Líbia: capital, caos, barbárie

“Balanço vitorioso desses sete meses de ação: 50 mil vítimas diretas, sendo 30 mil mortos e 20 mil feridos. Entre as vítimas, muitas mulheres e crianças e, como não podia deixar de ser, muitos inocentes. Migração forçada, estupros, dor, sofrimento e doenças. Indiretamente, ainda não medimos o que conquistamos nesta vitoriosa invasão. Também não dimensionamos o quanto ajudamos na superação da crise na economia mundial. Estamos felizes porque conseguimos o nosso objetivo final: pegar o homem. Houve um pequeno contratempo, o pegamos com vida, quando o ideal seria matá-lo no bombardeio, portanto fomos forçados a executá-lo.”

Jamais fará parte, mas, ironicamente, o texto acima poderia constar de um relatório do Conselho Nacional de Transição da Líbia a seus chefes David Cameron, Nicolas Sarkozy e Barak Obama. Ficção à parte, aos fatos.

São sete meses de intervenção, cerca de 30 mil mortos e 20 mil feridos. São 142,857 assassinatos por dia. Em estatística não faz diferença arredondar o número acima e afirmar que foram assassinadas, entre homens, mulheres e crianças, uma média de 143 pessoas por dia, ou seja, quase seis pessoas por hora.

Não é a última morte, mas foram chocantes (como toda morte violenta é) as imagens do linchamento de Muamar Khadafi. Quantas outras imagens iguais ou piores a essa houve em mais essa guerra patrocinada pelos Estados Unidos (Obama), França (Sarkozy) e Reino Unido (Cameron)?

Longe de defender a ditadura de Khadafi. Pelo contrário, condeno-a com todos os seus crimes.

A barbárie foi desenhada desde o início desta guerra, com o desrespeito à resolução 1973/2011 da ONU e com o comportamento parcial da mídia internacional na cobertura da invasão (da Otan) estrangeira da Líbia, que acobertou, ao não divulgar, o abuso aos direitos humanos dos “soldados rebeldes da liberdade”.

Como afirma Marcelo Zero no seu artigo “Democracia ou Barbárie?”, se “o novo governo líbio tivesse um compromisso mínimo com valores democráticos, Khadafi e seus filhos teriam sido levados a julgamento pelos seus inúmeros crimes, num processo legal e com direito à defesa. No entanto, preferiram linchá-los e executá-los de forma cruel”.

É inegável que o autodenominado Conselho Nacional de Transição (CNT) tem, entre seus lideres, inúmeros ex-integrantes do governo Khadafi. Eram eles democráticos e por acaso faziam parte de um governo ditatorial? Qual é o compromisso deles e desse conselho com a democracia e os direitos humanos?

Provavelmente, nenhum, ou muito pouco, e isto já está consubstanciado no recente relatório da Anistia Internacional, intitulado “Detention Abuses Staining the New Lybia”. O relatório trouxe à luz a prática de tortura e de execuções sumárias que o novo e “democrático” regime de “liberdade” tem imposto.

Grupos armados (soldados do CNT), segundo o artigo “Líbia – Um relato pessoal”, de Juliana Medeiros, no blog Substantivo Comum, rondam Tripoli. Os homens desses grupos “em sua maioria, não são líbios, mas mercenários contratados pela Otan, qatarianos e soldados das forças especiais britânicas[...] Eles mantém guarda nas ruas, para evitar que algum cidadão se "indisponha" com o "novo" regime que estão implantando.”

Qualquer indisposição ou mínima discordância com o novo regime, esses “soldados da liberdade” fazem “justiça” com as próprias mãos. Há execuções e prisões todos os dias.

Com a morte de Khadafi, a Otan anunciou a retirada de suas tropas. Os mercenários também sairão, ou continuarão remunerados pelo CNT, uma vez que não há forças policiais da nova ordem? Na guerra, a Líbia vive o caos e os líbios são vítimas da barbárie. Com a saída das tropas estrangeiras de intervenção, não há a perspectiva de recuperação a curto prazo, pois agora começa a disputa entre as várias tribos e etnias.

Na Líbia, não há partidos nem uma sociedade civil organizada. Sua população é dividida em 26 tribos árabes, quatro tribos berberes, imigrantes palestinos e a população de tronco nilóticos dos Tebos. Entre as tribos árabes, há os Al-Gadaffi, grupo tribal ao qual pertence Khadafi.

Nesse emaranhado todo, o ex-ditador governava de maneira precária, impondo sua vontade e distribuindo benesses (cargos) entre as tribos. Pós-Khadafi, como será? Algumas tribos não partirão para a vingança?

O balanço parcial da guerra, para os donos do capital e os governantes que os sustentam, é positivo. A morte, o ferimento, a dor e às vezes até as lágrimas também geram lucros.

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