O diabólico santinho eletrônico

Nos Estados Unidos, a internet já se tornou uma das principais fontes de informação política para a maioria dos cidadãos. Em 2008, mostra um estudo da Pew Foundation, 55% dos adultos americanos consultaram a rede mundial de computadores para se informar sobre eleições – contra 37% quatro anos antes.

Por isso, cientistas políticos de lá procuram conhecer e avaliar com precisão cada vez maior o impacto das redes sociais digitais. Documento apresentado por dupla de docentes do Wellesley College – Panagiotis Takis Metaxas e Eni Mustafaraj – à Web Science Conference, realizada em 26 e 27 de abril último em Raleigh, Carolina do Norte, analisa o caso da guerra viral de saturação via Twitter que contribuiu decisivamente para derrotar a secretária estadual de Justiça (attorney general) e democrata Martha Coakley e fazer do advogado, corretor de imóveis, senador estadual (sim, com a única exceção – que eu me lembre – de Nebraska, todos os legislativos estaduais da América são bicamerais), ex-modelo fotográfico e ex-jogador de futebol americano Scott Brown o primeiro republicano eleito para o Senado Federal pelo estado de Massachusetts desde 1972! A eleição especial, realizada em janeiro deste ano, destinou-se a preencher a vaga deixada pelo arquiliberal (sinônimo de esquerdista no peculiar léxico político dos Estados Unidos) Edward Ted Kennedy, morto em agosto de 2009. Durante ininterruptos 47 anos, Ted ocupou a cadeira que havia sido conquistada pelo seu irmão John em 1952, que a ela renunciaria ao ser eleito presidente em 1960.

O título do trabalho é “From obscurity to prominence in minutes: political speech and real-time search”.

O prélio de janeiro galvanizou as atenções nacionais porque uma vitória republicana significaria – como de fato ocorreu – a conquista da ansiada 41ª cadeira, que, em um Senado composto por cem membros, permite à oposição protelar indefinidamente as votações, mediante o recurso regimental conhecido como filibuster.

O cerne da conclusão de Metaxas e Mustafaraj, com base em mais de 185 mil mensagens ‘tuitadas’ entre 13 e 20 de janeiro, contendo as palavras-chave “Coakley” e “Scott Brown”, é que um grupo relativamente pequeno, mas mobilizado, de militantes conservadores logrou ‘colar’ um estigma devastador à imagem da candidata democrata, propagando-o pelo ciberespaço da disputa.

Algumas pinceladas sobre a conjuntura política americana atual ajudarão a entender melhor esse episódio.

Desde o ano passado, poucos meses após a apoteose esperançosa da posse do presidente Barack Obama, a paisagem política começou a ser sacudida por manifestações oposicionistas não-tradicionais de amplos setores da classe média, arrancados do seu torpor cívico pela indignação ante as agruras da crise econômico-financeira de 2008, os altos e persistentes níveis de desemprego e a pesadíssima fatura que fatalmente recairá sobre esta e as próximas gerações de contribuintes americanos em consequência dos trilhões de dólares gastos pelo Tesouro federal para salvar da falência gigantescos brancos comerciais e de investimentos.

Esse tea-party movement evoca a histórica rebelião dos colonos que protestaram contra o aumento da taxação sobre o chá decretado pela coroa britânica invadindo navios ingleses fundeados no porto de Boston e jogando suas cargas de chá ao mar, o que desencadearia, pouco depois, a independência das 13 colônias da América do Norte, proclamada em 1776.

O furor dos atuais tea-partiers derrama-se indiscriminadamente sobre a classe política nos dois grandes partidos, acusada de esbanjar o dinheiro dos impostos a fim de se perpetuar no poder. Interessante: as comunidades virtuais que deram ao exército de funcionários e voluntários da campanha de Obama uma ampla vantagem de organização, financiamento e mobilização são agora rapidamente apropriadas pelo tea-party para combater a administração democrata e sua bancada no Congresso.

Scott Brown foi pioneiro em encarnar esse estado de exaltação coletiva em proveito eleitoral próprio. Agora, outros seguem por esse mesmo caminho anti-establishment, a exemplo do oftalmologista Rand Paul, noviço absoluto em competições eleitorais, apesar de ser filho do libertário – apóstolo do Estado mínimo – deputado federal republicano pelo Texas Ron Paul. Há menos de um mês, Rand conquistou o direito de concorrer em novembro a uma vaga de senador pelo estado de Kentucky, tendo vencido o seu rival nas prévias do Partido Republicano, o experiente político Trey Grayson, favorito da máquina partidária e afilhado do líder da minoria no Senado, Mitch McConnell.

