de ontem pode interferir na eleição. O certo é que o senador John Kerry, que já parecia batido precocemente, ganhou ontem fôlego para chegar ao segundo debate na próxima semana na Universidade de Washington.

 

Continuar lendo

Assine e obtenha atualizações em tempo real em seu dispositivo!