O boicote de Antonio Tabucchi

"L'Italia è l'unico Paese d'Europa dove la parola di un pentito, priva di un milligrammo di riscontri obiettivi, ha valore probatorio. Qualsiasi mitomane vi può regalare vent'anni di galera, sostenendo solo con la sua parola che vi ha visto commettere un reato. Secondo la mia opinione, questo non si chiama un Stato di diritto"

Antono Tabucchi, no jornal Corriere della Sera, 5 de março de 1999

"A Itália é o único país da Europa onde a palavra de um arrependido [delator premiado], desprovida de um miligrama de confirmações objetivas, possui valor provatório. Qualquer mitômano pode nos dar de presente 20 anos de prisão, sustentando apenas com sua palavra que viu a gente cometer um crime. De acordo com minha opinião, isto não se chama um Estado de direito..." [GRIFOS E INTERPOLAÇÕES MNHAS]

Eventos e boicotes

Durante a segunda metade do século 20, a Guerra Fria, por um lado, e as ditaduras na América Latina, por outro, criaram um clima de enorme tensão nas relações políticas dentro dos países ocidentais, que não poupou nem a vida cotidiana, nem a vida intelectual e profissional. Ao mesmo tempo, o pós-guerra foi uma época de rápida industrialização da cultura, culminando um processo começado muitas décadas antes, que fora motivo de preocupação para Theodor Adorno, Herbert Marcuse, e outros representantes do pensamento crítico da Escola de Frankfurt.

A ciência, a arte e outras produções culturais se tornaram produtos de mercado numa sociedade já plenamente dominada pelo capitalismo, e os congressos, simpósios, colóquios, encontros, sobre diversas disciplinas, constituíram a forma visível de expressão daquela nova indústria. Esses eventos, seja que tivessem ou não qualidade acadêmica e que pudessem ou não prestar um serviço substantivo a seus assistentes, foram algumas vezes manipulados politicamente, num estilo semelhante ao que acontecia, com maior frequência e impacto, com os eventos desportivos.

Mas, mesmo nos casos em que os governos se mostravam neutrais, e permitiam que sociedades científicas ou artísticas organizassem eventos sem a intervenção do Estado, muitos congressos e simpósios foram questionados por intelectuais de outros países que foram convidados, porque o fato de estarem sediados em nações com regimes despóticos  fazia que seus assistentes se tornassem veículos de propaganda dos sistemas que regiam aqueles Estados.

A partir de 1960, muitos intelectuais manifestaram seu desconforto com eventos que se realizavam em países que violavam direitos humanos, liberdades sociais e políticas e agrediam cientistas, artistas ou tecnólogos, da área em que era realizado o evento. Por exemplo, várias vezes escritores de diversos países se recusaram a assistir a festivais e encontros literários na Cuba revolucionária, por entender que o governo da ilha (com o qual muitos desses mesmos escritores tinham simpatias ideológicas) não respeitava a liberdade de idéias, de associação, de escolha estética, etc. Sob aquele prisma, então, eles entendiam que, se assistissem a um evento organizado pela Casa de las Américas, estariam estimulando a repressão contra autores críticos do sistema (como aconteceu com Lezama Lima); então, se recusavam a assistir, e ainda muitas vezes estimulavam o boicote.

Muitos autores famosos se recusaram a ir à União Soviética nas décadas de 50, 60 e 70, por causa da repressão contra figuras como Boris Pastiernak e Aleksander Soljenitsin. No polo inverso da Guerra Fria, filósofos e escritores, como Sartre e Bertrand Russell, declinaram convites para os Estados Unidos em repúdio à Guerra de Vietnam.

Com as ditaduras latino-americanas houve menos possibilidades de boicote, porque estas nem permitiam convidar autores de esquerda. Mas muitos escritores liberais, de mente aberta, rejeitaram convites de eventos organizados nestes países, mesmo que não tivessem o apoio manifesto do governo. Eles entendiam, corretamente, que sua presença fortaleceria os grupos de intelectuais favoráveis à ditadura e não conseguiria, como se proclamava, ajudar os escritores clandestinos ou proscritos. Isso aconteceu várias vezes no Brasil, e foi notório entre marxistas estrangeiros, que não “engoliram” os argumentos dos intelectuais do sistema, de que assistindo a esses eventos reforçariam o poder de luta dos intelectuais de esquerda.

Historicamente, boicotes individuais ou coletivos de eventos culturais, científicos, tecnológicos ou artísticos, têm sido baseados nas seguintes causas:

1. O governo do país hospedeiro limita a liberdade de expressão, condiciona ou pune intelectuais.
2. O governo, mesmo que não limite especificamente a liberdade dos intelectuais, exerce um domínio autoritário, violando os direitos humanos em termos gerais.

