O cálculo eleitoral de Ibaneis Rocha

A mudança de rota do Governador Ibaneis Rocha no combate à covid-19 gerou estranheza nos ambientes políticos, midiáticos e entre a população. O governador que se antecipou frente a muitos estados brasileiros, estabelecendo agilmente as políticas de distanciamento social e assistência social, além de realizar adaptações na saúde para suportar a crise que estava por vir, deu um giro de 180 graus e definiu recentemente o coronavírus como uma gripe apenas.

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Esta mudança repentina ocorreu há um final de semana, Ibaneis saiu do discurso de possibilidade de lockdown em algumas regiões administrativas para a reabertura integral do Distrito Federal até o mês de agosto. Enganam-se aqueles que acreditam que essa é a sinalização de que superamos a crise sanitária. Na verdade, não temos qualquer indicativo que passamos do pico da curva de contágio e Ibaneis sabendo disso decretou estado de calamidade pública, instrumento que é uma medida legal para ter acesso a recursos federais.

Estão confusos? A resposta à postura do Governador Ibaneis não se encontra nos problemas ou soluções da pandemia e sim no cálculo eleitoral feito pelos políticos. Qualquer gestor que enfrenta uma crise dessa magnitude passa por uma decisão moral: freia-la e parecer que suas medidas e efeitos colaterais foram desproporcionais; ou minimizá-la e sinalizar que fez todo o possível para contê-la quando a crise se agravar.

Ibaneis, para a surpresa de muitos, começou a enfrentar a crise fazendo de sua escolha a primeira opção. Criou um comitê de crise, decretou fechamento de comércio, serviços como salões de beleza, academias e rede de ensino, tratou de realocar recursos para a saúde pública e garantir reserva de leitos de UTI para casos de covid-19. Porém, ao ver o impacto negativo das suas decisões no seu capital político as dúvidas do caminho a ser seguido foram surgindo.

A redução de capital político de Ibaneis começa quando ele desmobiliza os apoiadores do presidente alocados na esplanada dos ministérios. Historicamente alinhado com o presidente Bolsonaro nos programas econômicos, de educação, e de infraestrutura, é na pandemia que vemos o primeiro momento de desalinhamento entre o Governo Federal e Distrital. Por óbvio, foi Ibaneis que perdeu capital e apoio político, recebendo críticas ferrenhas de antigos apoiadores.

Intensificando esse contexto, temos, segundo Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel-DF) e informações do Sindicato Patronal de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Brasília (Sindhobar)*, cerca de mil empreendimentos fechados definitivamente e 14 mil profissionais demitidos durante a crise iniciada em março. O que denota um impacto significativo no setor comercial que tem tendências a apoiar políticas liberais e por consequência apoiar o governo de Ibaneis.

A crise se acentua quando o Governador percebe que iniciou e finalizou novas obras, importantes para sua gestão e no entanto, as pessoas não se encontravam na rua para apreciá-las. A área de infraestrutura é uma das maiores apostas desse governo e onde foram investidos 538,5 milhões em 36 projetos licitados e 20 novos projetos, segundo a Agência Brasília**.

Pensando nas eleições de 2022 Ibaneis Rocha não tem mais tempo a perder e precisa rapidamente sufocar a visibilidade que está sendo dada às ações policiais referentes aos escândalos da operação “Falso Negativo”, que investiga superfaturamento na compra de testes para detectar a covid-19 pela Secretaria de Saúde, bem como no seu indiciamento no caso das candidaturas laranjas no MDB do Distrito Federal

O Governador, segundo Pesquisa do Instituto Exata OP, mais bem avaliado do Distrito Federal dos últimos 20 anos*** percebeu que pode até mitigar os danos da pandemia, mas não pode evitá-los e mesmo mitigando-os, os defensores da quarentena não correspondem ao seu eleitorado. Seria ele capaz de ignorar todo esse cenário político e abdicar do seu capital político para reduzir o impacto da crise sanitária? A resposta que Ibaneis nos revelou é negativa e por isso passou a se agarrar a narrativa de Jair Bolsonaro de “gripizinha”, assim conseguindo atender seus grupos de interesse e desviar o foco de denúncias.

O GDF está sendo gerido sem rumo, no afogadilho, sem planejamento, sem soluções estruturantes, pautado pelo: anunciar e aguardar a repercussão política para manter a decisão ou recuar. O Ibaneis, enquanto gestor, mostrou-se incapaz de pensar soluções mais complexas para contenção do desemprego, ampliação dos programas de assistência, planejamento de retornos ao trabalho com segurança, fiscalização nos ambientes já abertos e então decidiu ir pelo caminho simples de reabertura integral. Nessa altura do combate ao coronavírus Ibaneis decidiu que mais vale garantir seu eleitorado em 2022 do que poupar vidas no Distrito Federal.

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