Lulistas e bolsonaristas rumo à Terra Prometida

"Lula e Bolsonaro, na visão de seus discípulos, não estão no plano dos mortais comuns. Mesmo quando apanhados nas garras da justiça, seus líderes são heróis, semi-deuses"

Responda depressa, sem piscar: o que diferencia a militância lulista da militância bolsonarista? Uma simples troca de sinais, um virado pra esquerda e o outro pra direita? Bem sabemos que a resposta não é simplista assim. Agora, se a pergunta for: o que une lulistas e bolsonaristas? E a resposta, surpreendentemente, é que há mais pontos de convergência entre as práticas, os comportamentos e as atitudes das duas militâncias, do que suas diferenças políticas, partidárias e ideológicas.

O primeiro ponto de comportamento comum entre lulistas e bolsonaristas é o messianismo com que tratam seus líderes. Para as duas “facções”, Lula e Bolsonaro são seres de uma estirpe superior, salvadores que redimirão o Brasil, punirão os ímpios e conduzirão seu povo à Terra Prometida. Lula e Bolsonaro, na visão de seus discípulos, não estão no plano dos mortais comuns. Mesmo quando apanhados nas garras da justiça, seus líderes são heróis, semi-deuses. Como todos os heróis, são inocentes e probos, anulando-se qualquer prova em contrário. Tudo o que se move contra eles não passa da mais infame perseguição.

A justiça é apenas um entrave criado pelos adversários

Do ponto de vista de seus seguidores, Lula e Bolsonaro estão acima da justiça. Tanto que um purga “prisão política” em Curitiba por crimes que jura não ter cometido, embora condenado em duas instâncias. E sua condenação teria o único objetivo de impedir que dispute e vença a eleição de outubro.

Não adianta arguir que Lula caiu na Lei da Ficha Suja (que ele mesmo sancionou), e que sob tal condição não dispõe de credenciais para registrar sua candidatura. Não adianta apelar para a razão e fazer seus seguidores acreditarem que seu líder prevaricou embora, por justiça, se deva reconhecer que promoveu, sim, em seus dois governos, avanços dignos de registro na redução da miséria. Mas que só isso não o redime de crimes eventualmente cometidos.

Não adianta argumentar que é impossível, até para um Júlio Verne ressuscitado, imaginar a existência de um mega-complô que teria conseguido unir contra Lula a CIA, o Pentágono e todos os países de governos conservadores e mais a Polícia Federal, o juiz Sérgio Moro, os juízes do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, a mídia “golpista” (Rede Globo à frente), tudo com apoio do alto empresariado tupiniquim, que “não suporta ver os pobres ascendendo socialmente”.

Para os lulistas, “detalhes” como justiça precisam ser deixados de lado a fim de se permitir que o ex-metalúrgico que lidera as pesquisas seja liberado para disputar a eleição, independente dos crimes pelos quais está pagando.

Contra convicções ideológicas, a verdade que se dane

Da mesma forma, do ponto de vista de seus seguidores, Bolsonaro é o cavaleiro andante que irá punir os infiéis, restaurar a moral e os bons costumes, enfrentar a murro e bala os facínoras que atemorizam e flagelam a população indefesa, que agora terá poder e força porque todo cidadão disporá de pelo menos uma arma de fogo para defender a si e à sua família.

Para os bolsonaristas, de pouco adianta acusar seu líder de misógino, homofóbico ou racista. As declarações que o capitão-deputado tem dado neste sentido apenas expressariam sentimentos que fazem parte do senso comum, e, portanto, não poderiam ser acusadas de preconceituosas e, portanto, de criminosas. Para os seguidores do ex-militar, o Brasil está precisando de alguém como ele que, acima da justiça e de suas amarras, recoloque o país nos trilhos e reponha a vergonha na cara desses cretinos que precisam ser tratados na chibata, como bem merecem.

Para uns e outros, de nada adiantam argumentos ou apelos à razão. Seus líderes são figuras impolutas, sobre as quais jamais poderá recair qualquer acusação, até porque as palavras deles são definitivas e incontrastáveis. Para lulistas, se Lula disse, é verdade. Para bolsonaristas, se Bolsonaro disse, é verdade. E tudo o que se levantar contra um é artimanha falaciosa do outro. E ponto final.

Razão? Que razão que nada!

Quando o sectarismo atinge tal estágio, já não funcionam quaisquer recursos à razão. É como se ela tivesse sido desligada. A emoção cega que une e conduz a boiada não recua nem mesmo diante da prova mais cabal, ou do argumento mais bem construído.

Tente alguém discutir com um bolsonarista ou com um lulista em bases racionais. Perderá seu tempo. A “verdade” subjetiva já está tão entranhada e estabelecida de forma tão concreta que não será uma evidência ou a exibição de uma prova, por mais convincente que seja, que irá mudar a forma de pensar. O único Deus é Alah, e Maomé é o seu profeta. E tamos conversados.

Por isso, até o dia da eleição, o cenário mais provável é que teremos alguns lulistas que não seguirão Haddad/Manoela, desidratando um pouco os 30% de apoio mínimo que o PT sempre registrou em todas as eleições. Fosse o nome sagrado de Lula na chapa, e a história seria outra.

Já o capitão tende a falar para dentro de sua caserna de seguidores, reduzindo assim sua capacidade de atração de novos adeptos. Agora, falará ainda mais para seu séquito, graças ao reforço do vice Mourão (que não se perca pelo sobrenome). A tendência é a estagnação, se Alah for mesmo grande. Se ficar emperrado nos 17 por cento que vem exibindo, já terá sido uma grande vitória das forças progressistas e consequentes.

E pode ser que esse percentual fique mesmo por aí pois, como diversos analistas avaliam, com apenas 9 segundos na propaganda eleitoral diária e apenas uma inserção de 30 segundos a cada três dias, o capitão não terá poder para atrair muita gente. A menos que essa desvantagem seja compensada pelo turbinamento provocado pelas redes sociais. É bom lembrar que o grande risco desse pleito é a proliferação das fake news, que podem fazer o eleitor abalançar-se para cá ou para lá a partir da mentira mais convincente. Mas, como as fake news devem vir de todos os lados, a expectativa é que tenham o poder de se autoneutralizar. Alah é grande e poderoso, como se sabe.

Pelas estalagens, tabernas, estrebarias e alcovas desta Corte já se fala num eventual segundo turno entre Alckmin e Bolsonaro, levando em conta a previsível debandada dos lulistas sem a presença de seu líder na disputa, somada à pulverização de candidaturas como as de Álvaro Dias, Meirelles, Ciro Gomes, Marina et caterva.

Aí a situação, em vez de ficar mais fácil, fica mais complicada porque, como se sabe, no segundo turno zera-se o taxímetro. Os dois finalistas terão o mesmo tempo de rádio e TV. Serão os dois em condições de absoluta igualdade de acesso ao horário eleitoral gratuito. Aí a gente vai saber quem tem mesmo garrafa pra vender. Neste cenário, se a mídia tradicional – rádio e TV - ainda for decisiva no resultado de uma eleição no Brasil, só Jesus, Alah ou Oxalá na causa. Ou nem Eles.

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