LabHacker da Câmara: balanço inicial

Cristiano Ferri *

No último dia 19 de fevereiro, o Laboratório Hacker da Câmara dos Deputados foi oficialmente inaugurado.  Hackers das cinco regiões do país estiveram por aqui em Brasília, além de integrantes da comunidade hacker local. E este foi o primeiro aspecto que aprendi: a palavra hacker tem um sentido maior do que parece. Refere-se a todas as pessoas que queiram experimentar e aprender tecnologias e formas de pensar inovadoras. Em outras palavras, não precisa ser especialista em tecnologia para ser hacker; basta querer fazer algo novo. E quando essa energia é voltada para a cidadania, podemos chamar isso de hacktivismo cívico. Leonardo Folleto, um dos participantes, explica melhor esse conceito.

Aproveito para compartilhar aqui neste espaço algumas das primeiras impressões dessas rodadas hackers iniciais.

CORPO ESTRANHO

Não se pode negar o estranhamento que a criação do LabHacker tem causado, seja dentro da Câmara, seja lá fora. A minha impressão é que, de forma geral, os parlamentares consideram a ideia bem interessante; e não foi até o momento recebido nenhum sinal negativo de qualquer parlamentar. Pelo contrário, muitos têm percebido que chegou a hora de promover novas formas de diálogo entre nosso Parlamento e a sociedade brasileira, e o Labhacker pode ser uma das pontes nesse processo.

O estranhamento decorre muito da sua forma híbrida, não exatamente enquadrada nos moldes convencionais de repartição pública: é parte espaço hacker, com livre acesso a qualquer cidadão; e é parte órgão da administração pública, no caso, da Câmara. É a fusão dessas duas dimensões, aparentemente paradoxais, que o torna corpo estranho na Esplanada. Tem na sua essência o aspecto social muito forte, como elemento partícipe de processos políticos e administrativos, os quais pretende inovar.

E tem sido muito interessante presenciar nesses primeiros encontros no LabHacker a reunião de três mundos com lógicas muito diferentes, mas compatíveis e fusíveis: o universo social (em especial o da comunidade hacker cívica), o universo político-parlamentar, e o universo da burocracia, em seu sentido positivo. Por incrível que pareça à primeira vista, há pontos de intersecção entre esses três mundos.

Então, a ideia principal deste espaço hacker é estimular o diálogo e a colaboração entre pessoas, com o mesmo propósito de trabalhar pela cidadania. Por isso a necessidade de se trabalhar em forma de rede, conjugando os atores sociais, políticos e servidores públicos numa dinâmica própria, que flexibilize barreiras relacionadas à autoridade, à hierarquia funcional e a outras particularidades que possam dificultar o processo de interação, como enfatiza Oda, outro participante das rodadas do mês passado, pertencente ao coletivo hacker Garoa.

Alguns setores administrativos da própria Câmara e grupos sociais têm perguntado quais são os objetivos e a competência do LabHacker. É, por isso, que lançamos uma consulta pública para a elaboração do instrumento legal que regulamentará a atuação do laboratório. Caso você queira auxiliar nessa tarefa, participe dessa construção no Portal e-Democracia. Se queremos fomentar uma maneira colaborativa de funcionar, devemos começar pela produção do seu ato legal de definição.

METODOLOGIA ÁGIL

Entre as facetas mais interessantes da cultura hacker está a vontade incessante de realizar experimentações de todo tipo. Um dos participantes da rodada hacker de fevereiro, Ramiro Polla, acentuou a importância da forma de trabalho via tentativa/erro como a base de acertos futuros. Em suma, o despretensioso remexe/mexe de softwares, hardwares, aparelhos, maneiras de pensar, metodologias e de outros mecanismos traz grande conhecimento sobre o objeto de estudo, permitindo aos hackers (ou inovadores) desenvolver novos instrumentos de maneira rápida, criativa, inteligente e adaptável.

O ciclo de metodologia ágil funciona mais ou menos assim: 1) planejamento mínimo e rápido, 2)criação e lançamento de um protótipo básico, 3) reavaliação do seu impacto, 4) novo planejamento e assim por diante. A reiteração desse ciclo acaba por gerar qualidade num período de tempo assustadoramente célere.

