Lições de Carville

“É a economia, estúpido”, ensinou o estrategista James Carville na campanha presidencial que levou um governador sulista, Bill Clinton, a vencer o então popular Presidente durante a Guerra da Golfo, George Bush. Era o retorno dos democratas ao poder desde o desastroso governo de Jimmy Carter, que perdeu a Casa Branca pelo mesmo motivo. A economia direciona o voto.

Esta é uma realidade que se impõe atualmente no Brasil. Bolsonaro precisa entregar resultados tangíveis para o bolso dos brasileiros sob pena de ver sua esperança de reeleição se dissolver pelo caminho. Entretanto, mesmo que o governo tivesse uma vasta e coesa base no parlamento, liderança política robusta e apoio irrestrito dos presidentes de ambas as casas, ainda precisaria contar com bons ventos na economia mundial para fazer a máquina engrenar. A equação, entretanto, encontra dificuldades de ser fechada.

 O surgimento do coronavírus é um daqueles elementos imponderáveis que podem acabar aparecendo pelo caminho. Ao longo do tempo, a China se tornou o principal mercado comprador das commodities brasileiras e o impacto negativo desta dependência pode estar surgindo no horizonte com a queda dos preços da commodities. Os preços da soja em grão, petróleo e minério de ferro, que totalizaram US$ 177,3 bilhões em vendas 2019 e representam nada menos que 78% das exportações brasileiras, já acumulam quedas superiores a 15% em 2020. Um fator que pode causar imenso impacto na balança comercial de nosso país.

Durante minha gestão como Diretor da Agência Brasileira de Promoção de Exportações (Apex-Brasil), sempre me preocupei com a dependência de nossas exportações para certos mercados. Por isso, deixamos alinhadas as bases de um plano audacioso para ampliar a presença da agência no exterior (hoje presente apenas em sete países), para alcançar 120 em apenas dois anos, sem aumento de custos e utilizando a estrutura de pessoal atual.

Esta preocupação se torna uma realidade quando percebemos que a China consome 65% do petróleo e 64% de todo o minério de ferro produzidos pelo Brasil. A diversificação de mercados faria com que nossa balança comercial deixasse seu atual viés sinodependente. Se o Brasil não diversificar a produção e ajudar os exportadores brasileiros a chegar em novos mercados, nunca deixaremos esta incômoda posição. Para os grandes exportadores nada precisa mudar, mas para o Brasil crescer de forma sustentável é preciso ir além, aposentando o comodismo e conformismo.

Nosso país precisa encontrar caminhos inteligentes, ampliar sua presença internacional e assim impulsionar o comércio exterior, que passa especialmente por nossos pequenos e médios exportadores, fundamentais no processo de diversificação. Além disso, precisamos fechar mais acordos de livre comércio, ajustar nossa economia e passar um leque de reformas que dependem do esforço do governo em formar maioria no parlamento. O caminho oposto leva a servidão diante de grandes mercados e impactos políticos que podem minar inclusive os planos de reeleição. Bolsonaro deveria lembrar os sábios conselhos de Carville, afinal, a economia sempre orienta o voto.

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