Internet: da virtualidade para a realidade das ruas

Terezinha Tarcitano *

E a internet toma as ruas, ajudando a potencializar o grito sufocado de muitos brasileiros, cada um com seu protesto. Os gritos online ganham força e tornam-se o reflexo da mesmice e da insatisfação social. Ficou claro para todos que o povo brasileiro cansou-se de apenas chorar suas mágoas nas redes sociais. Parece que o povo agora quer protagonizar as justas mudanças que há tanto reclama sem ser ouvido. Hoje são muitos os em favor disso ou daquilo, contra isso ou aquilo, mas que repudiam chefias ou bandeiras partidárias. E é justamente aí que me parece recair o medo e o silêncio de toda a nossa classe política, do Poder Executivo e também do Judiciário.

Movimentos semelhantes, convocados pela internet, derrubaram governos pelo mundo ou levaram a infindáveis guerras civis, como no caso da Síria, e, em menor grau, no Egito. Manifestante conectado nunca está sozinho. São textos, vídeos, áudios e diversas ações online que surgem de uma apropriação da sociedade sobre o poder de comunicação de massa.

As reivindicações estão sendo ouvidas. Corrupção já é considerada crime hediondo e os deputados federais rejeitaram por ampla maioria a proposta de emenda à Constituição (PEC) 37, que tira poder do Ministério Público na investigação criminal, e aprovaram a aplicação dos royalties do petróleo na educação. Nunca se votou tanto e com tanta rapidez!

Os protestos e suas conquistas devem ser inclusos em um novo capítulo da história do Brasil. E este processo está estimulando jovens de diferentes idades a participar e a debater a política. O envolvimento deles, no entanto, não tem sido evidenciado apenas nas ruas: as escolas já perceberam e começam a trabalhar o tema em sala de aula.  É preciso oferecer as condições para que os alunos elaborem reflexões a partir dos fatos da realidade e da forma como são representados pelos meios de comunicação.

Em qualquer país supostamente democrático, as manifestações populares são tidas como absolutamente normais fazendo parte do pleno exercício da democracia. Em qualquer local do mundo, quando sedia eventos internacionais, essas manifestações acontecem simplesmente porque os holofotes, as câmeras e a atenção da imprensa mundial para ali estão voltados, fazendo deste o palco mais adequado para mostrar o que a imprensa e os governos locais costumam jogar para debaixo do tapete.

Contudo, os excessos sempre levam a extremos. E, claro que, com ou sem identidade ideológica, sempre existe um grupo infiltrado para criar baderna e chamar atenção. Violência gera violência. Eu e todos os brasileiros de bem não entendemos o porquê da ineficácia da polícia nos casos de saques e abusos de determinados manifestantes que só querem insuflar a oposição. Outros se aproveitam para praticar o crime. Esse grupo insuflado que entende ser a selvageria a solução para a crise que vive o Brasil, engana-se.

A grande imprensa nacional apressou-se em dizer que as manifestações que pipocaram por todo país partiam de meia dúzia de “baderneiros” que reivindicavam o passe livre nos transportes públicos, que tudo se resumia ao aumento de cerca de “20 centavos” nas passagens de ônibus e metrôs. Estes centavos passaram a ser o grande estopim de um movimento espontâneo, convocado pelas redes sociais e que repudia veementemente qualquer bandeira partidária ou violência. Aliás, por que tantos partidos políticos tentam se infiltrar nessas manifestações? Falta de ideologia?

Políticos de plantão apressaram-se em anunciar uma redução nas tarifas de transporte público em várias cidades do país (como se fossem atitudes próprias e não por força de uma medida provisória do governo federal que renunciou a alguns impostos federais cobrados aos transportes públicos e que deveriam redundar em uma redução das tarifas). Tudo ocorreu como se as margens de lucro de um serviço público que, na maioria das vezes, é prestado por empresas particulares; as responsabilidades sobre a regularidade, segurança, renovação da frota, acessibilidade etc. já não fossem regulados por lei, mas pela simples magnanimidade dos prefeitos e dos empresários dos transportes que os patrocinam muitas vezes.

Então, afinal, o que há de errado em tudo isso? Qual o temor das autoridades públicas em relação às manifestações? As autoridades policiais não possuem serviços de inteligência e todos os mecanismos necessários para separar aqueles grupos que lutam por reivindicações justas e pacíficas de outros que se ocultam entre os primeiros com finalidades ideológicas, partidárias, eleitoreiras e por aí vai?

Por que o povo e os lojistas se sentem tão ameaçados? Por que, muita vezes, os vândalos parecem agir impunemente saqueando lojas e containers? Se as manifestações públicas foram convocadas pelas redes sociais não seria muito fácil identificar os perfis daqueles bem e mal intencionados? Não haveria como estes órgãos de segurança se anteciparem aos maus atos? É realmente necessário mobilizar todo esse aparato policial contra os manifestantes somente em determinados locais? A polícia não existe para a nossa proteção?

Entendo e apóio meus compatriotas a exercerem o direito democrático de forma pacífica. Nunca na história do Brasil a população, mesmo sem cara pintada, tinha ido às ruas para mostrar uma revolta há muito tempo ocultada no dia a dia. Muitos estão levantando a bandeira da frustração por algum motivo ou mesmo para ser solidário, seja por falta de atendimento médico, pela perda de um ente querido devido à violência, falta de oportunidades etc. A educação e a saúde não podem mais ser sucateadas em detrimento ao futebol, que sempre foi o cartão-postal do Brasil.

O aumento da passagem de ônibus, a origem dos protestos, tornou-se apenas uma gota do oceano que abriga determinados governos corruptos, partidos inoperantes e aproveitadores.  Trata-se de um basta aos maus serviços públicos e aos gastos superfaturados. A voz do povo está sendo ouvida, mas se houver muitos ruídos (badernas) o sinal ficará ruim e a mensagem poderá não ser compreendida. Manifestações pacíficas sempre!

* Terezinha Tarcitano é jornalista e assessora de imprensa.


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