O Brasil que não ouve e se omite

Diz a sabedoria popular que “para bom entendedor meia palavra basta”. Fiquei a pensar nestas sábias palavras há alguns dias, ao reler algumas entrevistas.

Começo por uma concedida por Henry Kissinger, enquanto Secretário de Estado dos Estados Unidos da América: “os países industrializados não poderão viver à maneira como existiram até hoje, se não tiverem à sua disposição os recursos não renováveis do planeta. Para tanto, terão os países industrializados que montar um sistema mais requintado e eficiente de pressões, de constrangimentos, garantidores de consecução do seu intento”.

Estas palavras elegantes secundaram outras, de sentido mais claro, proferidas no não tão distante ano de 1902 pelo Barão Oswald von Richthofen, da Alemanha: “seria conveniente que o Brasil não privasse o mundo das riquezas naturais da Amazônia”.

Cite-se em seguida Margareth Thatcher, enquanto governante do Reino Unido: “se os países subdesenvolvidos não conseguem pagar as suas dívidas externas, que vendam suas riquezas, seus territórios e suas fábricas”.

A pérola seguinte vem de Al Gore, Vice-Presidente dos EUA: “ao contrário do que os brasileiros pensam a Amazônia não é deles, mas de todos nós”. Na França, François Miterrand, Primeiro-Ministro, parece compartilhar da mesma ideia: “o Brasil precisa aceitar uma soberania relativa sobre a Amazônia”.

Até a Rússia deu sua opinião nesta questão, segundo entendi das palavras de Mikhail Gorbachev: “o Brasil deve delegar parte de seus direitos sobre a Amazônia aos organismos internacionais competentes”.

Mais direto e sombrio foi o Primeiro-Ministro inglês John Major, em 1992: “as nações desenvolvidas devem estender o domínio da lei ao que é comum de todos no mundo. As campanhas ecológicas internacionais sobre a região amazônica estão deixando a fase propagandista para dar início a uma fase operativa que pode, definitivamente, ensejar intervenções militares diretas sobre a região”.

Parece que ele sabia do que falava, conforme depreendi das palavras de Madeleine Albright, Secretária de Estado dos EUA, em 1996: “atualmente avançamos em uma ampla gama de políticas, negociações e tratados, em colaboração com programas das Nações Unidas, diplomacia bilateral e regional, distribuição de ajuda comunitária aos países necessitados e crescente participação da CIA em atividades de inteligência ambiental”.

Segundo consta, dois anos depois o então chefe do órgão central de informações das Forças Armadas Norte-Americanas, Patrick Hugles, resolveu ser ainda mais claro: “caso o Brasil resolva fazer um uso da Amazônia que ponha em risco o meio ambiente nos Estados Unidos, temos que estar prontos para interromper esse processo imediatamente”.

Chegamos a 2005. E eis que Pascal Lamy, presidente da poderosa OMC, veio a público defender que “a Amazônia e as outras florestas tropicais do planeta deveriam ser consideradas bens públicos mundiais e submetidas a gestão coletiva, ou seja, gestão da comunidade internacional”.

Diante de tantas e tão sérias opiniões, vindas de pessoas tão eminentes, fiquei a pensar na minha infância. Naquela época o Exército Brasileiro divulgava, sobre a questão da Amazônia, a frase “integrar para não entregar”. Esta frase sumiu de circulação. Pois é. Parece que o Brasil insiste em ignorar a lição sábia e secular de Leonardo da Vinci, segundo quem “é mais fácil resistir no início do que no final”.

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