Intercâmbio golpista

Jandira Feghali *

Talvez o senador Aécio Neves não tenha digerido ainda o resultado do pleito de outubro passado. Rechaçado nas urnas pela maioria do povo brasileiro, o líder da oposição busca agora arremedos golpistas em outras nações latinas, como o ocorrido recentemente na Venezuela. Em viagem paga pelo governo brasileiro, o grupo protagonizou um dos episódios mais pitorescos da política internacional brasileira.

O pretexto da viagem seria a visita aos venezuelanos Leopoldo Lopez e Antonio Ledezma, condenados e presos depois de revelado um esquema para tentar derrubar o governo do presidente eleito Nicolás Maduro. A ação por eles liderada provocou a morte de 43 pessoas naquele país. Na falta do que fazer no Senado, os tucanos promoveram uma “missão” com o claro objetivo de criar um fato político. Iniciava-se assim o teatro de absurdos.

A oposição tem onde se inspirar para iniciar tais bravatas diplomáticas. O PSDB e demais partidos neoliberais estão alinhados à política imperialista estadunidense que busca o enfraquecimento do cone sul. Há um mês, em torno de uma cara mesa de jantar, estiveram reunidos com o ex-presidente dos EUA Bill Clinton e FHC para reforçar velhas convicções e sacramentar uma aliança em prol de um projeto comum. Passa por ele a desestabilização dos países da América Latina e um redirecionamento geopolítico claramente mais favorável à visão dos entreguistas e aos interesses norte-americanos.

A recente reaproximação da potência imperialista com Cuba, até então alvo deste jogo de poder, desviou os ataques mais vorazes à Venezuela e, por consequência, ao bloco que compõe o Mercosul. Neste tabuleiro, interesses em riquezas como petróleo, a exploração da estatal Pedeveza e a ruptura do governo popular de Maduro encontram eco nos factoides tucanos.

A movimentação da comitiva mira sua estratégia para cá, numa tentativa de atrair holofotes para sua causa, e para lá, onde a oposição venezuelana tenta ganhar força para o processo eleitoral. Com o esforço de causar um desgaste ao governo de Maduro, a oposição brasileira segue à risca a cartilha do líder opositor Henrique Caprilles em reduzir a popularidade de Maduro e, respectivamente, sua base legislativa.

Fez certo o governo venezuelano em não ceder à comitiva no pedido de visita ao presídio, visto que o roteiro da pajelança tucana era político-partidário e não humanista. Se o grupo de senadores tivesse tanto interesse em encontrar Leopoldo e Antonio teria mantido a viagem até o fim, e não recuado covardemente.

Aliás, segundo revelado posteriormente e também pela mídia venezuelana, as hostilidades contra a van de Aécio nem passaram perto do relatado no dia. Não houve apedrejamento, muito menos barreiras governamentais intencionais. O grupo poderia ter seguido em frente se tivesse objetivos claros, já que a polícia venezuelana os acompanhava. Essa discussão política exige de nós lado, mas exige de todos nós, independentemente de governo e oposição, responsabilidade política com o Brasil e a integração latino-americana.

* Médica, deputada federal (RJ) e líder do PCdoB na Câmara.

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