Meu malvado favorito

André Rehbein Sathler e Malena Rehbein Sathler *

Visitantes do Castelo de Wartburg, na Alemanha, são convidados a conhecer a parede manchada da tinta que Lutero lançou sobre o demônio, quando esse apareceu diante dele. Quase lendária, a narrativa extrai legitimidade da notória obsessão luterana com o demônio. No plano religioso, aliás, a identificação clara de um inimigo, sendo o candidato mais natural o próprio Sete Peles, é grande impulsionador de fases de expansão acelerada da membresia. Haja vista o avanço neopentecostal dos últimos anos no Brasil, com igrejas prometendo, entre outras coisas, desencapetização a jato.

O apelo à batalha contra um inimigo comum mexe com aspectos instintivos da espécie humana, mobiliza suas emoções mais viscerais, ligados ao maior motor de ações humanas: o extinto de sobrevivência A malta de caça, como bem estudado por Elias Canetti, tem suas origens nos bandos de caçadores da pré-história. À caça avança-se em bando, na esperança do alimento; do predador também se foge em bando, com medo de se virar alimento. Na política, líderes habilidosos que sabem explorar com maestria as esperanças e os medos da população, com o intuito de tanger os movimentos em massa – acabam caindo nas graças da massa – são os populistas.

O caminho usual do populista é se colocar contra o status quo e fazer uso abusivo da retórica, inclusive com promessas irrealistas, para aumentar seu apelo, mas com garantia de derrubar o inimigo. O status quo pressupõe determinado grupo no comando, que se torna, imediatamente, no malvado preferido do populista – são as elites, os “outros”, “eles” que se uniram para usurpar a soberania popular e privar as massas de seus direitos, valores, identidade e voz. Combina, dessa forma, o chamado à esperança – o mundo melhor que surgirá quando o inimigo for derrotado, não importa detalhes da batalha – com a tática de impor medo – do inimigo que veio para matar, roubar e destruir.

Seguindo esse caminho, o populista mexe com instintos primordiais de sobrevivência da espécie. Diante do predador é matar ou morrer todo dia. Não é por coincidência que momentos de exacerbação do populismo sejam sempre momentos de conflagração e conflito. É matar ou morrer e aqui reside um grande risco do populismo – como na guerra, ele deixa em aberto a possibilidade da continuação da política por outros meios. Pois na essência da política está a resolução pacífica de conflitos. No populismo, o conflito pode ser legitimamente resolvido pela eliminação do adversário.

Quando vence uma guerra e usufrui de seu período de legitimação pela destruição do inimigo, conhece-se a versão pacífica e agregadora do populista. Passado um tempo, obviamente, problemas surgem e ele tentará resolvê-lo estrategicamente, com o capital político de apoio até então. Mas quando os problemas tomam proporções inimagináveis e dissolvem parte do suporte perene até então, com risco real de perda de poder, ele volta ao estágio anterior, bélico. É preciso determinar objetivamente o inimigo e vilanizá-lo ao máximo, para despertar nas pessoas a preservação do instinto de sobrevivência de outrora. Ou seja, o populismo precisa, e muito, de um belo inimigo. Só assim é capaz de despertar as paixões necessárias para garantir a manutenção do poder. A embriaguez da paixão é o combustível da conquista, também na política. Há quem diga mesmo que não se faz política sem paixões.

Mas a paixão passa. O teatro naturalmente criado pela vivência (sincera mesmo) das emoções passa. As verdades ditas ao calor da emoção, ao pé do ouvido, revelam suas duras facetas. E as inverdades vendidas na paixão deterioram-se no ar. Nestes casos, a vida sempre nos mostra que o final é a separação. Às vezes dura. Às vezes com doses de indecisão. Com a frustração de um projeto falido. Adultos que já passaram por situações assim sabem que o tempo ameniza as emoções desilusórias e, recolhidos os cacos ou esperanças perdidos no caminho, pode-se seguir adiante. Sem ilusões. Obviamente que este processo não precisa necessariamente ocorrer desta forma. Se tirarmos o inimigo ilusório, o malvado favorito da política, as ilusões também se vão, junto com as labaredas das paixões. E é melhor que se deixem ir. Do contrário deixam apenas o legado amargo e não menos que o ódio.

* André Rehbein Sathler é doutor em Filosofia e Malena Rehbein Sathler é doutora em Ciência Política. Ambos são docentes do Mestrado Profissional em Poder Legislativo da Câmara dos Deputados.

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