Será que o serviço público poderia encampar esse tipo de metodologia ágil de desenvolvimento? Como se tratam de recursos públicos envolvidos, a burocracia não pode se dar ao luxo de “errar”. E, para atender a todo o arcabouço legal que sustenta e impõe esse modelo, tal como a Lei Geral de Licitações, a administração pública deve se esmerar no planejamento, zelar pela boa contratação ou desenvolvimento de um novo serviço, e realizar sua implementação da forma mais efetiva possível. No entanto, sabemos que esse ciclo da administração pública é muito longo, e nem sempre eficiente. O mundo de hoje muda muito rápido e exige respostas mais ágeis.

O que sentimos de boa parte dos colegas servidores aqui da Câmara é a vontade de aprender formas de trabalho mais dinâmicas, que tragam resultados mais visíveis ao trabalho. E temos certeza de que a experiência do Labhacker pode ser muito didática para nós do corpo técnico da Casa, de modo a encontrarmos formas de incluir a experimentação diária no seu modus operandi. Isso, a médio e longo prazos, representará economia de recursos e não gastos extras.

O PARLAMENTO E AS REDES SOCIAIS

Nos dias 24 a 26 de fevereiro, recebemos aqui o Prof. Fábio Malini, do Labic, Laboratório de Estudos de Cartografia de Imagem e Cibercultura, da Universidade Federal do Espírito Santo. Para nós, foi uma grande oportunidade de discutirmos um ponto primordial no trabalho de aproximação do Parlamento com a sociedade: o que pensa e discute o brasileiro que participa de redes sociais digitais, e como nosso Parlamento pode interagir melhor com tais redes.

A inteligência desenvolvida pelo Labic certamente pode agregar valor significativo para essa questão. Por isso, discutimos a realização de possível parceria, por meio de convênio ou outro instrumento jurídico, para habilitarmos a Câmara a acessar melhor esse tipo de conhecimento.

Assim, podemos imaginar um cenário próximo, quando os órgãos legislativos, como o Plenário, a Mesa, as comissões e lideranças de partidos poderão ter informações em tempo real de discussões sobre temas legislativos nas redes sociais, e desenvolver capacidades mais efetivas de interagir com esses cidadãos, com antecipações e respostas legislativas que possam melhor satisfazer tais anseios.

COMISSÕES INTERATIVAS

Parece-nos ser um dos pontos principais da discussão referente à abertura do Parlamento o fortalecimento da interatividade das comissões, permanentes e temporárias, da Câmara. Hoje, com raras exceções, as comissões têm desenvolvido poucos mecanismos de conhecimento das redes sociais relativas ao seu tema.

Por exemplo, quantas e quais discussões ocorrem sobre economia, trabalho, educação, segurança na web em listas de discussão, páginas do Facebook, Twitter e outros canais de redes sociais? Quem são os entes coletivos (grupos semiorganizados em torno de certas causas ou interesses) mais ativos na internet sobre tais temas? Quem são as pessoas e grupos mais influentes e articuladores das redes? Essas pessoas e grupos interessados conhecem e acompanham a pauta semanal das comissões?

As comissões interagem com tais redes temáticas, pelo menos para informar sobre suas atividades? Afinal, não é tudo isso necessário ao democrático processo de elaboração de leis socialmente eficientes, ou devemos nos contentar apenas com a participação de grupos de interesse que, com desenvolto trânsito nos corredores do Congresso, normalmente saem vitoriosos desses processos?

Com certeza, a comunidade hacker, conjuntamente com centros de inteligência, como o Labic, pode ajudar a Câmara a desenvolver mecanismos para melhorar, por um lado, o conhecimento das redes sociais temáticas e, por outro, interagir melhor com elas. A propósito, o presidente Henrique Eduardo Alves, ao dar sinal claro de transparência e espírito colaborativo, nos determinou colocar em consulta pública o termo de referência para a contratação de um serviço e ferramenta que facilite a compreensão das discussões nas redes sociais.

Será que tudo isso vai funcionar? Vamos tentar experimentar e avaliar em ciclos rápidos aqui no LabHacker, sempre com toda transparência e participação. Por isso, convidamos o leitor a se engajar neste trabalho. Pode ser virtual, acompanhando os projetos e atividades do LabHacker na Portal e-Democracia. Ou aproveite e venha nos visitar no Anexo II, Primeiro Andar, Ala B, Sala 172, da Câmara dos Deputados.

* Cristiano Ferri é o Coordenador do Laboratório Hacker da Câmara dos Deputados. Twitter: @cristianofaria. E-mail: ferri.cristiano@gmail.com.

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