Em alguns casos, o governo exerce pressão direta sobre a organização do evento; então participar nele pode ser interpretado como uma cumplicidade com o autoritarismo. Mas pode acontecer que a organização seja deixada sob o controle de organismos culturais ou científicos independentes, como fazia a ditadura brasileira, que pretendia mostrar certa “liberalidade”. Mesmo nesse caso, assistir e robustecer o evento significaria contribuir à propaganda do governo e permitir-lhe aprimorar seus aparatos de repressão ideológica.

Como é bem conhecido, salvo aqueles intelectuais que estão especificamente comprometidos com os valores humanos e sociais, a maioria dos profissionais, cientistas e artistas aceitam os governos de tipo “despotismo esclarecido”, porque são os mais chegados ao mecenato e consideram o intelectual conservador uma espécie de “ser superior”. O Brasil é um bom exemplo neste sentido, pois grande parte dos acadêmicos nunca questionou a ditadura, como se percebe pelo baixo número de cassações nas universidades, muito menor que em outras ditaduras do continente.

A decisão de Tabucchi

Nos últimos dias de junho, a Itália surpreendeu com um fato novo e extemporâneo daqueles que se tornaram rotina na extravagancia peninsular.

O escritor italiano Antonio Tabucchi (Pisa, 1943), especialista em literatura de fala portuguesa, decidiu não assistir à Festa Literária Internacional de Paraty, no estado do Rio de Janeiro (Flip), à qual tinha sido convidado como uma das visitas mais prestigiosas. Tabucchi tinha sido agendado já em 2010, quando não pôde vir por razões de saúde, mas tinha aceitado vir em 2011, e sua presença aparece em todos os anúncios oficiais do evento. No entanto, em 28 de junho, a organização do Flip informou que o escritor não viria, “por causa da decisão tomada pela justiça brasileira sobre o caso de Cesare Battisti”.

De acordo com várias agências coincidentes, o motivo seria a “decisão de justiça brasileira”, embora outras mencionam também “o governo brasileiro”, sem que fique claro se Tabucchi está contra ambos, governo e judiciário, ou contra apenas um deles.

Esta é a primeira vez, entre as centenas de boicotes pessoais contra eventos artísticos ou científicos em todo o planeta, que alguém decide boicotar um evento porque o país no qual se realiza recebe uma pessoa odiada pelo governo do país do escritor. Seria inteligível (embora talvez não totalmente adequado) que alguém se recusasse vir ao Brasil por causa dos massacres policiais, do trabalho escravo, das destruições de favelas, do recente sequestro de crianças por agentes de segurança, da desaparição de pessoas, etc., embora os que organizam o evento, e o governo federal não sejam autores desses atos.

Um fato curioso é que Tabucchi não atende o perfil de linchador, como acontece com outros intelectuais italianos. Ele tem uma trajetória progressista, e sua história pessoal no concorda com o que se chama atualmente “centro-esquerda” na Itália, que é um resíduo decadente da gangue pós-stalinista, como o caso de d’Alema, Napolitano, Fassino, Prodi e muitos outros. Pelo contrário, Tabucchi não mostra aspectos sórdidos em seu passado, e sua relação com a esquerda verdadeira parece ter sido pelo menos de tolerância.

Mas nunca aconteceu, nem mesmo durante a Guerra Fria, que uma pessoa se recuse a ir a um evento, porque o governo de seu país odeia uma pessoa que está sendo protegida pelo país de destino. Isso teria acontecido, provavelmente, entre o Reino Unido e Irã, no caso de Salman  Rushdie, se, colocando um exemplo hipotético, o RU tivesse sediado um evento ao qual tivessem sido convidados iranianos. Mas não houve oportunidade de fato como estes, porque os britânicos romperam relações com Teerã após o atentado de Hezbollah que não conseguiu matar Rushdie, mas fez um estrago enorme num hotel de Londres. Ou seja, a atitude de Tabucchi, na forma de um repúdio por um caso pessoal, não tem antecedentes neste tumultuado mundo.

Se não soubéssemos como funcionam as máfias políticas da Itália, o caso de Tabucchi poderia surpreender. Ele foi um dos jornalistas que mais lucidamente defendeu Adriano Sofri, o autonomista italiano falsamente acusado de estimular o homicídio do torturador Calabresi, apenas porque ele denunciou publicamente que o policial tinha matado na tortura o anarquista Pinelli.

