Nos States não colou. Mas quem garante que aqui não cola? 

Crises não surgem do nada nem de uma única causa. São o produto de uma conjunção de fatores que, num determinado momento, encontram as condições e o caldo de cultura ideais para se combinar e formar uma mistura que adquire a capacidade de minar instituições, apagar convicções, demolir reputações  e até mesmo negar conhecimentos sólidos, derivados do avanço da ciência, que vieram se acumulando ao longo da história durante milênios.

>Câmara dos EUA aprova impeachment de Donald Trump

A atual crise que o Brasil enfrenta comporta diversos ângulos de análise. Mas, ao fim e ao cabo, resulta de um conjunto explosivo de condições favoráveis ao pior desfecho, com risco, inclusive, de desaguar num confronto sangrento, tamanho o volume de forças diversas e antagônicas envolvidas. Elas fazem parte de um pacote que abrange a situação político-social,  a mudança radical das crenças religiosas, pela perda de prestígio do catolicismo frente às seitas evangélicas, e o contributo do desastre sanitário gerado pela covid-19, tudo isso turbinado pelo crescimento vertiginoso do uso das redes sociais como veículos para a propagação e fortalecimento de ideologias totalitárias, de feição neofascistas, manipuladas por fanáticos, com emprego desenfreado da mentira como arma de persuasão por meio de plataformas disponibilizadas gratuita e maciçamente pela internet.

Dificilmente, se vista em panorâmica ao longo da história, a sociedade brasileira se deparou com uma situação tão explosiva e absolutamente fora de controle quanto a que estamos vivendo. E sem perspectiva de reversão a curso ou médio prazo.

Democracia, essa planta tenra 

A democracia, por mais louvada e incensada como o melhor sistema de governo já engendrado pelo homem, ainda não conseguiu dispor de mecanismos eficazes para conter a ação dos líderes que dela se servem justamente para corroer seus alicerces. Os recentes acontecimentos nos Estados Unidos, considerado o país-símbolo da democracia no mundo, são a melhor prova de que faltam às democracias instrumentos de autodefesa minimamente capazes de protegê-la dos ataques aos seus fundamentos. A invasão do Capitólio foi um ato deliberadamente realizado para a concretização de um golpe de estado. E foi incentivado pelo próprio chefe de Estado, através das redes sociais. Não fosse a falta de apoio de Trump junto ao estamento militar e muito possivelmente o desfecho poderia ter sido outro, com as consequências mais desastrosas que se possa imaginar.

Se nos Estados Unidos, que se orgulham de ser a mais sólida democracia do mundo, a vaca por muito pouco não foi ao brejo, o que dizer do Brasil, que há menos de 30 anos saía de sua segunda experiência ditatorial? Neste momento, o Brasil tem como presidente da República um demente que se orgulha e se proclama a favor da tortura, do racismo, da homofobia, da misoginia, do negacionismo científico, que por atos e palavras contribui para o assustador número de mais de duas centenas de mortos pela covid, e que faz o possível e o impossível para perpetuar-se no poder. Ora, se Collor teve de renunciar para não ser desapeado à força pela posse ilegal de um Fiat Elba e da corrupção pilotada por Paulo César Faria, seu tesoureiro de campanha, e se Dilma foi impichada pelas pedaladas fiscais e por não ter tido competência para segurar a derrocada econômica, muito mais fortes e consistentes são as acusações para a aprovação do impeachment de Bolsonaro. O problema, pelo que se depreende das afirmações do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que se recusa a assinar a abertura do processo, é que, por falta de condições políticas para aprovação, o impeachment recusado faria o feitiço virar contra o feiticeiro. E se converteria no fortalecimento de Bolsonaro rumo a um novo mandato. Neste momento, haja vista a configuração das forças em disputa pelo comando da Câmara e do Senado, fica evidente a improbabilidade de que o Parlamento aprove o afastamento de Bolsonaro. Tá tudo dominado.

O agigantamento das seitas 

O imbróglio se agiganta quando se observa a influência brutal que líderes evangélicos exercem simultaneamente junto ao setores mais humildes da população – a maioria - e no apoio que dão ao atual governo em troca de benesses. Os mais humildes, justamente os que mais contribuem com o dízimo, são ao que (mais) contribuem para elevar ao nível de milhões ou de bilhões de reais os patrimônios pessoais desses líderes. A garantia constitucional de liberdade de culto lhes garante blindagem para não serem alcançados por denúncias de estelionato, como parece  óbvio. La nave va.

Simultaneamente, no Congresso, a distribuição a rodo de cargos e liberação de emendas parlamentares vem funcionando como instrumento eficaz de atração de apoio por parte de Bolsonaro. E com a cooptação dos militares, catapultados a cargos para os quais não têm nenhuma capacitação. Ou simplesmente cortejados dia sim e outro também nas cerimônias de formatura que o capitão-presidente faz questão de comparecer e prestigiar. Não existe, no horizonte visível, qualquer sinal de que esse quadro vá se modificar, a não ser para pior.

Como combustível a mover isso tudo, a livre circulação de informações que misturam desde fake news para desacreditar a ciência (como nas ações de descrédito às vacinas e às medidas profiláticas de contenção do vírus, através do afastamento social, do uso de máscaras e do hábito de lavar as mãos) até a propagação de teorias da conspiração lideradas por instituições da extrema direita – isso que o FBI denomina de “terrorismo doméstico”, são hoje condições incontroláveis e em franca expansão. Alejandro M. Gallo, autor de “Critica de la Razón Paranoide (ainda inédito no Brasil), afirma: “Nenhuma construção conspiratória é inócua, pelo contrário: assim que se torna ideologia de Estado ou de grupos terroristas ou de fanáticos, sejam eles religiosos e/ou nacionalistas, conduzem a massacres, matanças, suicídios coletivos e até genocídios”.  Se combinarmos a esse cenário aterrorizante o fato de que os fanáticos se retroalimentam dia e noite de seu próprio veneno, diante da impermeabilidade das bolhas em que residem nas redes sociais onde atuam, percebemos a extrema gravidade do quadro atual. No Brasil, e no mundo.

Sim, cara-pálida, mas, e daí? 

Com certeza, quem chegou até aqui, há de perguntar, como um certo presidente aí diria: sim, mas, e daí? Pois existe, sim, uma resposta: a mobilização social, só ela, unicamente ela, será capaz de conter o risco de uma aventura autoritária no Brasil. Bolsonaro nem disfarça tal intenção. Tanto que, diante dos acontecimentos no Capitólio, já avisou com todas as letras que, se não houver voto impresso, a situação no Brasil poderá ser pior. Ou seja: se vencer, tudo bem, com ou sem voto impresso. Mas se perder, já levanta a possibilidade de fraude. E anuncia abertamente sua própria tentativa de golpe, ainda que a tentativa de seu líder nos States tenha dado com os burros n’água. Mas quem garante que aqui não cola?

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