O ano em que sonhamos perigosamente – volume 2

Retomando a discussão sobre o último ensaio do filósofo esloveno Slavoj Zizek (O ano em que sonhamos perigosamente. S.Paulo, Boitempo, 2012) cujo resumo da ópera ele define sutilmente, observando que a língua persa tem uma excelente expressão war nam nihadan, que quer dizer “matar uma pessoa, enterrar o corpo e plantar flores sobre a cova para escondê-lo”.

O fato é que, em 2011, testemunhou-se uma série de eventos libertários de massa - desses que modificam a História, abrindo a porta do Futuro - da Primavera Árabe ao Occupy Wall Street. De certo modo, 2011 foi o ano em que se sonhou perigosamente em duas direções: houve sonhos de emancipação que mobilizaram as massas em Nova York, na Praça Tahir, em Londres e Atenas, e houve sonhos destrutivos e obscuros, que serviram aos populistas de direita em todo o mundo.

Mas primeira providência da ideologia hegemônica foi NEUTRALIZAR a verdadeira dimensão desses eventos: isto é, a reação predominante da mídia não foi precisamente tipo um war nam nihadan? Porque a mídia estava MATANDO o potencial emancipatório radical desses eventos ou encobrindo-os hipocritamente como “ameaças à democracia” e, então, plantando flores sobre o cadáver previamente enterrado.

Por isso é tão importante esclarecer as coisas, situar tais eventos dentro da totalidade do capitalismo global, o que significa mostrar como eles estão relacionados com o antagonismo central do capitalismo de hoje.

A propósito, eis algumas reflexões, desta vez do capítulo “Inverno, primavera, verão e outono árabes”. Zizek comenta que, reagindo à famosa caracterização do marxismo como “o islamismo do século XX”, Jean-Pierre Taguieff escreveu que o Islã está se revelando “o marxismo do século XXI”, prolongando, após o declínio do socialismo real, seu violento anticapitalismo.

No entanto, as recentes vicissitudes do fundamentalismo muçulmano não confirmariam o antigo insight de Walter Benjamin de que “toda ascensão do fascismo é o testemunho de uma revolução fracassada”?

Isso nos leva à verdadeira e fatídica lição das revoltas da Tunísia e do Egito: se as forças liberais moderadas continuarem ignorando a esquerda radical, elas criarão uma onda fundamentalista intransponível. Ora, ironicamente, para que o legado liberal sobreviva, os próprios liberais precisam da fraternal ajuda da esquerda radical!

Embora (quase) todos apoiem com entusiasmo essas explosões democráticas, há uma luta subterrânea, oculta, por sua apropriação. Elas são celebradas pela grande mídia ocidental como se fossem iguais às “revoluções de veludo pró-democracia” do Leste Europeu: um desejo de democracia liberal ocidental, uma ânsia de igualar-se ao Ocidente. Mas surgem mil inquietações quando se vê que emergir uma outra dimensão em tais protestos, como, por exemplo, a demanda por “justiça social”.

Testemunhamos nas últimas décadas toda uma série de explosões populares emancipatórias que foram reapropriadas pela ordem capitalista global, seja em sua forma liberal (da África do Sul às Filipinas), seja fundamentalista (Irã).

É importante ter em mente que nenhum dos países árabes onde ocorreram tais eventos é formalmente democrático: todos eram autoritários em maior ou menor proporção, de forma que a demanda por justiça econômica e social integra-se espontaneamente aos clamores por democracia.

Como se a pobreza fosse o resultado da ganância e da corrupção de quem está no poder e bastasse livrar-se deles. Mas o fato é que, se temos democracia, a pobreza continua! Então, o que fazer?

Eis a pergunta que não quer calar, donde a necessidade de continuar a viver, pensar e a sonhar perigosamente.

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