Memorial a contragosto

Talvez esta coluna fique um pouco amarga, não que haja tanto a lamentar, mas afinal, entre o fim de junho e início de julho, tivemos um triunvirato de mortos: ex-presidente Itamar Franco, ex-ministro Paulo Renato e ex-secretário da cultura de São Paulo e poeta, Mário Chamie. Todos à direita da política e da cultura. Falando francamente, não dá tesão escrever sobre nenhum deles.

Itamar, este, inusitadamente louvado/exumado pelos coleguinhas veteranos do jornalismo político – o incansável Nassif dedicou-lhe nada menos que nove postagens em seu site, sem contar nosso honesto editor executivo, verdadeiro gentleman,  Rudolfo Lago, que sapecou um “topete que vai fazer falta” –  realmente não vou refutá-los, apenas acrescentar algumas observações impressionistas. Quanto à inesquecibilidade, o único que continua mesmo fazendo falta é precisamente um de nós, velhos escribas: Paulo Francis.

De impagável mesmo, a foto do velório oficial em torno do caixão, a começar da presidente Dilma, rigidamente constrangida em primeiro plano, ao lado dum octogenário FHC meio fora de foco, afivelando um ar de circunstância,  mas internamente eu posso apostar que felicíssimo, recém-reabilitado pela senhora ao lado (malgrado o engessamento que a amável reabilitação implique para o PSDB, porque o que ele quer é rosetar e continuar nas manchetes); adiante Aécio, olhos baixos,contrafeito, sem saber onde botar as mãos (então botá-las dentro do caixão), and last but no least, desnudando-se frontalmente, o  gélido olhar de Serra fixando o Nada Inexorável, à imagem e semelhança do deus Ressentimento.

De Itamar sempre me ficou a lembrança duns óculos, um topete...e o resto confuso. Um presidente por acaso e sem querer, de corte e compadrio. Simplório, prosaico, sujeito para o qual faltavam articulações mas sobravam emoções, do que o episódio Lilliam Ramos nos dá um excelente exemplo. Mas eu vou no popular: gabirú (gíria do tempo dele) e mineiro. Avesso ao aparato e às tentações do poder? Poder ser, mas não ao conchavo. Afinal, o que ele esteve fazendo como vice de Collor e da República das Alagoas? E ultimamente, o que andava fazendo como senador? São perguntas que não querem calar.

De todos eles, conheci muito bem Mário Chamie, amigo remoto de trinta anos atrás. Na década de 80, me deu seu livro Lavra,lavra – um tijolaço dumas 500 páginas com poemas tão perfeitos, tão simétricos que pareciam equações algébricas. Na época, ele fundara o movimento “Poesia Práxis”: faz sentido.  De ultra-esquerda passou à ultra-direita, o que é perfeitamente normal, se o poder é o pretexto. Um sujeito difícil, o Chamie, vaidoso, polêmico. Aliás, ele adorava uma boa briga: sua famosa polêmica com Marilena Chauí nas páginas da revista Escrita é algo que ficará para os anais literários dos anos 70. Há dois anos, lembro dum último jantar com ele e mais um grupo de amigos, saindo duma bienal de livros em São Paulo.  Jantar que prefiro esquecer: os anos o tornaram amargo, ressentido. Do Chamie espirituoso, irônico, mordaz, nada mais restava.

Lembro dum personagem de Oliver Stone em O Informante, um famoso e já velho produtor de tevê que diz: “Não serei lembrado pelas centenas de entrevistas importantes que fiz durante toda a vida, mas pelo que fiz por último”.  Será?

E por derradeiro, a morte de Paulo Renato, cuja devastadora atuação no Ministério da Educação deixa cicatrizes indeléveis para o ensino do país, me faz recordar uma frase recorrente do Millôr Fernandes nos anos 70, que aconselhava iniciar a leitura dos jornais pelos anúncios fúnebres porque, de repente, poderíamos ser agradavelmente surpreendidos...

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