Microcéfalos

Fernando Brito, em seu blog “Tijolaço”, escreveu no último dia 4 um artigo intitulado “Os microcéfalos”. Brito comenta rapidamente sobre a epidemia do vírus Zika , o pronunciamento da presidenta Dilma e o “panelaço” que ocorreu durante ele. Sobre o “panelaço”, afirma que “foi tão pequeno quanto a capacidade intelectual dos que o promoveram”.

No mesmo blog, houve vários comentários ao artigo, e um deles, de Mauricio Gomes, completando a constatação de Brito, diz que o “panelaço” é a “prova que a microcefalia já grassava por essas bandas antes do vírus Zika”.

O vírus Zika, transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, já atinge mais de 30 países, o que levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarar, na semana passada, o vírus uma emergência internacional em saúde pública.

A ONU também se manifestou sobre o tema expressando “sua total solidariedade à população e ao governo do Brasil, que estão enfrentando com energia a emergência de saúde pública provocada pela disseminação do vírus Zika e pelos casos de microcefalia”. Além da solidariedade, a ONU também elogiou o pronunciamento da presidenta Dilma Rousseff pelo “engajamento de todos os recursos” na luta contra o mosquito transmissor, além do Zika, da dengue e da chikungunya.

A superação desta epidemia depende dos governos (da União, dos estados e dos municípios), e, no caso do Brasil, da organização do Sistema Único de Saúde (SUS), a cargo principalmente dos municípios.

Depende também da capacidade de entendimento da população e de sua responsabilidade, pois muitos dos criadouros estão dentro das propriedades privadas, porém (desculpe o peso da palavra), os idiotas acham que bater panela resolve. Devem pensar que bater panela espanta o Aedes aegypti. São eles os microcéfalos.

Como toda a crise, e as epidemias não deixam de ser uma, aparece todo tipo de opinião, tanto para buscar culpados como para buscar a saída. No caso desta, epidemia não está sendo diferente: há caça aos “culpados”, disparatadas posições e declarações políticas e morais. Se o debate fosse dentro de todos os parâmetros civilizatórios, seria ótimo.

Por ser uma crise e um momento de tomada de posições, um dos temas que voltou ao debate é o do aborto. No caso do Brasil, este tema raramente foi tratado com a seriedade que merece. Sempre foi tratado com moralismo e hipocrisia. Mulheres de classe média e da burguesia, quando quiseram, sempre fizeram, e continuam fazendo aborto nas melhores clínicas.

As pobres continuam adoecendo e morrendo por abortos mal feitos. No caso presente do vírus Zika, esta hipocrisia é reforçada: as classes que sempre fizeram aborto continuarão fazendo e as pobres, não terão o parâmetro legal para fazerem, portanto, continuarão morrendo.

A cada crise, a cada epidemia, os aproveitadores usam a oportunidade para fazer suas manobras e pior, há sempre idiotas, ou “coxinhas” como são chamados, à disposição, para, por exemplo, bater panela contra a presidenta que vai à TV para tratar um tema de relevância mundial, como é o caso do vírus Zika.

O dicionário Houaiss define como microcéfalo e microcefalia: “pequenez anormal da cabeça, geralmente associada à deficiência mental”. Desconsidere aqui o deficiente mental aquela pessoa em que o diagnóstico médico foi feito. Aqui considero deficiente mental aquela pessoa que, mesmo tendo todas as condições de obter informações e faculdades consideradas normais, se submete à imbecilidade de se opor a um pronunciamento da relevância do último que Dilma fez.

Assim como comecei, termino com o “Tijolaço” do Fernando Brito: “Há, porém, outro tipo de microcéfalos, não no sentido da atrofia física da massa cinzenta, mas da amputação de capacidade de pensar o suficiente para deixar os ódios políticos fora das questões de saúde pública”.

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