Morte súbita ou lenta

Donizete Tokarski *

Se perguntarem a você qual tipo de morte gostaria, qual hipótese optaria?

Nós, cidadãos, costumamos não perceber com muita clareza quando a morte é lenta.

Cada um de nós, adultos, morremos um pouco a cada dia e podemos afirmar que existem milhões de pessoas que estão condenadas a morrer com uma velocidade maior que a média, como resultado de práticas incompetentes dos governos, e sucumbem por fome, guerras, doenças, falta d’água etc.

Mas o que nos importa, causando espanto e sensacionalismo, é a morte abrupta, acidental, por execução e por desastre. Assim, as milhares de mortes lentas, diárias, tornam-se quase que naturais ou corriqueiras para a humanidade, pois somos alheios, não nos comove, simplesmente ignoramos.

Vejamos o caso do Rio Doce, que na realidade já estava com sua sentença de morte decretada, sangrando, com suas águas poluídas, suas nascentes desaparecendo, milhares de hectares de sua extensa bacia degradados, o minério já contaminava e o doce estava mais que salgado.

Bastou a Vale (leia-se o Governo Federal) e a BHP Billiton, empresa australiana, sócias da Samarco executarem sumariamente este enfermo que a comoção nacional aflorou. O rio doente não tinha um tratamento digno, padecia sem cuidados, sem os olhares atentos dos responsáveis, já não jorrava suas águas até o oceano. Seu leito sucumbia pelo descaso. Seus recursos naturais, fauna e flora, já sofriam, e a população de ribeirinhos e outros que utilizavam suas águas, foram também responsáveis pela morte, pois não alardearam as “paradas cardíacas” que o manancial sinalizava.

Somos assim: só vale o impacto e ele aconteceu!

Pudemos visualizar na mídia esse desastre anunciado. Certamente não vimos toda a profundidade desse acontecimento, pois até artistas renomados tentaram minimizar o que jamais saberemos avaliar.

Esse grave exemplo de falta de aplicação das leis existentes não é único.

Como estão as dezenas de rios no país que morrem lentamente, a exemplo dos rios Tiete, Meia Ponte, Descoberto, das Velhas, Tocantins, São Francisco, Paraíba do Sul, Capibaribe, Cai, Gravataí, dos Sinos, Iguaçu, Ipojuca e tantos outros? Esses ainda não causam impacto? Como andam as ações emergenciais do governo? E a sociedade está indignada? Esses rios morrem pelo esgoto, pelo represamento, pelos agrotóxicos, pela degradação de suas nascentes e de toda a vegetação que os protegem, que estão sendo dizimadas lentamente, sendo desmatadas, brocadas e destruídas.

Junto dos rios some também nossa fauna condenada pelo novo Código Florestal que reduziu sua proteção. Parece que não temos leis, que não temos governantes, que não temos Ministério Público. As autoridades só aparecem quando chegam os holofotes. A sociedade omissa, acuada, com medo, não denuncia, permitindo que suas vozes sejam caladas pela imposição e inoperância do sistema.

Olhe para o rio mais próximo, para o rio que abastece sua cidade e dedique um tempo para ver como está a quantidade e a qualidade de sua água, seu manejo, a organização do Comitê de Bacia, se existe risco de contaminação. Certifique-se de que a qualidade da água que consome é inquestionável e seja um cidadão que cuida da nossa casa comum.

O peixe já não pode desafiar e sair contra as águas e ir para o Riacho do Navio, como diz a música. As piracemas estão desaparecendo. As barragens, a lama, os esgotos, a poluição em geral fazem os rios seguirem seus leitos, os leitos de morte!

* Engenheiro agrônomo e presidente do Conselho da Ecodata – Agência Brasileira de Meio Ambiente e Tecnologia da Informação.

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