Aliás, Tabucchi foi fundador do Parlamento Internacional dos Escritores, uma instituição dedicada a proteger a liberdade de expressão, e propugnar à defesa dos direitos humanos de escritores em geral.

Os objetivos do boicote

Tentemos adivinhar quais são as razões com que o escritor poderia justificar seu boicote. Talvez se pudessem elencar muitos motivos, mas eu apenas percebo estes três:

1. Ao asilar Cesare Battisti, o estado brasileiro demonstra falta de respeito pela democracia italiana.
2. Assistir ao Flip seria una ofensa para os que sofreram nos anos de chumbo.
3. Um intelectual honesto não deve assistir a eventos países que protegem guerrilheiros.

Vejamos cada um desses casos.

1. O governo brasileiro se manifestou favorável a manter Cesare Battisti no país desde janeiro de 2009. Mas nem os governos nem o judiciário têm relação com a Flip, segundo seus próprios organizadores. Por que, então, prejudicar a festa? Aliás, se isso fosse motivo para duvidar da democracia brasileira, Tabucchi não deveria nem ter cogitado vir ao Brasil em 2010, nem agora, em 2011. Ele foi programado para a Flip muito antes deste último ato do Supremo Tribunal de 8 de julho, e o governo brasileiro sempre deixou transparecer seu apóio a Cesare, nos últimos dois anos. Se Tabucchi entende isto como uma afronta contra a democracia italiana, essa “afronta” já existiria antes. Por que não disse antes que não viria?
2. Se Tabucchi acredita que, vindo ao Brasil, estaria ignorando as pessoas que sofreram os Anos de Chumbo, poderia fazer um grande serviço indo a Paraty para explicar aos brasileiros o que foram realmente os Anos de Chumbo, e debater com os presentes os grandes problemas surgidos com a revolta armada. Também poderia fazer uma homenagem pública às vítimas daquela época. Se fizesse isso, nos daria uma boa oportunidade de conhecer, pela primeira vez, uma pessoa inteligente e respeitável que apoia a extradição.
3. Se Tabucchi repudia estados que protegem ex-guerrilheiros (mesmo os que se afastaram da luta armada há 32 anos), deveria repudiar a França, que ainda mantém asiladas várias dúzias de membros das Brigadas, da Autonomia e outros grupos. Enquanto o Brasil dá proteção a cinco italianos de esquerda, a França já deu asilo a quase 300.

Entretanto, Tabucchi frequenta a França sem aparente embaraço desde há muitos anos, e não sabemos que tenha criticado que o país protegesse ex-guerrilheiros italianos desde 1990. Entendemos que ele recebesse o prémio Médicis em 1987, porque nessa época ainda não existia a Doutrina Mitterrand. Mas ele aceitou também o prêmio Jean Monnet, em 1995, (outorgado pelas Litteratures Europeennes Cognac) quando Battisti e outros ex-ativistas estavam na França, e recebeu o importante prêmio France Cultura numa época tão recente como 2002, quando a Itália já tinha começado suas gestões com a França para extraditar Battisti (embora o processo fosse formalizado algum tempo depois).

Até o curador do evento, Manuel Costa Pinto, ficou surpreso. e disse o seguinte:

“Explicamos a ele que a decisão do governo está longe de traduzir por unanimidade o pensamento do povo brasileiro. Particularmente, não conheço uma pessoa que seja a favor de acolhermos Battisti - diz Costa Pinto. - A decisão faria mais sentido se a Flip fosse organizada pelo governo ou fosse um evento de alguma forma usado politicamente. Não é o caso.”

Sem dúvida, o curador falou a verdade. É difícil que algumas das quase 9200 pessoas que assinaram petições em prol de Battisti sejam conhecidas no ambiente dos que cultuam a beleza desencarnada, pois como disse Simone de Beauvoir, (La Pensée de Droite, Aujourd'hui, 1955, capítulo 8), "o valor da arte para as classes dominantes consiste em seu caráter infrequente e escasso e, portanto, poucas vezes o artista puro aprecia a democracia, que tende a tornar a cultura algo popular". Esta observação, feita faz 56 anos, foi comprovada antes e depois por numerosos fatos. Os escritores mais famosos da América Latina, salvo alguns poucos como Garcia Márquez, não foram perseguidos pelas ditaduras, mas pajeados por elas.

Comparações

Ninguém pode objetar a outrem o direito a ser original, mas, pelo menos, chama a atenção que nenhum outro escritor tenha assumido antes uma atitude tão radical como essa. Vejamos alguns casos.

