O Brasil nunca precisou tanto da ciência e da educação

Aconteceu nessa semana o ciclo de debates Semana da Ciência e da Educação Pública Brasileira, iniciativa muito oportuna de cinco frentes parlamentares do Congresso Nacional. Em meio à maior tragédia de sua história—já ultrapassamos os 55 mil mortos e 1,2 milhão de infectados — nunca precisamos tanto da ciência e do conhecimento.

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Uma iniciativa como essa, promovida pelas frentes parlamentares, vai na contramão desses tempos de achismos, de relativizações, de desdém ao conhecimento produzido pela humanidade ao longo de milênios.

Um ponto importante: as frentes parlamentares convocaram especialistas para falar. O Legislativo organiza o debate, mas escuta quem dedicou a vida a estudar, a pesquisar os fenômenos da natureza, das relações sociais, da História. Permitam-me também, que eu dedique este espaço semanal aqui no Congresso em Foco para compartilhar o que dizem os especialistas.

Tive o prazer e a responsabilidade de coordenar uma das mesas da Semana da Ciência e da Educação Pública Brasileira, que tratou do tema “Ciência, Saúde Pública e Covid-19”. O debate, riquíssimo, reuniu, última quarta-feira (24), o reitor da Universidade Federal de Pelotas, Pedro Hallal — infectologista que coordena o maior estudo sobre a pandemia no Brasil —, a médica sanitarista Lucia Souto, presidente do Centro Brasileiro de Estudos da Saúde (Cebes), a deputada federal e líder do Psol na Câmara, Fernanda Melchionna, e o também sanitarista, ex-ministro da Saúde, o deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP).

O alerta que soa na fala desses especialistas é estarrecedor: há uma política deliberada de genocídio contra o povo brasileiro. Em um cenário que soma a crise econômica, a crise sanitária e a crise política, as consequências do abandono do país à própria sorte ainda terá repercussões muito tempo depois de debelada a pandemia.

Como destacou o ex-ministro Alexandre Padilha, já somos o segundo país em mortes e em casos de coronavírus. Mas somos apenas o 109º em número de testes por habitantes. Isso dá uma ideia do grau de subnotificação da doença, como atesta o estudo coordenado pelo reitor Pedro Hellal, segundo o qual há podem haver até sete casos de covid-19 não testados para cada caso confirmado.

Insensível diante do sofrimento do povo, o governo Bolsonaro parece apostar na subnotificação para conter não a pandemia, mas a sensação de pandemia.

Houve uma decisão política de não permitir que o Brasil tivesse rede pública de testagem.
Felizmente, na contramão do governo genocida, temos os cientistas, os médicos, os pesquisadores das instituições públicas que se dedicam a estudos que nos dão o mínimo de luz sobre o caos que Bolsonaro quer esconder.

Além da subnotificação, a estratégia genocida de Bolsonaro aposta em empurrar a população rumo à infecção, na temerária busca da chamada imunidade de rebanho—que consiste atingir de 70% a 80% de pessoas contaminadas como forma de controlar a pandemia.

Essa é uma aposta cruel, como demonstram os resultados que ela produziu na Itália, no Reino Unido e nos Estados Unidos: acúmulo de mortos e colapso dos sistemas de saúde. Mais do que cruel, a aposta na imunidade de rebanho frente à covid-19 provou-se ineficaz. A tragédia de Nova York, com 25 mil mortos, resultou em apenas 25% de infectados. Em Madri morreram 8.400 pessoas e a taxa de infectados foi de 11%.

Quantos mortos precisaríamos ter no Brasil para chegar aos 80% de infectados desejados por Bolsonaro? Mais de 1 milhão, segundo os especialistas.

Outro aspecto importante, ressaltado pelo ex-ministro Padilha e pela sanitarista Lucia Souto é que o vírus não é democrático. A morte por covid-19 tem cor, classe social e endereço. Os pobres, os negros e os indígenas morrem muito mais — mas está sendo necessário que parlamentares como Fernanda Melchionna, Alexandre Padilha e outros apresentem projetos de lei para obrigar o governo a divulgar raça, naturalidade, localização geográfica e outras informações sobre as vítimas da covid-19 que permitam desenhar os rostos dessa tragédia.

O Brasil ainda tem uma longa caminhada para completar a travessia dessa tragédia. Lá longe, no final do túnel, uma luzinha nos sinaliza que o povo brasileiro hoje entende, como nunca, a importância do inestimável patrimônio que são o Sistema Único de Saúde, as instituições públicas de ensino e de pesquisa e todo o conhecimento e inovação produzidos por essas instituições.

Como lembra a sanitarista Lucia Souto, não há democracia sem saúde para todos e não há saúde para todos sem democracia. Mais do que nunca, é hora de ouvir os cientistas e agir.
Chega de achismos. Como já cantou a chilena Violeta Parra: “Vivam os especialistas”.

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