Na casa de Satchmo

Cláudio Versiani*, de Nova York

Louis Armstrong nasceu num bairro negro de Nova Orleans. A data é controversa: pode ter sido no ano de 1900, mas o mais provável é tenha sido em 4 de agosto de 1901. Sua mãe, lavadeira e prostituta, segundo alguns biógrafos, tinha 15 anos e era solteira. Curiosamente, Armstrong escreveu que a mãe dizia se lembrar do barulho dos fogos de artifício no dia do parto, que teria ocorrido num 4 de julho, data da independência americana. Mas não havia festa. Na realidade, eram sons de tiros, a área era a chamada barra pesada. E a data certa, como dissemos, pode ter sido outra.

Louis morava entre as ruas Perdida (Lost) e Liberdade (Freedom), no bairro conhecido como “campo de batalha”. Ele foi criado pela avó, o pai abandonou a família quando Armstrong ainda era um garotinho. Aos seis anos, ele formou o seu primeiro quarteto. Os garotos cantavam nas ruas para fazer um troco. Naquela época, ele trabalhava para uma família judia e conseguiu economizar 50 centavos por semana durante dois meses e meio. Ao final comprou uma corneta velha e suja numa loja de penhores. Ainda não era um trompete, mas o garoto achou o instrumento a coisa mais bonita do mundo.

Na passagem de ano de 1912, vai para a rua tocar, cantar e arrecadar gorjetas. Para celebrar, dá uns tiros de revólver para o alto. Um policial vê a cena e o prende. Ele é mandado então para uma casa de recuperação para jovens negros, uma espécie de Febem da época. A ida para o reformatório muda a sua vida. O diretor da banda da “Febem” se encanta com seu talento e o inicia no mundo da música. Em pouco tempo, o pequeno Louis vira o líder da banda do reformatório. Assim começou a carreira daquele que viria a ser considerado o maior músico de jazz de todos os tempos, não há controvérsias.


Foto: Cláudio Versiani

Armstrong se casou quatro vezes, a primeira delas aos 17 anos com uma prostituta de Louisiana. Mas a sua quarta esposa, Lucille, foi a mulher de sua vida. Aos 18, já era músico profissional, os dias de entregar carvão e jornal tinham ficado para trás. Em 1923, grava o seu primeiro disco como segundo trompetista na banda de “King Oliver”.

Em 1922, ele se muda para Chicago. Nos anos 20, os negros seguiram essa rota para fugir do Sul preconceituoso e tentar vida nova no Norte liberal. Essa é uma das razões por que a cidade de Chicago se tornou um dos centros jazzísticos da América. Em 1924, ele se muda para Nova York. De volta a Chicago em 1925, forma o lendário conjunto Hot Five. Em 1929, fixa residência em Nova York, sua cidade definitiva.

Nos anos 30, excursiona pelos Estados Unidos afora e se aventura por outros portos, Europa principalmente. Passa quase todo o ano de 1934 de férias em Paris. Se não bastasse ser músico (trompetista e cantor) e ator, ele também experimenta as ondas do rádio.

Em 1942, casa-se com Lucille Wilson. Um ano depois, o casal compra a casa de Corona no bairro de classe média do Queens em Nova York. Louis Armstrong viveria por 28 anos no mesmo endereço. Aqui começa a viagem. O trem 7 me leva de Manhattan até a estação de Corona Park. A casa de tijolos vermelhos é grande por fora, mas os cômodos são pequenos. O astral é de uma viagem no tempo. Da porta para dentro, tudo cheira a Louis e Lucille Armstrong. O clima é moderno com fórmica, papéis de parede, carpete e muito espelho. Dona Lucille gostava de se ver.

A cozinha é genial, super anos 50. O fogão foi feito especialmente para o casal, tem uma plaquinha atestando o fato. A primeira lava-louças fabricada nos EUA está lá. Vários outros utensílios foram feitos especialmente para eles. A pequena cozinha é o que se costuma chamar de funcional, quando o mundo ainda nem sabia o significado da palavra.

O banheiro dos hóspedes é outra atração da casa, com direito a uma pequena banheira e metais banhados a ouro. As paredes e o teto são cobertos por espelhos importados da Itália. O mármore também veio da Itália. Se fosse feito hoje, o apertado banheiro custaria mais de US$ 60 mil. Para quem nasceu numa casa em que o banheiro era do lado de fora, poder oferecer aos amigos um banheiro luxuoso era uma questão de orgulho.

Armstrong poderia ter vivido onde e como quisesse. Dinheiro não lhe faltava. E dinheiro ele distribuiu, mais do que guardou para si. Ele foi acusado de não participar da luta dos direitos civis nos anos 50/60. Poucos sabiam na época que ele era um dos principais financiadores do reverendo Martin Luther King.

O músico foi patrocinado pelo Departamento de Estado do governo americano e declarado embaixador cultural dos EUA. Mas em 1957 se recusou a viajar em turnê internacional. O presidente Einsenhower nada fez contra a decisão do governador de Arkansas de chamar a Guarda Nacional para proibir estudantes negros de entrarem numa escola secundária de Little Rock. O embaixador da música mandou o governo para o inferno, literalmente. “The government can go to hell”, foi a frase de Armstrong em protesto ao tratamento dado aos negros pelo governo federal.

Louis Daniel Armstrong tinha uma boca grande, o que lhe rendeu o apelido “Satchelmouth”, “Satchmo” ou simplesmente “Satch”. Satchel é uma sacola escolar de antigamente, de um tempo em que os meninos nem sonhavam com as modernas mochilas.

Satchmo tinha apenas 1,67 m. Como pode ser se nas fotos parece um grandalhão de uns 2 metros de altura? O guia do museu vai contando as histórias. Mais do que um guia, é um expert em Louis Armstrong. O grand finale é quando chegamos ao escritório no segundo andar da casa. Ali estão os objetos pessoais do músico, algumas gravações, quadros, colagens, fotos, cadernos de anotações e diários, gravadores e tudo que existe num escritório particular. Como bônus, é possível ouvir algumas conversas de Armstrong.

As surpresas não param. Armstrong gostava de fumar maconha, era um usuário habitual. Ao contrário de outros músicos, não passou para drogas mais pesadas. Em 1928, ele gravou a música “Muggles”, uma gíria para maconha.


Foto: Reprodução
Desço a escada com uma certa nostalgia. Fico pensando como é bonito o respeito que os americanos têm pela cultura. A casa/museu é tão bem montada que só faltou encontrar com Armstrong e Lucille. A sensação é que dei azar, eles só não estavam em casa naquele momento. Admirado com a história de vida do músico que não só revolucionou o jazz, mas inventou uma maneira de cantar, fico pensando na beleza de um ser humano único, ou como diria o dono da sua voz: “What a wonderful world”.

 

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