Meditações fragmentárias de uma crise

Emanuel Medeiros Vieira *

Quase 30 dias na Europa, rodando milhares de quilômetros, uma temporada de quase 15 dias por Portugal: o que dizer?

Não, não é um relato poético sobre uma bela viagem.

É a constatação in loco de uma crise profunda.

(Lembro que me avisaram nos idos de 1975, que a ditadura – Sylvio Frota querendo dar um golpe dentro do golpe contra o governo Geisel – pretendia me prender de novo, e precisei sair do país. Não conseguia passaporte. Registrava antecedentes. A nova geração não deve saber: na época, para obter passaporte exigia-se atestado de bons antecedentes políticos, obtido no Dops. Eu não conseguia: registrava antecedente.)

Obtive um específico com “registro de antecedentes”. Viajei. Passou. Passou? (Escuto Lupícinio Rodrigues e Elis Regina.)

Uma crise profunda abate a Europa. Eu sei: nada disse de novo. Uma iluminada amiga no Porto, em Portugal, crê que a Terceira Guerra já começou. Não com baionetas, tiros: com tecladas eletrônicas – o financismo. O reino da banca. Há uma nova ocupação alemã na Acrópole?

Em Portugal, em crise brava, ouvi relatos sobre suicídios, pavores, desesperos, aumento do uso de remédios controlados. Também escutei sobre isso na Espanha.

Alguém escreveu no El País que, se Montesquieu escrevesse sobre mundo moderno, diria que aos três poderes da teoria clássica haveria que acrescentar um quarto: “o poder especulativo”, o das finanças.

É o estrangulamento total. A obra-prima do Estado é a felicidade, o indivíduo.O poder dos bancos não quer saber disso.

Como observou Clovis Rossi, há um grito forte de “privatiza, privatiza” sempre que se fala de ativos públicos mal administrados. Mas ninguém fala para dizer “estatiza, estatiza” quando um banco fracassa. O Estado socializou o prejuízo, mas manteve o lucro nas mãos privadas.

A banca é o centro do universo. Pessoas? Que se danem! Há uma crise do capitalismo desregulado que pode ser suicida para a nossa civilização. São economistas que dizem.

Lembro que na primeira visita a Londres, visitei o tumulo de Marx. Agora, não. Mas sinto que ele manda lembranças.

Sem buscar acumular dignidade humana, como queria Hannah Arendt, estaremos parindo zumbis e sofredores. Até quando? Estão mercantilizando penetra até nos corações. Como viver sem a dimensão do sonho?

Começou a Terceira Guerra?


* Professor, jornalista e escritor, também já atuou como crítico de cinema e editor. Autor de 17 livros publicados, é detentor de vários prêmios literários nacionais.

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