O dilema da Europa em um momento de crise

Na última sexta feira (13) os mercados financeiros mundiais amanheceram atordoados com o anúncio da  Standard &Poors em rebaixar as notas de ratings de nove países da zona do Euro. Entre os rebaixados, destaca-se a França pelo tamanho de sua economia e sua liderança na construção comunitária, desde o início do pós-guerra. Por ora, a Moods manteve inalterada sua posição, mas já sinalizou que deverá ter revisões nos próximos meses. Apesar dos desgastes destas agências e das críticas que lhe são feitas, o mercado valoriza estas manifestações como indicações para suas movimentações no mercado financeiro mundial, pelo menos por certo tempo.

Logo em seguida, na segunda-feira (16), o rating do Fundo Europeu de Estabilização também foi rebaixado. Neste caso, o destaque é maior pelo fato de ser justamente o instrumento disponível para desenhar uma solução para a longa agonia que a Europa vem vivendo, com a profunda incerteza acerca da capacidade de suas economias-membro superarem os desafios e voltarem a crescer. E para completar, no momento seguinte, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, fez pronunciamento no parlamento europeu marcado por um tom preocupante, demonstrando a piora da crise que já aflige a Europa desde 2009.

Esta realidade incômoda ainda terá uma série longa de capítulos; não se percebe a capacidade das lideranças definirem um rumo para redesenhar a integração comunitária. A insistência em fazer ajustes ortodoxos nacionais, com a premissa de orçamentos fiscais equilibrados não resolverá o impasse. Até agora, os movimentos dos lideres políticos nacionais e comunitários não privilegiaram alternativas a serem seguidas para recolocar as economias européias no caminho de uma retomada, mesmo que restrita, num primeiro momento.

O euro não irá se desfazer, mas a sua referência institucional e econômica estará bastante debilitada por alguns longos anos, até que se consiga um acordo para fazer um acerto de contas geral entre credores e devedores, tanto públicos quanto privados. Ou seja, esta crise é distinta daquela de 2008/2009 que assolou e, de certa forma impactou, esta difícil realidade que a Europa passou a viver em seguida. Ela só se resolverá com um “default negociado” ou então com um “default desorganizado”, o que provavelmente custará muito mais em termos de impactos sociais perversos e maiores dificuldades para a volta ao equilíbrio no momento seguinte.

Este é o sumário da realidade que caracteriza a crise da Europa, com impactos sobre toda a economia mundial, inclusive nos paises emergentes. O Brasil, por melhor que esteja, já vem se ressentindo deste ambiente incômodo e, por isso, há desafios enormes para se manter uma taxa de crescimento próximo da média que foi nos últimos quatro anos.

Na última quinta-feira (12), na véspera dos rebaixamentos de ratings dos paises europeus, eu e o economista Jorge Arbache publicamos no jornal Valor Econômico um artigo sob o titulo Europa: Por quem os sinos dobram?. Nele, procuramos mostrar: a) que ações para domar a crise européia apenas via "orçamento equilibrado" não resolvem; b) que a imposição (quase unilateral da Alemanha) para seguir pelo caminho exigido não assegura que ela estará imune aos impactos da crise, apesar de, por ora, aquele país vir se destacando dos demais como uma economia preservada; c) que o cerne da crise passa pelos ajustes dos balanços em transações correntes dos países, os quais tem grande desigualdades estruturais, principalmente  quando comparados com o da Alemanha; d) que as desigualdades entre as balanças de transações correntes é fruto da grande disparidade nos níveis  produtivos entre os paises, onde se destaca a alta relação comercial dentro da zona do euro, com destaque para os elevados resultados anuais superavitários da Alemanha; e) que há necessidade de se indicar as medidas a serem adotadas após ajuste, para permitir que as economias européias mais debilitadas retomem ritmos de expansão; e f) que os agressivos desdobramentos sociais derivados dos ajustes orçamentários exigidos podem levar a conseqüências sociais difíceis de serem dimensionadas, hoje.

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