Não foi batom na cueca, foi cocô mesmo 

Os 30 mil reais que o ex-vice-líder de Bolsonaro escondeu na cueca, conforme o relatório da Polícia Federal, 250 deles no próprio rego da jaca, como provam algumas cédulas manchadas de cocô, introduz, com perdão do trocadilho, uma questão essencial que normalmente passa batida nesses episódios: o apego sem limites que algumas pessoas devotam ao dinheiro.

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Para além da bizarrice e do caráter escatológico da ocorrência, há que se considerar e refletir sobre as razões que levam um senador da República, homem da intimidade mais próxima do presidente da República, – “nossa relação é quase estável” (Jair Bolsonaro) – a enfiar notas de dinheiro lá nas suas intimidades.

O ato de roubar, praticado pelos integrantes dos mais altos patamares da república, quando descoberto, normalmente é rebatido com as surradas explicações de perseguição política ou de açodamento da investigação, “e temos certeza de que tudo ficará esclarecido pois nada temos a esconder etc.” O problema é que esconder dinheiro roubado nas partes íntimas para escapar da ação da polícia pressupõe a determinação de correr o risco de danificar para sempre uma reputação, se é que o vice-líder de Bolsonaro um dia teve uma. O crime adquire feições hediondas se considerarmos que os recursos eram destinados ao combate e ao tratamento das vítimas da covid-19. Ou seja, para a saúde, dinheiro quase sagrado, a se considerar a nobreza de sua finalidade, e que terminou lá nas profundezas da ignomínia pratica pelo senador.

Essa estranha compulsão de ganhar mais e mais 

É muito estranha essa compulsão de quem tem muito dinheiro tentar por todos os modos ganhar cada vez mais e mais e mais. Inclusive porque há estudos comprovando que os muito ricos não são de fazer gastos estratosféricos. Na maioria, eles são pães-duros. Comprazem-se em ficar como Tio Patinhas, sentados em sua montanha de dinheiro. Observe-se a história e se poderá constatar que não existe um só grande golpe praticado por... um pobre! Pelo contrário. A maioria das grandes falcatruas é de autoria de quem já acumulou muito dinheiro. A ganância de quem não consegue parar de ganhar mais e mais dinheiro, mesmo que dele não vá usufruir, tem um nome estranho: crematística.

As vítimas dessa compulsão, que também atende pelo nome de ganância, se sujeitam a tudo para ganhar cada vez mais. E terminam tendo destinos trágicos ou lamentáveis. É o caso do ex-vice-líder bolsonarista, que não chega a ser um homem rico. Mas tem um apego desmesurado pelo vil metal. Tanto que em 2018 declarou valor de apenas R$ 150 mil para uma casa localizada no Lago Sul, área nobre de Brasília, onde um imóvel de três quartos custa perto de 2 milhões de reais. E em todas as declarações confessou guardar milhares de reais em espécie, em casa. Além disso, ele declarou dois escritórios no Setor Hoteleiro Norte, centro nobre de Brasília, um no valor de R$ 18.165 e outro, de R$ 34.270. Esses valores não pagam nem a taxa de escritura.

Um senador ganha bem. Muito bem 

Um senador ganha por mês um salário de 33 mil 763 reais. Salário alto, para os padrões brasileiros. Mas tem uma carrada de extras que catapultam esse valor algumas dezenas de vezes. Eles não pagam despesas médicas, moram em imóveis funcionais de luxo, dispõem de passagens, serviços postais, manutenção de escritórios de apoio, hospedagem e combustível, tudo grátis. Recebem uma verba equivalente ao valor do salário no início e no final do mandato, a título de compensação pelos gastos com a mudança. No total, um senador recebe em espécie ou em vantagens, tudo somado, algo em torno de 165 mil. Por mês. E empregam uma média de 34 pessoas. O senador tucano Izalci Lucas tem 85 auxiliares, e gasta com eles, mensalmente, R$ 553 mil em folha de pagamento. Convenhamos: não justifica a qualquer senador sujeitar-se ao vexame de esconder 30 mil reais na cueca e nas bordas do fiofó.

A crematística do senador é muito funda 

Talvez a tal de crematística ajude a entender isso. Segundo os estudiosos, família, amigos, parceiros e até a própria pessoa deixam de ter tanta relevância para quem sofre dessa obsessão quando pinta uma chance de ganhar mais. A adrenalina obtida pela realização de ações proibidas é a mesma do jogador que, mesmo correndo o risco de ser apanhado, rouba no jogo para vencer a partida. É uma espécie de droga que as faz perder valores e esquecer compromissos. Parece contraditório, mas, ao mesmo tempo, como nada tem valor, nenhuma quantidade, posse ou realização consegue saciar seu apetite.

A crematística é capaz de explicar. Mas não justifica a canalhice escatológica cometida pelo senador. Que era integrante do governo, sim, apesar dos esforços de Bolsonaro e de sua tropa para se afastar dele e justificar aquela história de que no governo não existe corrupção. Tanto fazia parte do Governo que ostentava o título de “vice-líder do Governo no Senado”. Do Governo, ouviram?

Queira ou não queira, as mãos de Bolsonaro estão fedendo por causa do cocô daquelas notas. Quem mandou ter uma relação “quase estável” com um ladrão do dinheiro da saúde do povo brasileiro que escondeu uma grana preta lá nos latifúndios mais profundos de sua crematística?

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