As reportagens do site www.político.com costumam sublinhar como as novas tecnologias de informação derretem a velha segurança de políticos tradicionais que até há pouco reelegiam-se tranquila e indefinidamente para os Capitólios nacional e estaduais: “Novas estruturas, novos canais de produção e veiculação do noticiário ligados a redes sociais digitais estão permitindo que políticos adversários do status quo tenham acesso a dois elementos essenciais para uma campanha vitoriosa publicidade e apoio financeiro” (John F. Harris e Jim VandeHei, “Activists seize control of politics”, 19 de maio de 2010).

Metaxas e Mustafaraj mostram como a eleição especial de Massachusetts exemplifica a poderosa repercussão do casamento entre mecanismos de busca (especialmente o Google) e a chamada real-time web (no caso, o Twitter) na comunicação política.

Os autores lembram que, em 7 de dezembro do ano passado, o buscador Google anunciou a introdução da busca em tempo real: “À medida em que pessoas começam a gerar conteúdo novo, relacionado por exemplo a um súbito terremoto ou um evento ao vivo na TV, outras que procuram informações sobre esses acontecimentos ao mesmo tempo recorrendo ao Google verão um box com os resultados mais recentes sucedendo-se ininterruptamente”. Observam, também, que a mídia já se acostumou a considerar saltos significativos no número de buscas no Google, ou no número de views no YouTube, ou ainda na quantidade de seguidores no Facebook ou no Twitter “como indicadores” da vantagem de um candidato sobre outro, identificando “uma tendência das comunidades a inflar esses números para obtenção do resultado desejado”.

A quantificação dos seus achados corroborou o fato mais básico apontado pela teoria das elites (Mosca, Pareto e Michels, constelação em que eu incluiria Weber e Lênin): a maioria reativa segue a liderança da minoria proativa. Sempre.

Nesse caso, o grupo dos 205 usuários do Twitter que enviaram, pelo menos 100 mensagens foi chamado de top200; o dos 765 que mandaram entre 100 e 30 mensagens, de topK; e o grupo restante, dos que enviaram menos de 30 mensagens, foi chamado de low39K.

Para uma rápida idéia do diferencial de ‘ativismo’ entre ‘elite’ e ‘massa’, o artigo de Metaxas e Mustafaraj traz uma tabela revelando que os dez emissores mais ativos enviaram entre 1024 e 512 mensagens, enquanto os 22.482 menos ativos limitaram-se a uma única mensagem. Mas, atenção: no universo da arquitetura aberta das redes sociais, a força da mensagem que você ‘tuíta’ reside na intensidade com que os seus seguidores a propagem ‘retuitando’.

De modo a impedir que os seus ‘placares’ sejam viciados por spams, tanto o Google como o Twitter desenvolveram dispositivos capazes de identificar essas remessas automáticas maciças e riscá-las da contagem dos resultados. Parece que isso só serve para acirrar a criatividade transgressora das galeras digitais, férteis na invenção de contramedidas para contornar as proibições. Foi assim que os autores do artigo descobriram, por exemplos, a mesma ‘bomba’ contida em nove diferentes contas de Twitter, “criadas em um intervalo de 13 minutos”, todas originadas por um mesmo link com o site coakleysaidit (“coakleydisse”). Este fora “registrado no mesmo dia” da “criação” daquelas contas, “15 de janeiro de 2010, utilizando um serviço que oculta a identidade do proprietário do domínio”. Conforme os autores, “uma análise do ataque spam mostra que nove destas contas enviaram 929 tweets para 573 usuários ao longo de 138 minutos”. Bem-vindos à primeira Twitter-bomb detectada pela ciência política. Quando a administração do microblog descobriu a mutreta e suspendeu aquelas contas de spam, o mal já estava feito e o vírus anti-Coakley, devidamente espalhado.

Deixemos Metaxas e Mustafaraj se afligindo em busca de novas medidas preventivas a fim de tornar impossível a “uma pequena fração da população sequestrar a credibilidade dos motores de busca e propagar suas mensagens a uma enorme audiência, de graça, sem deixar rastros” e pensemos um pouco no pleito deste ano no Brasil: alguma dúvida de que esse ‘santinho’ eletrônico será a sensação na temporada eleitoral 2010?

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