O crescimento sesquipedal da imbecilização 

É assustador o crescimento diário do nível de imbecilização no Brasil. Os que me leem talvez estranhem o linguajar fora dos meus hábitos. Lamento. Não há outra forma de nomear o que anda ocorrendo por aí. Se antes se verificava um ou outro acesso de idiotice de um parlamentar ou ocupante de cargo público, e isso era motivo de charges e gozações da imprensa, ultimamente a própria sociedade, em diversas e diárias manifestações públicas, assumiu o papel de protagonista na produção de atos que desabam fragorosamente  para a mais genuína imbecilidade. E os registros não deixam margem de dúvidas: agem com absoluta convicção e uma ostensiva repulsa a qualquer argumento em sentido contrário. Como se dissessem: - sim, sou imbecil e me orgulho muito disso.

O crescimento sesquipedal da imbecilização coletiva precisa ser examinado a partir da retroalimentação que vem ocorrendo em vários aspectos, desde o político, o social, o moral, o cultural e o intelectual. De uma hora para outra ocorreu um processo geral, intenso e vigoroso de idiotia coletiva. E, o que é pior, as pessoas, turbinadas entre si, não apenas agem de forma abertamente imbecil como disseminam a imbecilidade com atos francamente hostis aos que tentam chamá-las à razão.

Outro dia, na Avenida Paulista, um grupo exibia bandeiras verde-amarelas e, munidos de megafones e equipes de registro de imagens que depois viralizaram nas redes sociais, literalmente amontoados atearam fogo em máscaras, enquanto gritavam que se tratava de um “ato político contra a focinheira”.  Numa mistura ideológica esquizofrênica, acusavam o governador João Doria de ser simultaneamente nazista e comunista, tomando as duas classificações como epítetos, sem se dar conta de que são opções antagônicas. “Fora máscara da China! Fora comunista! Fora nazista!” A salada ideológica continuava nos discursos contrários à “focinheira chinesa” e contra a obrigatoriedade da “vacina maldita”, com advertências religiosas contra Doria: “Seu reinado vai cair por terra e Deus, através da sua justiça, vai fazer você beber da sua ira!”.

Abaixo a Bossa Nova! 

Na área cultural, a imbecilização celebra com estardalhaço uma regressão qualitativa da produção musical brasileira. Num post que viralizou no whatsapp, sob o título de “O poder mudou de mãos”, recheado de menções ao crescimento do agronegócio, o autor celebra como uma das maiores conquistas da atualidade o fim... da Bossa Nova! E o crescimento dos ritmos sertanejos de baixa extração, como se tal fato representasse um notável avanço na formação musical do povo brasileiro. Mas é bom ressaltar que a imbecilização dos ouvidos é bem anterior ao atual governo. E responde a um processo de retroalimentação: para conquistar audiência, emissoras de rádio e televisão baixam o nível da programação. Há uns 15 anos, escrevi um artigo apontando a queda vertiginosa de qualidade da programação das emissoras por conta da luta pela audiência. Outro dia, num jornal de grande circulação, um leitor se queixava de que a imbecilização das programações das emissoras de TV de sinal aberto não dá margem de opção a quem não tem condições de assinar uma TV a cabo. E indagava: onde se pode ver e ouvir Milton Nascimento, Gal Costa, Maria Bethânia, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Martinho da Vila e outros craques da MPB? Simplesmente sumiram da TV. Em compensação, basta ligar neste momento em qualquer emissora e o telespectador vai receber uma descarga de porcarias travestidas de “populares”. E justamente no país que ofereceu ao mundo uma das mais ricas diversidades musicais do planeta. O pior é a falta de opção. Se mudar de canal vai encontrar rigorosamente as mesmas imbecilidades no seguinte.

 Na área religiosa, a proliferação de seitas evangélicas fundamentalistas e inteiramente desprovidas de conteúdo, pois se dedicam exclusivamente ao trabalho diuturno de extrair o dízimo dos fiéis para abastecer contas milionárias de seus líderes, vem rapidamente ocupando o lugar das igrejas sérias e tradicionais. Esses líderes, na maioria, se pautam por um moralismo de ocasião, e por um conservadorismo político de completa e oportunista subserviência aos detentores do poder. No Congresso, concretizou-se há algum tempo uma simbiose poderosa entre as bancadas BBB: a da Bíblia, a do Boi (ruralista) e da Bala (policiais e militares). Em todas, o discurso simplificado e direto é fator de fácil atração de adeptos em larga escala. É fácil entender a frase: “Bandido bom é bandido morto”, inteiramente desprovida da complexidade que é essencial para a análise e a adoção de políticas capazes de produzir um combate efetivo à criminalidade. A partir daí, fica fácil capitalizar adeptos à fixação bolsonarista de que o armamentismo em larga escala é o melhor antídoto ao crescimento da violência. Da mesma forma, é fácil entender os que combatem as regras da preservação ambiental sob o argumento simplório de que “importante é produzir alimentos para os famintos, custe o que custar”.  O problema se agrava quando se sabe que as três forças – Bala, Boi e Bíblia – atuam em sintonia e se auto reforçam. Igualmente, nos púlpitos, as promessas de salvação numa vida após a morte foi substituída pela Teologia da Prosperidade, de apelo fácil e rápido. Para os mais humildes e de mais baixo grau de instrução, a decisão entre professar uma fé que promete o paraíso depois da morte e outra que garante a prosperidade aqui e agora tornou-se muito fácil.

Sentimentos nobres? Eu quero é me dar bem! 

Em plena pandemia, a imbecilização sanitária assumiu feições genocidas. Por mais que as autoridades da área de saúde insistam nas regras de distanciamento, uso de máscaras e na recomendação de que se evitem aglomerações, o que vem ocorrendo nesta passagem de ano é precisamente o contrário. Como se a pandemia tivesse terminado e fosse possível às pessoas se aglomerarem em raves gigantescas sem risco de contaminação.  Como a principal autoridade do país – o presidente Bolsonaro – nega-se diariamente a contribuir no combate à ação do vírus e, de forma oposta, está mesmo é empenhado na busca a qualquer custo de apoio popular à sua reeleição, que se tornou uma ideia fixa, a situação só tende a se agravar. Especialistas acreditam que este mês de janeiro deve registrar os números mais elevados de contaminados. A conta chegará ali por volta da primeira quinzena. O que torna ainda mais grave a situação é que o incentivo à desobediência aos cuidados para conter a ação do vírus vem revelando um aspecto doloroso: boa parte do povo, principalmente os jovens, imbecilizados e narcotizados pelo discurso negacionista do presidente e dos seus seguidores, vem relaxando nos sentimentos mais nobres. É difícil argumentar com noções de solidariedade humana quando o que impera é o atendimento aos prazeres imediatos, num hedonismo alheio aos efeitos mortais que isso vá causar à coletividade.

É impossível lutar contra a imbecilização, pois ela é diariamente incentivada pela autoridade a quem mais caberia o papel de dar o bom exemplo. Bolsonaro prefere, literalmente, mergulhar na busca de apoio popular, como fez agora em Praia Grande. Nem que isto custe milhares de vidas. Mas, como ele próprio alardeia, vidas não valem nada. Todo mundo vai morrer um dia, não é mesmo?

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