O cavaleiro Bolsonaro cavalga sobre milhares de sepulturas

Bolsonaro é burro. Muito burro. Assustadoramente burro. Mas mesmo os burros mais sesquipedais têm uma percepção arquetípica da importância dos símbolos, que empregam sem raciocinar, de forma automática, em proveito próprio. Não é preciso raciocinar – o que para Bolsonaro seria impossível por não dispor dos apetrechos que o permitam realizar tal ousadia – para saber que o cavalo, desde os mais remotos tempos da humanidade, é símbolo de força, energia e vitória.

Para o professor Valter Chichini Jr., o cavalo está “associado originalmente às trevas, quer surja galopante das entranhas da terra ou das abissais profundezas do mar. Filho da noite e do mistério esse cavalo arquetípico é portador da morte e da vida em um só tempo, ligado ao fogo destruidor e triunfador(...)”

Não por outra razão Bolsonaro, o capitão, gosta de aparecer montado num cavalo, como fez no último fim de semana e constrangeu alguns ministros a o acompanharem no trote, inclusive a amazona Teresa Cristina, da Agricultura.

Ele sabe muito bem que os jornais, os sites e as emissoras de TV o estamparão montado num corcel, e os leitores e telespectadores o associarão imediatamente à figura heráldica, triunfadora e icônica do “cavaleiro”. Tal como a imagem de Dom Pedro no quadro famoso do “Grito do Ipiranga”. (Um parêntese: é sabido que Dom Pedro vinha de uma longa jornada. E é improvável que estivesse montado num cavalo. Devia estar montado numa mula, o animal resistente às viagens mais demoradas. Mas como a mula é um animal de carga e sempre foi associada à falta de inteligência - “fulano é uma mula!- , o pintor Mário Américo a substituiu por um garboso corcel branco. Fecha parêntese).

E, assim, se torna possível a associação da imagem simbólica de Bolsonaro com a de cavaleiros lendários como a de Napoleão, do Rei Arthur, de Alexandre Nevsky, de Dom Sebastião, de Ricardo Coração de Leão e de El Cid, para ficar em meia dúzia.

A apropriação do imaginário 

Em queda sensível nas pesquisas, ainda que continue a ser um candidato forte e capaz de surpreender, Bolsonaro apela para o populismo da representação simbólica para se apropriar do imaginário popular. Tal como fez com símbolos nacionais como a bandeira, hoje inevitavelmente associada ao bolsonarismo, ele busca se apropriar do imaginário e nele se instalar de forma icônica.

Os ícones operam no âmbito da imaginação e não da razão. Por isso, nos relatos históricos, não se imputa a qualquer cavaleiro medieval algum defeito de caráter. O que vale é a imagem que sua figura montada num corcel garboso projeta. E é forçoso admitir que, no campo da simbologia, Bolsonaro não tem competidor à altura. Até porque nenhum deles até aqui se importou com isso.

 Sabe o que a CPI já revelou? Nada!  

Mas, enquanto opera no campo simbólico (provavelmente orientado por algum marqueteiro), no campo real onde impera a razão sua imagem se esfarela a olhos vistos, principalmente por força dos números avassaladores dos mortos pela condução irresponsável, estabanada ou simplesmente assassina da pandemia pelo seu governo. Fala-se muito das “revelações” da CPI da Covid. Mas até agora a CPI não REVELOU absolutamente nada. Pela primeira vez na história, uma CPI investiga... um réu confesso!

Tudo o que apareceu até aqui e o que ainda está por aparecer na CPI é sobejamente conhecido porque o próprio Bolsonaro nunca escondeu coisa alguma. “Procura outro pra pagar tua vacina”. “A pressa da vacina não se justifica”. “Toda e qualquer vacina está descartada”. “Eu já mandei cancelar” (a compra da vacina). “Tem idiota que vai pras mídias sociais e fala – Vai comprar vacina. Só se for na casa da tua mãe”. “Falam que estou dando um péssimo exemplo. É um imbecil!”. Entre centenas de outras confissões.

Sem falar nas recusas, confirmadas pela Pfizer, para compra de 70 bilhões de doses. Da recusa em participar da aliança mundial para acelerar a produção das vacinas. Da recusa em adquirir 160 milhões de doses da Coronavac. E na indicação da Cloroquina, um remédio que pode ser boa pra malária mas não serve pra tratar da Covid e até pode causar   reações adversas. E no incentivo às aglomerações. E ao péssimo exemplo ao se recusar ao uso da máscara. Etc., etc., etc.

E fiquemos por aqui, porque o leitor está farto de saber disso tudo. Tal como igualmente sabem os integrantes da CPI, que apenas estão fazendo um registro oficial de toda essa canalhice, para oferecer um relatório circunstanciado a ser encaminhado à justiça, com proposta de indiciamento criminal dos acusados. O principal deles, é claro, será o próprio Bolsonaro.

O Brasil está no mato sem cachorro 

O pior é que, neste momento, o Brasil está nas mãos do Judiciário, pois o Legislativo, a quem cabe constitucionalmente a tarefa de repor a ordem quando o Chefe do Executivo destrói os alicerces do país, está manietado, seja pela cooptação feita a partir da simples compra de apoio – como ocorreu com a destinação de 3 bilhões de reais para emendas indicadas em ofício pelos parlamentares, seja pela aliança política espúria que resultou na eleições de dois fiéis escudeiros de Bolsonaro para a chefia das duas casas mais altas do Legislativo.

Não à toa, a poeira se acumula sobre mais de uma centena de pedidos de impeachment, sem que nada aconteça. Pior: se acontecer, não é improvável que Bolsonaro obtenha um resultado favorável numa eventual votação de impeachment, com o que inverteria a equação e daria uma formidável demonstração de força.

Enquanto nada disso acontece, Bolsonaro entroniza-se no imaginário como o “cavaleiro triunfante”. Mas o que a imaginação nublada pela figura do cavaleiro vitorioso não consegue enxergar são as quatrocentas e tantas mil sepulturas pisoteadas pelas patas do cavalo dele.

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