Indignação, cidadania e vandalismo explodem nas ruas

Manifestações vigorosas reunindo milhares de pessoas varreram o país. Muito, quase tudo, já foi dito. É preciso ouvir, entender, decifrar a voz das ruas. Nenhum instituto de pesquisa, serviço de inteligência, direção partidária ou cientista social captou o inimaginável potencial que havia no inconsciente coletivo ou no imaginário popular. As manifestações foram uma explosão de indignação e cidadania, difusa, surpreendente, instigante, desafiadora. Quem procurar um sentido único, reducionista, unilateral, teleológico, excessivamente coerente, com reivindicações e comando claros, vai errar feio.

O movimento que explodiu nas ruas é absolutamente diferente dos que vivenciamos em passado recente. As diretas já, o impeachment de Collor e o movimento estudantil nas décadas dos 70 e 80 tinham uma pauta clara e comando político. No Egito, na Síria, e na Tunísia, a população foi ou está nas ruas para derrubar o governo. Não é nosso caso. A ocupação de Wall Street e os indignados na Espanha foram movidos por profunda crise que envolveu o capitalismo central e resultou em níveis de desemprego insuportáveis.

O movimento no Brasil tem dinâmica diversa. Inflação, endividamento, corrupção, tarifas de ônibus impulsionaram. Mas são várias tribos diferentes. Movimento Passe Livre (MPL), jovens independentes e apartidários, punks, extrema-esquerda, skinheads, oportunistas, bandidos, vândalos, cidadãos de todas as idades, famílias inteiras, debutantes em manifestações, teceram mobilização social multifacetada e multicolorida, pacifista ou violenta, interessante e contraditória.

As redes sociais mostraram que vieram para ficar. Ninguém é dono e deve querer se apropriar do movimento. O MPL e os vinte centavos de São Paulo foram só o estopim. As motivações são variadas. O recado é difuso e para todos os partidos, instituições, lideranças. É claro que o quinhão de cada um é proporcional à sua parcela de poder. Na federação atrofiada e no presidencialismo quase imperial que vivemos, a maior responsabilidade é de Dilma e seu governo. Mas há uma contundente e cristalina provocação a todos os governantes e líderes brasileiros.

Há uma crise universal da democracia representativa. Nessa hora, no Brasil, “menos palavras vãs e mais ações concretas”, como diria o líder russo, ou “os gestos mais que as palavras”, como delicadamente desenhou a memorialista mineira.

É hora de quebrar a inércia e produzir soluções. Combate sem tréguas à corrupção, reforma política, mobilidade urbana, transporte coletivo, transparência na Copa, qualidade nas políticas de saúde, educação e segurança, combate a inflação, reinvenção da política, eficiência no governo e transformação nas instituições.

As ruas querem participar. Ser ouvidas. Isolar os marginais e vândalos. E longe da violência e da demagogia, construir o diálogo nacional necessário para continuar mudando o país.

 

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