O Banco Central estava certo

No final de agosto último, quando o Copom optou por surpreender as apostas do mercado e iniciar um ciclo de reduções da taxa básica de juros, passando a Selic para 12%, parecia que o mundo viria abaixo. Choveram críticas dos analistas financeiros midiáticos (aqueles que não saem das páginas dos jornais semanalmente e que prestam serviços para consultorias especializadas ou bancos). Alguns críticos foram além e realçaram que o BC estava sendo pressionado politicamente e abandonava uma política de preservar a inflação dentro da meta.

Nos meses seguintes, à medida em que se foram confirmando os sinais de desaceleração da economia brasileira, as críticas foram rareando, à exceção de alguns intransigentes, que se julgam detentores de um afiadíssimo espadachim ultra-ortodoxo que lhes faz imaginar com superpoderes...

Agora, com a indicação do não-crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre de 2011 fica claro que a autoridade monetária cumpriu seu papel, antecipando-se à formação de consenso pré-direcionado e foi eficaz ao diagnosticar o desempenho econômico nacional, diante de um complexo ambiente internacional.

Este acontecimento deve servir de reflexão.  Aquela avalanche de críticas desvanece no ar como se nada tivesse acontecido. Porém, o episódio revela um fortalecimento do BC; uma manifestação expressa de sua credibilidade e não o contrário, como asseveravam os críticos.  Este, sim, é o papel de um BC independente: antecipar-se ao que parece ser consenso e indicar os referenciais relevantes para que a estabilidade monetária prevaleça em um contexto evolutivo saudável. O ajuste dos juros é um lume ímpar neste contexto em que as variáveis macroeconômicas se ajustam dinamicamente com reações causadas por instrumentos de política econômica acionados internamente e pelos acontecimentos externos.

O que dizia a ata do Copom em 31 de agosto? Que havia indicações do agravamento da crise internacional, ou seja, que havia uma “ deterioração adicional dos mercados internacionais, com a volatilidade e a aversão ao risco se elevando, em grande parte  alimentadas por extraordinários níveis de liquidez e por incertezas crescentes quanto ao ritmo de recuperação da atividade global”. Registrava ainda que “... aumentaram as preocupações com dívidas de países e de bancos europeus, inclusive de economias centrais, e com a possibilidade de desaceleração da atividade econômica na China”. E foi exatamente isso que observamos desde setembro último. A crise da zona do euro vem se arrastando sem a manifestação de que haverá  uma superação das incertezas nos próximos anos; o ambiente econômico nos EUA continua na mesma, com tímidas  recuperações setoriais e na geração de emprego. Enquanto isso, todos os países emergentes passaram a rever suas metas de crescimento neste ano, optando por  adotar medidas reanimadoras do mercado, como foi feito recentemente na China, ao flexibilizar a oferta monetária com redução dos depósitos compulsórios. Tal como aqui, em diversas economias estão sendo acionadas medidas macroprudenciais, de forma a evitar que a economia estagne e caia, aí sim, em um ciclo vicioso, deteriorando as contas públicas e exigindo esforços subsequentes maiores do setor público.

A economia brasileira está preparada para enfrentar essa incômoda realidade internacional. Entretanto, sua posição não permite imobilismo por parte do governo e nem oferece condições para se “baixar a guarda”. Tudo leva a crer que teremos um ambiente de restrito crescimento econômico por um bom tempo; ainda faltam muitos capítulos desta novela em torno da luta para se preservar a união monetária europeia.

Ainda convivemos com taxas reais de juros elevadíssimas. Atualmente, estão em torno de 5,0%/5,5% (Selic atual de 11% e uma expectativa de IPCA para os próximos 12 meses de 5,5%).  Um dos determinantes da restrita taxa de investimento da economia brasileira é a taxa de juros. As diversificações de fontes para investimentos de longo prazo (regulamentação de fundos de investimentos e atrativos tributários para emissão de debêntures) estão, aos poucos, redirecionando poupança de investidores institucionais e dos chamados family offices para sustentar as demandas da “economia real”.  A conquista de uma taxa básica de juros mais baixa,  próxima do que se tem nos países centrais e nas demais nações emergentes, é uma indispensável condição para preservar a vitalidade da economia brasileira. O BC tem dado indicações de sua afinidade com a formulação da política econômica (como um todo) conduzida pelo Ministério da Fazenda bem como o seu inquestionável compromisso com a preservação de metas de estabilidade, mas numa economia que cresce e reduz as iniquidades sociais que tanto nos incomoda.

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