Intoxicação da informação eleitoral e pesquisas de intenção de voto

Bajonas Teixeira de Brito Junior*

Os resultados apresentados nas pesquisas dos Institutos Paraná, Veritá e IstoÉ/Sensus, para o segundo turno das eleições presidenciais, destoam marcadamente dos percentuais verificados nas pesquisas do Ibope, do Datafolha e do Vox Populi. A rigor, temos duas séries de resultados incompatíveis. De um lado, uma distancia esmagadora em benefício de Aécio Neves (a pesquisa IstoÉ/Sensus, divulgada em 9 de outubro, chega a dar 17 pontos de vantagem para Aécio) e, de outro, uma tendência continuada ao empate técnico, com oscilação da vantagem, que se repete em seis pesquisas do Ibope, do Datafolha e do Vox Populi.  Que sentido tem que institutos poucos conhecidos no cenário nacional (Paraná e Veritá) tragam resultados tão despropositados numa eleição importante como é a eleição presidencial para o futuro da democracia brasileira?

Os institutos tradicionais, já incorporados à rotina das pesquisas eleitorais no país, apontam uma situação de empate técnico entre os dois candidatos.  Em pesquisas divulgadas em 9 de outubro, o Ibope e o Datafolha trouxeram resultados coincidentes:  Aécio com 51% dos votos válidos, e Dilma com 49%. Em 13 de outubro, a pesquisa do Vox Populi colocou Dilma na frente, com 51% dos votos úteis, contra 49% de Aécio.  Nada espantoso. A situação se inscreve dentro do empate técnico, considerada a margem de erro, e reforça os resultados anteriormente já apresentados pelo Ibope e pelo Datafolha. Esses resultados voltam a confirmar-se na pesquisa mais recente desses institutos, de 15 de outubro. Nela Aécio aparece na dianteira, com 51%, e Dilma em segundo, com 49%, repetindo-se o resultado de 9 de outubro. Agora, no dia 20, a nova pesquisa do Datafolha coloca Dilma em primeiro lugar, com 52% dos votos, seguida por Aécio, com 48%.

Datafolha Ibope Vox Populi Datafolha Ibope Datafolha
09 de out. 09 de out. 13 de out 15 de out 15 de out 20 de out
Dilma 49 49 51 49 49 52
Aécio 51 51 49 51 51 48
Diferença 

3 pontos 3 pontos 3 pontos 3 pontos 3 pontos 4 pontos

De 9 a 20 de outubro, por quase duas semanas, continuamos em empate técnico. Em quatro pesquisas, Aécio soma 12 pontos à frente de Dilma. Em outras duas, Dilma aparece com 7 pontos. No total, temos 5 pontos a favor de Aécio. As pesquisas dão uma sensação de equilíbrio dentro de um cenário em que princípios razoáveis de avaliação, que nos permitem alguma segurança frente à realidade, podem funcionar. Entre esses princípios, podemos citar aquele que sustenta que as coisas tendem a permanecer as mesmas se não houver um fato extraordinário que as modifique brutalmente (princípio de continuidade), o que nos diz que, continuando relativamente estável, a realidade permite que se teçam expectativas razoáveis (princípio de previsibilidade), o que assegura que para uma mudança brusca é preciso um fundamento que o explique (princípio de causalidade). Podemos dizer que esses parâmetros razoáveis nos oferecem um padrão para distinguir o que é real, ou passível de ser aceito como real, e o que é engodo ou pura mágica.

Vejamos agora os resultados dos institutos Paraná, Veritá e IstoÉ/Sensus:

Paraná Veritá IstoÉ/Sensus IstoÉ/Sensus total
08 de out. 09 de out. 11 de outubro 17 de out
Aécio 58 54,8 58,8 56,4
Dilma 46 45,2 41,2 43,6
Diferença 12 pontos 10 pontos 17 pontos 12,5 pontos 51,5 pontos

