Juros compostos, uma impossibilidade física

Gisella Colares *

O objetivo deste artigo é divulgar nossos estudos sobre a impossibilidade física dos juros compostos, fazendo um paralelo entre conceitos fundamentais da Física com a Economia, tendo em vista que a Economia atua no mundo físico.

Os estudos partem da existência da entropia – parcela de energia que não pode mais ser transformada em trabalho em certas transformações termodinâmicas – e em alguns princípios do novo paradigma científico pós-normal.

O sistema econômico funciona como um sistema aberto, e deve ser considerado um subsistema que troca energia e matéria como o meio ambiente. Assim, encontramo-nos no campo dos processos que convertem matéria e energia em certa condição de disponibilidade energética e material para um estado no qual essa disponibilidade decresce como consequência da entropia.

Essa disponibilidade energética está relacionada com a capacidade de realizar trabalho, ou seja, de operar uma transformação qualitativa e não apenas quantitativa da energia e de matéria (como transformação da energia mecânica em elétrica e transformação de minério em componentes eletrônicos). Isso significa que estamos trabalhando nos limites da economia real, na qual a produção de bens materiais (indústria de extração e transformação) e imateriais (prestação de serviços, informação etc) é capaz de transformar qualitativamente as condições de bem-estar do sistema econômico como um todo e para todos.

Assim, os juros compostos possíveis do ponto de vista abstrato, como um comportamento matemático livre das limitações da realidade, apresenta limites estreitos de validade na presente realidade societária, isto é, no atual estado de evolução do conhecimento da Humanidade. Isso se torna uma impossibilidade quando a aplicação é na esfera financeira, dado que esta não possui a capacidade de transpor os limites impostos pela entropia e ir além, criar mais riqueza com capacidade de gerar mudanças qualitativas no bem-estar da sociedade.

A esfera financeira é estéril na transformação qualitativa de energia e matéria, além de constituir-se em um limite para a economia real pela absorção de recursos monetários que passam a circular predominantemente nessa esfera e de possuir o potencial de destruição de importantes instituições da sociedade e da economia real – como a boa utilização do instrumento de endividamento público, trazendo prejuízos de ordem produtiva e de desigualdade distributiva.

Enfim, não temos o poder de revogar a lei natural da entropia e adequá-la às aspirações de acumulação virtual de uma elite, mas podemos adequar as leis humanas à convivência harmônica e sustentável com a finitude dos recursos e sua justa distribuição.

* Mestre em Desenvolvimento Econômico, doutora em Desenvolvimento Sustentável e membro da Auditoria Cidadã da Dívida.

 

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