Nem tudo que se diz se faz

O último discurso do ex-senador Demóstenes Torres no Senado foi um discurso para o senador Demóstenes Torres. Para aquele Demóstenes Torres que existia antes que fossem desnudadas as suas relações com o bicheiro Carlinhos Cachoeira. No seu último apelo, Demóstenes pedia aos demais senadores que não o medissem pela régua que ele sempre usara para medir os outros. Era Demóstenes pedindo aos demais senadores que tivessem com ele um grau de tolerância com comportamentos que ele, antes, jamais demonstrara com ninguém.

Não por acaso, uma das principais vítimas do Demóstenes de outrora – o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) – fez questão de assistir ao seu discurso de pé, encarando-o, sem esconder um sorriso de vez em quando. Da presidência, outro desafeto, o senador José Sarney (PMDB-AP), mantinha seu estilo mais discreto e contido. Mas ficou a impressão de que, para alguns, a sessão de cassação de Demóstenes era também uma sessão particular de vingança.

Demóstenes disse que jamais dará o mesmo crédito às ações movidas pelos procuradores. Essa é a categoria profissional de origem de Demóstenes. Que jamais concederá outra vez a mesma credibilidade aos jornais e jornalistas. De quem foi fonte permanente durante anos, sempre disponível para opinar sobre comportamentos de outros que, como ele agora, se desviassem da conduta ética recomendável. Ou seja: a derradeira tentativa de defesa de Demóstenes foi negar o que sempre pregara ao longo da sua vida política. Era Demóstenes livrando-se definitivamente do senador Demóstenes, o personagem político que criara.

O resumo final da carreira política de Demóstenes parece mesmo ser a frase que ele pinçou do samba de Ismael Silva: “Nem tudo que se diz se faz”. Não como algo que o absolva, como ele pretendia, mas para designar exatamente a forma como Demóstenes se comportava na vida pública, e que ele explicitou em seu último discurso. O que Demóstenes dizia, não era o que Demóstenes fazia. Seu discurso derradeiro foi uma tentativa de atribuir a todos comportamento semelhante. Procuradores, pela sua lógica, fariam diferente do que dizem. Jornalistas idem. E mesmo o relator que recomendou seu processo de cassação, Humberto Costa (PT-PE).

Ao final da votação, o senador Jorge Viana (PT-AC) parecia um pouco perplexo e perturbado. “Não cassamos apenas um senador, cassamos aquele que parecia ser o melhor senador da República”, dizia ele. Imensa inteligência, enorme conhecimento jurídico, grande capacidade de articulação, talento incomparável para o discurso. “É impossível considerar que o resultado, tendo sido a cassação, deixa bem a imagem do Senado. Não deixa”, completava Jorge Viana. Seu raciocínio era o seguinte: se tudo o que se pensava sobre Demóstenes era a composição de um personagem, de alguém que dizia uma coisa e fazia outra – como entendeu a grande maioria dos senadores –, como escapar da impressão de que os demais senadores – menos brilhantes e capazes na comparação – não façam também a mesma coisa?

O personagem do samba de Ismael Silva usava a frase que Demóstenes tornou famosa para comentar que, embora declarasse que ia largar a orgia, na verdade ele não conseguiria. Eis o dilema do Senado.

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