Nacional por inspiração

Márcia Denser*

A respeito duma suposta “defesa sutil de um secreto petismo” de minha parte, segundo o comentário dum certo leitor não menos sutil, creio que antes é preciso atribuí-la àquele inevitável humanismo pluralista e não sectário, próprio da minha condição de artista, em geral, e intelectual progressista, em particular, eternamente em defesa de um projeto coletivo para o Brasil. E não poderia ser diferente.

O artista especificamente vai buscar inspiração na memória profunda de seu povo, constrói sua arte e sua linguagem a partir do sedimento cultural acumulado por gerações de antecessores. Por mais genial que seja, ninguém cria a partir do vazio (inclusive sob pena de reinventar “ovos de Colombo”): debaixo do meu texto estão a ficção e a poesia brasileiras dos anos 70 e 80, os cronistas dos 60, Rubem Braga, Stanislaw Ponte Preta, as genialidades e achados verbais de Rosa/Clarice/Drummond, e também os concretistas de 50, todos os ensaios dos “chato-boys”, os modernistas de 22, Mário & Oswald, os românticos e realistas do século 19, Machado, Alencar, parnasianos e simbolistas e por aí vamos... Leituras fazem parte da profissão, as mil e uma maneiras de afiar nosso instrumento.

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A literatura não é globalizada porque é internacionalizada, razão pela qual a atual condição hegemônica do inglês, como no passado o francês, significa muito pouco para o escritor criativo, cuja produção precisa se realizar fundamentalmente no âmbito da língua-mãe, isso se ele quiser atingir um nível máximo de excelência estética. Quer escreva em iídiche (como Isaac B.Singer, por exemplo) ou javanês, independentemente da língua, o grande escritor sempre será grande mundialmente. Afinal, ele trabalha com o laboratório da língua, conseqüentemente do pensamento: eis a razão da literatura ser a única das artes a receber o Prêmio Nobel.

O que significa, inversamente, que desconsiderar suas tradições, adotar postiçamente outras alienígenas, sem ressonância na memória profunda, é suicidar-se culturalmente, um erro fatal cujo preço é a irrelevância. De forma que, entre o Halloween e a Ação de Graças, naturalmente fico com o Saci Pererê.

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