Mexilhões Dourados

Alice Prati*

Prepare seu coração: a Copa do Mundo está chegando! Sabemos todos que, até chegar o momento de, sentados em nossa sala, torcermos pelo Brasil, haverá muito trabalho! Muitas obras pela cidade, cursos de inglês em massa para os brasileiros garçons, taxistas, atendentes dos mais variados estabelecimentos, camareiras, garis e todo mundo! Isso me faz lembrar uma música cantada pela cantora Marisa Monte, na qual ela diz: “Aqui nesta casa ninguém quer a sua orientação, nos dias que têm comida comemos comida com a mão. Aqui nesta casa ninguém quer a sua boa educação, falamos a sua língua, mas não entendemos seu sermão. Rimos alto, bebemos e falamos palavrão, mas não sorrimos à toa. Aqui nesta casa ninguém quer a sua orientação, não temos perspectiva, mas o vento nos dá a direção. Volte para o seu lar, volte para lá!”.

Não sou assim tão nacionalista. Devemos ser abertos ao mundo. Mas concordo com o significado da música em tempos de Copa do Mundo. Primeiro, porque as leis da Fifa não são as mesmas do Brasil e, para a realização dos jogos internacionais vai existir um governo paralelo ditando regras e mesclando culturas. Isso também me faz lembrar a infestação do mexilhão dourado.

Aqui, no Brasil, não existia esse ser aquático nefasto para a nossa fauna marinha. Chegou  nos navios que possuem um tanto de água para o equilíbrio em seus porões (água de lastro). Vinham do outro lado do mundo e, aqui, quando a água era trocada no cais do porto, a antiga era jogada no mar! Deu-se a infestação.

Gostaria de saber o seguinte: se ao mesclarmos nossa cultura por menos de um mês, mas de forma tão contundente, sairemos incólumes? O que trará a Copa do Mundo em termos de modificação cultural para os brasileiros? O que trará esse governo paralelo da Fifa em termos de consequências para a já tão desacreditada gestão pública brasileira? Juntando-se as duas influências, pergunto: seremos os mesmos? Sabemos que a memória imaterial de um povo vai desde sua língua que, para mim, é uma ferramenta de conservação e de disseminação de culturas, até a sua gastronomia. Será que teremos acarajé no pãozinho do Big Mac? Será que colocaremos molho golf no churrasco? E se isso não for temporário, como os jogos permaneceriam depois? E se as imposições da Fifa servirem para fortalecer o tanto que nós, brasileiros, já infringimos nossos códigos penal e moral? E se servir para construirmos grandes obras, como na África, onde, as que foram feitas para a Copa do Mundo viraram fantasmas de caríssima manutenção e pouco uso? Será que não estaremos nos aproximando perigosamente da crise financeira mundial?

Minha reflexão é sobre o tanto que vamos nos modificar negativamente com esse evento que se veste de progressivo, mas que é, em essência, classicamente capitalista e não muito útil em termos de evolução humana. Quantos ídolos sem cultura serão apresentados aos nossos jovens, além do grande número que já orbita o nosso Cruzeiro do Sul?

Como profissional da área de conservação das memórias materiais e imateriais históricas, sei que a globalização é a maior degradadora da cultura e da história de um povo. Sei, também que a nossa cultura é forte, mas não é bem definida em razão da falta de estudos e de pesquisas sobre a nossa multiplicidade étnica. O Brasil, por ser um país bebê de apenas 511 anos, ainda não sabe ao certo quem é. Não se descobriu totalmente, e as diferenças entre cada cultura que compõem nossos municípios, nossos estados e nosso país ainda não foram mapeadas e não são conhecidas de forma linear e clara. Não temos, ainda, nosso mapa. Como diz a música, “não temos perspectiva, mas o vento nos dá a direção”.

Tomara que o vento nos dê a direção por meio da mão forte de nossa presidente e que nosso país não perca a personalidade convivendo com tanta pujança, com tantas novas culturas, com tantas leis novas impostas por uma entidade que me faz muito lembrar a nuvem capitalista. Essa nuvem existiu e existe até hoje e a confirmação disso é a crise financeira mundial. Ela chega e paira acima dos países mais ricos. É composta de grandes e sanguinários investidores de todas as partes do mundo. Como em um cassino, eles investem em tudo o que pode gerar lucro naquele país sem considerarem nada, pois, para eles, nada é sagrado, a não ser o lucro. Depois que sugam a tudo e a todos, partem com sua nuvem saciada e gorda para outro local.

Oxalá os mexilhões dourados não invadam nossos oceanos, pois se precisarmos de um mapa para navegação, não teremos.

* Restauradora e autora do projeto e livro “SOS Monumento”. www.galeriadorestauro.com.br

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