Enquanto as seis pesquisas anteriores davam uma diferença de apenas 5 pontos em favor de Aécio – que se neutralizavam pela pesquisa do dia 20 em que Dilma aparece com quatro pontos à frente –, as pesquisas da série agora considerada dão 51,5 pontos percentuais em favor de Aécio. O peso em favor de Aécio nos institutos Paraná, Veritá e IstoÉ/Sensus soma uma vantagem de 1.030% quando comparado com os resultados do Datafolha, Ibope e Vox Populi. É difícil não ver na desproporção gritante entre as duas séries de resultados uma afronta ao processo democrático em curso. Não só a informação, mas a qualidade da informação lançada para alimentar as avaliações e tomadas de decisões dos eleitores, são vitais para a integridade da democracia. Mas que dizer das pesquisas dos institutos Paraná, Veritá e IstoÉ/Sensus? Impossível escapar a sensação de um atentado terrorista às necessidades de informação que servem para orientar a opinião pública num sistema democrático.

É extremamente curioso que, sendo um dado vital da saúde do sistema democrático, a qualidade e disparidade das pesquisas e da informação que proporcionam não venha preocupando o TSE. Ele se imiscuiu autoritariamente no debate eleitoral para coibir a exposição de dados de interesse público, como foi o caso do aeroporto construído por Aécio. Mas não tomou qualquer iniciativa para combater a intoxicação da informação destinada ao eleitor. Ora, sejam os eleitores de Dilma ou os de Aécio, todos estão interessados em informação séria e confiável. Há, portanto, um interesse geral da cidadania que está sendo violado. E esses abusos ficarão sem punição para que se repitam a cada nova eleição no Brasil?

Se num dia de verão, as praias do Rio de Janeiro amanhecessem com céu azul e calor de 40° e chegassem ao meio-dia cobertas de neve e ventos glaciais, se os ponteiros dos relógios fossem para frente, mas o dia avançasse para trás, ou qualquer outro prodígio do gênero, então o mundo obedeceria ao capricho e não haveria regra estável nenhuma. Mas não é o caso. Existem certos princípios, com vimos, que nos permitem estabelecer expectativas razoáveis sobre o que acontecerá amanhã. Não estamos no país das maravilhas, em que coelhos são mordomos e o sorriso do gato pode aparecer sem o gato. Embora um historiador importante tenha dito, sobre os primeiros anos da República no Brasil, que “tudo era um pouco louco, mas havia lógica na loucura”, não chegamos ainda à demência generalizada.

Ou melhor, a luta pela democracia nos últimos cem anos no país tem sido justamente uma luta para desfazer a sombra da demência que trabalha por cobrir todo o país. Um país que é a sétima economia do mundo e um dos mais – senão o mais – desiguais é um retrato do disparate, não da lógica. No máximo, o será da lógica do disparate. Do mesmo modo, um país que tem um sistema de voto e apuração inteiramente eletrônicos, mas, por outro lado, acomoda-se com instituições bastante questionáveis (partidos, processo eleitoral, financiamento de campanhas etc) exibe uma chocante incongruência.  Eliminar essas distorções é uma tarefa da democracia. Mas as pesquisas dos institutos Veritá, Paraná e IstoÉ/Sensus parecem rumar na direção contrária.

Qual o sentido dessas disparidades descabidas?

A minha opinião, considerando o tamanho da divergência e a importância do evento, é de que não tem outra finalidade que não a de disseminar uma atmosfera de irrealidade e confusão, de caos organizado. Trata-se de uma espécie de intoxicação informativa. Uma vez imposta a desorientação e desfeitos os parâmetros normais com que percebemos e ordenamos a realidade, como manter nossa capacidade de julgar e dimensionar os fatos? Se a realidade se torna aleatória, qualquer resultado eleitoral se torna plausível, sem que seja passível de consideração crítica. Principalmente se favorável ao candidato das oligarquias, porque este terá uma forte imprensa a incensá-lo no dia seguinte. Para prevenir a escalada da manipulação, melhor seria é que se denunciasse enquanto é tempo o processo em marcha.

* Bajonas Teixeira de Brito Junior é doutor em Filosofia, duas vezes premiado pelo Ministério da Cultura por seus ensaios sobre o pensamento social e cultura no Brasil, professor universitário e escritor.

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