Hannah Arendt e as origens do totalitarismo

Está em cartaz nos cinemas brasileiros um excelente documentário sobre uma das mais importantes pensadoras do século XX: a filósofa alemã de origem judaica Hannah Arendt.

Hannah foi testemunha ocular das várias atrocidades patrocinadas pelo regime nazista dos anos 30 e 40, o que influenciou todo o seu trabalho ao longo da vida. Sua obra mais importante, “As origens do totalitarismo”, é usada até hoje para o estudo das motivações e dos processos que levam à quebra – pior, à distorção – do que ela acreditava ser o maior bem de um indivíduo, a liberdade de escolha e a aceitação das responsabilidades decorrentes. Aliás, valor fundamental de toda a tradição judaico-cristã, através do conceito de livre-arbítrio que nasce no livro do Gênesis.

(O que também nos leva ao conceito da “obra de arte total” wagneriana e as origens românticas dos totalitarismos que sempre começam sem nos darmos conta da delegação que fazemos, ao Estado, de nossa responsabilidade política, as nossas livres escolhas.)

Pois o documentário “Hannah Arendt” mostra a vida da jornalista e professora assim que pisa em solo americano, fugida de um regime que se mostrava cada vez mais intolerante para com os judeus. Depois, já em 1961, teve início o julgamento de um dos carrascos nazistas, Adolf Eichmann; Hannah estava presente, na qualidade de repórter da revista The New Yorker. Eichmann, para surpresa de muitos, se declarou inocente de todos os crimes que lhe imputavam. Para ele, estava apenas cumprindo ordens superiores, o que não lhe conferia culpa alguma. Até hoje, um recurso de defesa usualmente adotado até mesmo por agentes torturadores de ditaduras latino-americanas.

O resultado das observações de Hannah sobre o julgamento de Eichmann foi publicado em cinco artigos históricos. Para ela, nem todos que praticaram os crimes de guerra eram monstros; eles tinham vidas bastante comuns e não viam seus atos como um crime em si, apenas como parte de um processo maior. Hannah também relatou o envolvimento de alguns judeus que ajudaram na matança dos seus iguais, o que lhe rendeu críticas muito contundentes.

Mas o episódio de Eichmann e a sua sincera negação de culpa mostra exatamente o conceito de “banalidade do mal” desenvolvido por Hannah, base do seu pensamento sobre sistemas totalitaristas, nos quais não existe o espaço para contestação, sufocado através de um ataque à pluralidade de idéias. E é justamente esta pluralidade que nos torna indivíduos, senhores de nosso próprio destino. Ou seja, cidadãos por excelência. O Estado não pode nunca ser forte demais a ponto de não permitir aos cidadãos a possibilidade de fazer escolhas individuais. E responder por elas civil e criminalmente, como adultos conscientes das consequências de suas livre-escolhas.

O próprio conceito de cidadania que Hannah Arendt tinha é muito moderno. Para ela, a recuperação da cidadania no mundo moderno depende da criação de inúmeros espaços em que os indivíduos podem revelar suas identidades e estabelecer relações de reciprocidade e solidariedade. E mais, a cidadania também depende da correta distinção entre interesses públicos e privados. Algo que está em falta no mundo de hoje, especialmente no Brasil.

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