O escritor argentino Jorge Luis Borges (1889-1986), que era quase tão famoso como Tabucchi, assistiu a vários eventos aos quais foi convidado no México, um deles em 1981. Borges, que era ultraconservador e um defensor fiel das ditaduras latino-americanas, poderia ter-se negado a visitar uma sociedade que era uma antítese de suas idéias, pois dava asilo a mais de mil guerrilheiros de todo o continente, entre eles, Roberto Guevara Lynch de La Serna, irmão de Ernesto, dito Che, aquela figura tão odiada por toda a direita.

Mas temos exemplos ainda mais próximos, tomados das anteriores reuniões da Flip. Em 2010, assistiram ao evento a iraniana exilada Azar Nafisi, e o indiano Salman Rushdie, perseguido por uma fatwa de morte desde 1989. Embora a festa não seja organizada pelo governo brasileiro nem pelo STF, teria algum sentido que eles se recusassem a vir por causa da “lua de mel” do estado com a teocracia apedrejadora persa. Mas isso não aconteceu. Eles vieram e fizeram algumas moderadas críticas ao governo por sua amizade com o Irã, de maneira oposta ao que parece pensar Tabucchi neste caso, pois, segundo algumas notícias, ele teria dito que seria “deselegante” ir a Paraty e criticar o governo por causa de Battisti.

Por que não debater?

Se Tabucchi considera errada a decisão da maioria do Supremo Tribunal Federal, e a do presidente Lula, de não extraditar Battisti, talvez poderia ter esclarecido muito aos que moramos neste país, nos explicando por que acha que Battisti deveria ser extraditado.

Além disso, na epígrafe deste artigo reproduzo textualmente, com tradução literal, uma frase de Tabucchi publicada no Correio Della Sera onde manifesta sua absoluta repulsa pelo método da delação premiada.
Então, como ele poderia ter animosidade contra alguém que foi acusado unicamente com a palavra de um delator principal (Mutti), e três delatores secundários? (Fatone, Barbetta e Tirelli). Todos eles tiraram magníficas vantagens por sua delação.

Seria importante saber como Tabucchi concilia seu apóio a Adriano Sofri, e também a frase que
reproduzimos acima, junto com outras condutas humanitárias de sua história pessoal, com esta misteriosa rejeição de um evento que acontece num país, porque o governo desse país, que não é organizador do evento, acolhe um refugiado que a Itália não gosta, mas que foi recebido com o acordo não apenas do governo, mas também do Judiciário, cuja cúpula não conseguiu consagrar sua fraude anterior.

Então, não posso evitar ser acometido por uma curiosidade: qual é o verdadeiro motivo dessa recusa de Tabucchi e sua posição contra Battisti?

Mais um mistério

Sem dúvida, ninguém pensa que um boicote isolado, deflagrado como protesta contra um ato legal pode produzir qualquer modificação nos fatos reais. Nem sequer vale como provocação, porque as pessoas interessadas no caso são poucas, e o fato de que pareçam muitas é apenas produto da propaganda da mídia e dos repetidos atos “inesperados” promovidos pela Itália.

O governo italiano já pós no ar várias bravatas, como o boicote da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016, mas todos sabem que isso é pura fanfarronada (já tentada em 2009 com o amistoso Itália-Brasil em Londres), cujo único objeto é que a FIFA deva responder e, dessa maneira, manter visível por mais algum tempo a necessidade de vendetta.

Mas, no caso de um sisudo escritor, muito respeitado nos círculos especializados, mas pouco conhecido pelas grandes massas, qual será o efeito do boicote?

Não parece haver dúvida de que uma pessoa talentosa não pode acreditar no valor social de uma extravagância, nem sequer no valor ético individual. Será que o boicote de Tabucchi vale pelo menos como vingança pessoal? Mas, isso seria contraditório com atitudes anteriores que não teria motivo para mudar.
Não teria motivo?? Ou será que tem?

Há duas possíveis explicações, que inclusive podem ser complementares:

1. Segundo fontes que conhecem muito bem a política italiana, os grupos neostalinistas desejam colocar Tabucchi no posto de ministro de cultura, no governo que substitua Berlusconi. De acordo com essa versão, seria uma negociação, já que os neostalinistas são assanhados perseguidores de Battisti.
2. Também pode ser que o escritor esteja ameaçado, como acontece com outras pessoas que tiveram intervenção no caso Battisti.

A hipótese 1 está fora de dúvida porque provém de fontes muito íntimas da política italiana. Então, talvez a negociação tenha sido a seguinte: “Você terá como prêmio o Ministério da Cultura, se recusar ir ao Brasil. Se não recusar...”

Não seria nada esquisito. Quem ler algo do pouco que se sabe sobre a URSS, perceberá que não é o primeiro escritor que passa por uma situação análoga.

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