Mercadante não conseguiu afundar Lula. Conseguirá afundar Dilma?

Tenho lido textos muito interessantes, que ajudam a compreender o que levou o Brasil às ruas nas últimas semanas e como essa onda de protestos bagunçou o coreto dos governantes, nos planos municipal, estadual e federal. Cientistas políticos, consultores, economistas, gestores, parlamentares têm arrancado do computador bytes super instigantes, com teses sedutoras sobre as raízes da presente crise. Duas delas aqui mesmo, no Congresso em Foco: esta e essa outra aqui.

Por mais consistentes que essas análises sejam, elas costumam ignorar a dimensão mais humana da encrenca. Boas teorias, sobretudo quando apresentadas numa bonita moldura, com frequência empurram ladeira abaixo um fato indesmentível, e até óbvio: a história é feita por seres humanos. Sem entendê-los, inclusive nas suas peculiaridades mais banais, é impossível compreender a marcha dos acontecimentos.

E neste momento há um personagem fundamental sobre o qual é preciso lançar luz, e é este o sentido deste modesto artigo. O nome do personagem é Aloizio Mecadante, o ex-deputado federal, ex-senador, ex-ministro da Ciência e Tecnologia e atual “primeiro-ministro” da Dilma.

A sucessão de trapalhadas cometidas recentemente pela nossa mandatária-mor coincide com a ascensão dele no governo. Oficialmente, ele é ministro da Educação. Na prática, questões ligadas ao ensino são as que menos ocupam o seu tempo. Em compensação, exerce influência sobre a indicação de ministros (como César Borges, dos Transportes), cuida da estratégia política palaciana, acompanha Dilma em viagens internacionais, dá entrevista sobre economia... Enfim, o homem tá com tudo, e isso quer dizer muita coisa.

Mercadante, deve-se esclarecer, goza de reputação de padrão escandinavo para esta  república mais chegada a Natan Donadon que a Madre Teresa de Calcutá. Tem, porém, aqueles dois cacoetes comuns a muitos políticos paulistas. O nariz empinado de quem imagina manter um pacto secreto com a “Verdade” – assim mesmo, com V maiúsculo – e o mau hábito de fazer política com o fígado. A tradição é vasta. Serra, Alckmin, Jânio Quadros, Haddad... faltam-lhes ou faltaram-lhes várias vezes jogo de cintura e aquele mínimo recomendável de humildade que caracterizam os grandes craques da política.

Em Mercadante esses defeitos vieram amplificados de fábrica. Ok, essa é uma avaliação subjetiva. Mas uma avaliação compartilhada por nove entre dez políticos (incluindo petistas) e por 15 entre dez jornalistas (incluindo petistas). Se a conta não bateu, perdão, nunca fui mesmo bom em matemática.

Justiça seja feita, o “primeiro-ministro” possui considerável capacidade para convencer os incautos de que a Verdade mora ali, no bolso de seus bem cortados paletós.

Lula foi vítima disso nas eleições presidenciais de 1994. Um ano antes, convocado a contragosto pelo então presidente Itamar Franco para assumir o Ministério da Fazenda, Fernando Henrique fez o grande gol da sua vida. Jogou seu charme uspiano para arregimentar alguns dos melhores economistas da praça e botou na rua, meses depois, o Plano Real. Sem sustos, sem pacotes, sem corrida aos supermercados, rompia-se a lógica da indexação automática de preços e contratos. Finalmente, logo perceberam os mais argutos observadores da economia e da cena nacional, estávamos acertando o passo para derrotar uma inflação que havia chegado a ultrapassar 80% ao mês!

O problema é que Mercadante, que para todos efeitos é economista, não percebeu a mudança em curso. Pra piorar, encontrou uma acadêmica respeitável – Maria da Conceição Tavares, grande intelectual, mas com o costume de banhar desmedidamente suas reflexões econômicas nas temerárias bacias da paixão e da ideologia – para corroborar a suspeita de que o Plano Real era pura enganação. Lula e o PT embarcaram nessa canoa furada, e foi assim que o líder metalúrgico, outrora o favorito na disputa presidencial, terminou fragorosamente derrotado por FHC no primeiro turno. O desfecho do episódio tem uma nota final cômica. Consumada a derrota, Mercadante cobrou Lula com aspereza sobre seu futuro político, já que havia sido candidato a vice-presidente na chapa petista, abrindo mão de uma reeleição segura para a Câmara dos Deputados.

Garoto espero, Lula percebeu aí que não dava para confiar muito no seu (até então) economista preferido. Assim, durante seus oito anos no Palácio do Planalto, jamais permitiu que Mercadante tivesse protagonismo na formulação econômica ou na articulação política. E rolou a famosa enquadrada pública que o então senador recebeu em 2009, depois de anunciar pelo Twitter que iria renunciar à liderança do PT no Senado por discordar da operação montada por Lula para proteger José Sarney, à época às voltas com graves denúncias. Escreveu que estava deixando a função “em caráter irrevogável”. Instado por Lula a recuar, revogou o “irrevogável”.

Diferente tem sido o comportamento de Dilma, que fez de Mercadante seu principal conselheiro. E aí, mermão, o samba do crioulo doido passou a ser a trilha sonora dos movimentos presidenciais. A cena mais patética protagonizada  pela dupla foi o anúncio da Constituinte exclusiva para a reforma política na fatídica segunda-feira de 24 de junho.

Como todos sabem aqui em Brasília, Mercadante teve forte influência na decisão de Dilma de anunciá-la. Dilma que, horas depois, “desanunciou” o anunciado, mas de modo confuso, trôpego, sob o tiroteio de juristas que questionavam a constitucionalidade da medida. A ideia da Constituinte partia da constatação, bastante razoável,  que não será o Congresso quem mudará um sistema político do qual ele é beneficiário. O que é impressionante é alguém imaginar ser possível dar esse passo sem negociação prévia. Sem consultar as forças políticas organizadas, a sociedade e, por favor, os juristas. Esse erro grosseiro expôs Dilma à desmoralização, sepultou uma ideia que talvez tivesse virtudes, e produziu uma descortesia monstruosa.

Descortesia com os governadores e prefeitos de capitais, que vieram a Brasília para participar de uma reunião onde se discutiria um possível “pacto” para fazer frente aos pedidos de mudança ouvidos pelo país afora, e terminaram fazendo o papel de figurantes no malsucedido anúncio da Constituinte que não virá.

Se depender da Câmara, também não virá o plebiscito. Se plebiscito houver, não será para as eleições de 2014, como Dilma – sempre aconselhada pelo “primeiro-ministro” – chegou a prenunciar. A economia com vários indicadores péssimos, o governo emperrado por mil problemas de gestão, bolsa de valores despencando, e toda aquela onda em torno de um plebiscito que só o Congresso pode dizer se ocorrerá ou não? Que isso, Mercadante! Que isso, Dilma!

Uma boa maneira de começar a recuperar o tempo perdido seria Mercadante passar a se dedicar à área de educação, apontada hoje pela população como o segundo grande problema nacional (atrás apenas da saúde). Aí Dilma talvez se  concentrasse no fundamental: abertura de diálogo de verdade com as lideranças do Congresso e da sociedade (com menos cenografia e menos marketing e mais consistência estratégica) e uma profunda revisão dos atuais rumos da gestão econômica e administrativa do país.

 

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