Maternidade, ato de coragem

Devem ser os hormônios em estado de ebulição. Mas preciso admitir, ainda que envergonhada, que tenho sentido impulsos selvagens toda vez que uma pessoa faz o comentário “Nossa, que coragem!” em resposta à notícia – cada vez mais aparente - de que estou grávida.


Sim, eu sei que não é por mal. A criatura diz isso porque sabe que já tenho um menino de 10, que está na cara (literalmente) que eu já passei dos 40, que não vou ter direito à licença maternidade sendo dona da minha própria empresa e que... ora bolas, terei – digo, teremos, eu e marido – que começar tuuuudo de novo.


Traduzindo: virar uma mamadeira ambulante e cheirar a leite por um tempão, passar muitas noites mal dormidas, fazer um esforço (agora redobrado) para recuperar a forma física; frequentar aquelas indefectíveis festas infantis com mães que se preocupam com o vestibular dos filhos antes mesmos dos pequenos se alfabetizarem; viajar com uma tralha que inclui carrinho, nebulizador, fraldas, muitas fraldas, lenços umedecidos, potinhos de comidinha pronta; ouvir sua mãe dizer que lenços umedecidos e potinhos de comidinha pronta não são legais para o bebê; educar, vestir, gastar uma grana preta, arrumar tempo pra brincar, pra estudar, contratar babá, demitir babá... Sim, eles têm razão. É preciso coragem.

E durante a gestação? Responder um milhão de vezes à mesma pergunta, se é menino ou menina. Fugir de estranhos que, mesmo sem lhe conhecerem, cismam em colocar a mão na sua barriga – tenho medo dessa gente! Na minha primeira gravidez, não queria saber o sexo do bebê. Todos pareciam mais curiosos que eu – até os strangers na fila do cinema. Cedi à pressão. Aos sete meses, a barriga já encostando no volante do carro, enfim soubemos todos: era menino. Eu, por mim, desta vez seria surpresa. O que importa se o quarto é rosa ou azul? Faz verde, branco... tô fora dessa mania de convenção.
 
Oh, ok, tem um quê de mau humor nesse meu comportamento. Devem ser os hormônios. Esse enjôo também não ajuda. Para piorar, minha milagrosa amiga endorfina está de férias até que a médica me libere para voltar aos exercícios físicos. Não me resta outra saída senão a leitura. Nos jornais, pra variar, só notícia boa.


No Valor, artigo da xará Chiaretti fala do alerta feito por cientistas sobre o alto risco de os oceanos entrarem numa fase de extinção de espécies sem precedentes na história da humanidade. As perspectivas sobre os resultados da Rio+20 e da votação do Código Florestal brasileiro são terríveis. O planeta por um fio e eu botando mais um ser no mundo. Na Folha, especialista escreve que, por mais esforços que se faça em busca de energias alternativas, a dependência do petróleo continuará por mais pelo menos 40 anos. Já começo até a achar ruim a descoberta do pré-sal por causa do aquecimento global. Aliás, tudo indica que o Rio vai tomar uma tunga na divisão dos royalties e não vejo mobilização no sentido de negociar um acordo com os outros estados. O veto vai cair. E vai restar ao Rio a salvação do Supremo.

Até lá, o governador Cabral ainda vai ser muito pressionado para explicar sua intimidade com empresários. Por uma tsunami dessas, nem a oposição esperava. Haja UPP para compensar.

Em meio a tanta ranzinzice, sentada no sofá da sala com uma pilha de jornais e clippings acumulados, a TV ligada no noticiário e já distribuindo torpedos com as tarefas do dia, eis que surge meu filho Pedro. Ele vem correndo desengonçado com as pernas compridas de 10 anos, me dá bom dia, abraços, me enche de beijos, diz que adorou o feriado no sítio, que me ama “muito, muito, muito” e que eu sou a melhor mãe do mundo. Passa a mão na minha barriga e comete o pecado capital de dizer que eu estou ficando gorda - e eu nem ligo. E que não vê a hora de o irmãozinho ou da irmãzinha chegar.

É o que basta para estabilizar os hormônios e fazer com que o mundo de uma hora para outra fique novamente cor de rosa – ou azul, por que não? Qual a problema das convenções?! Sim, é preciso ter coragem pra recomeçar. Mas a recompensa vale: vem na forma desse amor verdadeiro, incondicional, sem tamanho, impossível de descrever. Um amor que só pai e mãe são capazes de sentir.

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