O declínio das instituições políticas

Um artigo do jornalista político Mauro Santayana no site Carta Maior me chamou a atenção, pois faz uma costura sagaz ao amarrar fatos geopolíticos recentes, aparentemente desconectados, a uma conclusão desanimadora: o declínio das instituições políticas. Que fatos? 1) O júbilo explícito dos ingleses pela morte de Margaret Thatcher; 2) as eleições venezuelanas; e 3) as bombas de Boston.

Tal declínio, aliás (e eu concordo com ele) começou precisamente com a ascensão de Margaret Thatcher ao poder, em 1979, e continua a se desenvolver, embora com manifestações de resistência, aqui e ali, como ocorreu na Venezuela.

Segundo Santayana, o desaparecimento do Hugo Chávez pode ter significado o indesejável fim duma experiência que, com seus acertos e seus erros, significou uma esperança para os povos da América Latina. A vitória efetiva de Nicolas Maduro – não só por ter sido apertada, mas pelo fato de não ter o carisma e a liderança de HC – não assegura o desenvolvimento do grande projeto nacional e, até mesmo, continental iniciado pelo último. Em Caracas, não vai ser fácil a retomada do poder pelos interesses empresariais associados às multinacionais norte-americanas, até porque os venezuelanos, que passaram a viver melhor no governo Chávez, não aceitarão pacificamente um retrocesso.

Quanto à Inglaterra, o tchatcherismo é ainda a ideologia que comanda o país e continua a fazer suas vítimas no mundo globalizado. Fazendo um retrospecto: na base das contrarreformas houve uma secreta reação do capitalismo liberal aos resultados da 2ª Guerra Mundial. As preocupações filosóficas de Hayek e Von Mises encontraram no Clube de Bilderberg seu comitê de ação. Há o encadeamento lógico entre os fatos. Na realidade, as duas guerras mundiais do século 20 podem ser vistas como episódios de uma Guerra Civil Mundial – Weltbürgerkrieg, como a definiu Carl Weizsäcker.

A aliança entre Thatcher, Reagan e o papa João Paulo II, seguida da submissão abjeta de Gobartchev, tem provocado sofrimento, fome, morte e desespero a centenas de milhões de seres humanos. É o novo liberalismo que assola a Europa e inúmeros países dos outros continentes.

O cartaz significativo, para dizer o mínimo – the bitch is dead –, revelou o ódio dos que perderam seus empregos, suas casas, seus benefícios sociais, dos parentes dos que morreram sem assistência médica, nos últimos 30 anos.

Infelizmente, os dirigentes políticos europeus permanecem fiéis à filosofia opressora de Thatcher, cuja filosofia se resume na frase: a sociedade não existe, só existem “indivíduos” e cabe a estes resolver sozinhos seus problemas, num mix absoluto de “salve-se quem puder” com “a lei do mais forte” e “tudo por dinheiro”!

Eis porque a violência criminosa é a marca do nosso tempo. Os banqueiros “individualistas” roubam, os políticos “individualistas” extorquem, os comerciantes “individualistas” sobem preços, os policiais “individualistas” achacam – como nunca antes na história! Acima de tudo: o deus mercado & respectivas corporações ilimitadas.

É o ultracapitalismo triunfante. E como os donos do mundo não dormem, com a morte de Thatcher, eles agora apostam todas as suas fichas em Frau Merkel, que já se arroga o comando político da Europa: o que Hitler não obteve com as divisões blindadas, ela conseguirá com o marco e os grandes bancos que, com Mario Draghi, comandam o BCE: a hegemonia continental.

E Santayana finaliza: “Quanto às bombas de Boston, começam a surgir dúvidas sobre a rapidez da identificação e da localização dos suspeitos, não obstante um deles ter passado as horas seguintes sem mudar seus hábitos. De um deles nada mais a apurar, posto que o mataram. Do outro, o jovem Dzhokhar Tsaernev, que não foi advertido de seu direito de ficar em silêncio, não se espera muito, ainda que se recupere dos ferimentos. Acaba de sair da adolescência e é difícil que estivesse, há anos, sob vigilância do FBI.”

O declínio das instituições políticas naturalmente implica no apagamento dos direitos humanos em todo mundo, mas pra que se preocupar, não é mesmo?

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