Mais saúde para os brasileiros

Roberto Lotfi*

Todos os dias o caos da saúde vira manchete em jornais, rádios, emissoras de TV e na internet. Uma das más notícias recentes dá conta de que dois em cada três hospitais universitários têm problemas graves assumidos por suas próprias direções. Em alguns faltam funcionários por falta de realização de concursos, equipamentos são subaproveitados, enquanto pacientes são atendidos em esteiras no chão de corredores. Em outros, a tragédia é tão grande quanto: as estruturas estão sucateadas, há carência de investimentos, de estrutura básica, mas as filas são gigantescas e não é incomum ocorrerem mortes evitáveis.

Fato é que a saúde do Brasil padece de alguns males crônicos. A completa ausência de compromisso social de certas autoridades, o subfinanciamento e a incompetência na gestão. O único remédio para tais males é vontade política e atitudes de estadista.  Entretanto, não é bem isso que vemos, em particular, quando falamos do governo federal.

Vejam, por exemplo, o programa Mais Médicos. Colocado em prática às pressas para calar as manifestações de junho de 2013, trouxe ao país milhares de médicos formados no exterior, a maioria cubanos, para tentar esconder a incipiência das políticas para o setor. O resultado prático é somente um show de marketing. Todos os dias são gastos milhões em propaganda para vender à população a falsa versão de que a saúde agora vai.

Puro engodo. As pesquisas mais atuais sobre a insatisfação dos brasileiros continuam registrando que a pior área da administração Dilma Rousseff é a saúde.

Todos os profissionais de medicina do Brasil querem mais médicos, mais enfermeiros, mais nutricionistas, mais dentistas, mais financiamento e gestão adequada para atender à comunidade. Isso é unanimidade. Só não concordamos com que usem jogadas de mídia e cortinas de fumaça para ludibriar os cidadãos e deixar tudo como está.

Os médicos formados fora do país, em especial os cubanos, aqui entraram sem comprovar que estão capacitados para a assistência. É óbvio que representam risco à saúde. Um só que não tenha formação sólida pode deixar um lastro de tragédia: com sequelas em pacientes e mortes.

O Programa Mais Médicos também é condenável em muitos outros aspectos. Mandará em três anos R$ 5 bilhões a Cuba, dinheiro que seria muito bem-vindo para combater a miséria no Brasil: vale lembrar que temos 60 milhões de analfabetos e 6,5 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da miséria.

Aliás, nos últimos cinco anos, nosso Ministério da Saúde só jogou contra o povo. Promoveu o fechamento de 286 hospitais ligados ao SUS e deixou de utilizar, apenas em 2012, R$ 17 bilhões destinados ao setor. Daria para construir e equipar cerca de 20 mil unidades básicas de saúde, conforme denunciado dias atrás pelo ilustre professor Miguel Srougi.

Quanto aos cubanos, privados de sua liberdade de ir e vir em um Brasil que se diz democrático e ganhando 10% do que o anunciado, ou seja, em regime escravo, cresce a insatisfação com as mazelas de nossa saúde e muitos já querem partir. Uns para os Estados Unidos, onde, dizem, terão enfim liberdade. Outros para Cuba, por saudade de esposa, filhos e familiares.

Para os cidadãos, como se vê, nada mudou e nada de concreto restará. Passadas as eleições, podem apostar, nem o Mais Médicos perdurará.

Não é isso que queremos para o Brasil. Queremos uma carreira médica digna, financiamento adequado, gestão eficaz, e respeito. Queremos e exigimos mais saúde.

*Roberto Lotfi é conselheiro do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp)

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