Na CPI, o carro desembestado atropelou o relator

Em abril, quando se iniciou a CPI do Cachoeira, nós escrevemos aqui que o seu início equivalia à tarefa de empurrar um carro vazio, desengrenado, ladeira abaixo. Imaginar que se poderia orientar para onde o carro correria, quem iria preservar e quem poderia atropelar era tarefa um bocado arriscada. Um carro desembestado vai para onde o seu nariz aponta. Pode atropelar alguns. Pode atropelar todo mundo. Pode não atropelar ninguém.

A ideia em torno da estratégia de dar início à CPI do Cachoeira tinha todos os componentes para dar errado, como deu. Quando as denúncias sobre o esquema chefiado pelo bicheiro Carlinhos Cachoeira surgiram, a oposição fez o que qualquer minoria tem sempre mesmo que fazer: discursos inflamados e pedidos de investigação. Quem está na oposição já está nessa situação porque antes foi derrotado. Assim, sempre tem menos a perder porque, na pior das hipóteses, continuará exatamente como está: derrotado. Claro, com derrotas seguidas, diminui, desidrata: todo partido, para crescer, precisa se tornar perspectiva de poder. Mas quem está fora é que tem de arriscar. Quem está no poder, precisa ser mais conservador. É aquela velha máxima do futebol: em time que está ganhando não se mexe. Ou, num formato mais comum na política: se o mar está calmo, não convém fazer marola.

Eis que, ao contrário disso, instigados por Lula, o PT em particular e a base governista na esteira resolvem adotar a CPI do Cachoeira numa estratégia de estabelecer com ela um contraponto ao julgamento do mensalão. Risco total. O processo do mensalão era algo maduro. Consequência, inclusive de uma CPI, a dos Correios. Somada a todo um trabalho posterior de várias instituições: Polícia Federal, Ministério Público, e a Justiça no Supremo Tribunal Federal (STF). Ainda que tivesse razão o PT nas extremamente questionáveis ponderações que faz sobre os aspectos políticos da Ação Penal 470 – tem razão em algumas, mas seguramente não tem razão em todas –, o fato é que o julgamento do mensalão era um processo aprofundado e depurado que dificilmente poderia àquela altura ser interrompido ou atenuado por qualquer fato novo.

O segundo ponto arriscado é que o enorme pacote já investigado que chegou às mãos da CPI já apontava desde o início para algo que não fustigava apenas a oposição, mas também tinha potencial de atingir o governo. Querer orientar a CPI a investigar apenas uma parte das denúncias e deixar outras de lado gerou a sequência de cenas constrangedoras de uma Comissão Parlamentar de Inquérito que nada fez.

Ao final, ficou-se naquilo que desde o início já se sabia. Cachoeira montou um esquema que tinha por objetivo se aproximar de governos para lucrar em várias frentes. Atuava no sentido de alavancar os interesses da empreiteira Delta. E tinha no ex-senador Demóstenes Torres seu principal braço político. O que se demonstrou é que o esquema conseguiu ter uma entrada forte no governo de Goiás, do tucano Marconi Perillo. O que efetivamente obteve lá precisava de mais investigação. Tentava conseguir o mesmo no governo do Distrito Federal, do petista Agnelo Queiroz. Alguns grampos demonstram que no DF ele ainda tentava, mas talvez ainda não tivesse conseguido. Mas, aparentemente, se não falava diretamente com Agnelo, alguns contatos também já tinha. Da mesma forma, para saber exatamente até onde ele teria ido no DF se precisava de mais investigação.

Até onde foi consequência do esquema ou não o lucrativo sucesso da Delta no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)? Não se sabe porque não se investigou. Até onde foi a influência da Delta no governo do Rio de Janeiro, do governador peemedebista Sérgio Cabral? Igualmente, não se apurou. Quem pagou ou recebeu dinheiro do esquema? Sabe-se em parte, não se sabe no todo porque não foram aprovados pedidos de quebra de sigilo de algumas das empresas fantasmas do esquema.

A Operação Monte Carlo e as demais operações da PF que chegaram ao esquema de Cachoeira tinham por propósito inicial investigar jogo ilegal. Portanto, quando os policiais chegaram a políticos e autoridades, não tinham autorização legal para prosseguir. Assim, ainda que o volume de grampos, documentos, conversas relatadas, etc, já fosse grande, tudo o que ele tinha que envolvia políticos e autoridades era o que, no jargão policial, é chamado de “fortuito”. Focar a investigação agora em políticos, autoridades, corruptos e corruptores, era uma das tarefas da CPI. E isso a CPI não fez.

Por isso, é imensamente feliz a imagem feita pelo deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) ao deparar com as cinco mil páginas do relatório inicial do relator da CPI, deputado Odair Cunha (PT-MG). “A pizza é maior que o forno”, disse Miro. De fato, estava ali uma imensa quantidade de coisa nenhuma. Ou, numa hipótese mais condescendente, uma imensa quantidade de novidade nenhuma.

E como se tratava disso – uma “pizza maior que o forno” –, Odair Cunha não tinha sobre ela convicção alguma. Por isso, não defendeu seu relatório. Ao aceitar retirar do texto final os ataques aos jornalistas e ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel, Odair rifou o relatório exatamente de tudo aquilo que o PT queria que ficasse. Perdeu, assim, o PT mais um round na sua briga com a imprensa, do que batiza de “mídia golpista”. Uniu Justiça e Ministério Público na defesa de Gurgel. Não fez o STF recuar um milímetro na disposição de condenar os réus do mensalão. Ao incluí-los inicialmente, Odair Cunha comprou briga com essa turma toda e com a oposição. Ao recuar, comprou briga com os que o pressionavam para incluir. Enfim, ao final, Odair Cunha não ficou bem com ninguém.

O que sobrou no relatório é o que já havia desde o início. Demóstenes foi cassado, em função do que surgiu nas investigações da PF. O relatório ataca Marconi, mas desde o início já se abriu um inquérito no Superior Tribunal de Justiça (STJ) que o investiga. Preserva Agnelo, mas da mesma forma ele também responde a um inquérito no STJ. E quem a PF não investigou, a CPI não pode da mesma forma atacar, uma vez que a CPI não investigou pessoalmente nada nem ninguém.

Só empurrou o carro ladeira abaixo. Na ladeira, o carro atropelou Demóstenes. Feriu gravemente Carlinhos Cachoeira. Bateu com força em Marconi. Atingiu Agnelo. Resvalou em Sergio Cabral. Ao chegar ao fim da ladeira, produziu outro atropelamento: pegou o próprio relator, Odair Cunha.  Não há muita certeza se a essa altura ele efetivamente já parou.

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