Globalização para brasileiro ver

Dia desses, meio que ao acaso, conversava com um amigo sobre uma engenhoca eletrônica – um celular “made in China” – que ele havia adquirido. Maravilhado com seu “brinquedo” novo, ele manifestava seu entusiasmo com a globalização.

Timidamente, manifestei minha preocupação com o grau de internacionalização da economia que o Brasil vem experimentando, trazendo a reboque uma desindustrialização. Mas não consegui sequer terminar a frase e meu interlocutor disse: “Veja os Estados Unidos, que hoje importam quase tudo da China e nem por isso deixaram de ter uma economia própria e pujante”.

Confesso que, naquele momento, passou pela minha cabeça se não estaria eu sendo realmente um xenófobo, defensor de patriotadas ingênuas. Assim, preferi voltar para casa e percorrer meu database em busca de uma resposta.

Em poucos minutos concluí minha pesquisa. Vamos aos resultados: é mentira – e das grossas – a ideia de que “os Estados Unidos importam muito da China”. Na verdade, apenas 2,7% dos produtos vendidos naquele país em 2010 eram chineses. Apenas 2,7%! Querem mais? Nada menos que 88,5% dos produtos consumidos naquele ano ostentavam a etiqueta “made in USA”. Curioso, isso! Vai contra toda a propaganda que nos empurraram goela abaixo de algumas décadas para cá!

Um detalhe: mesmo os míseros 2,7% de produtos importados da China acabam dando mais lucros aos norte-americanos que aos chineses – em média, a cada dólar gasto em um produto com a etiqueta “made in China”, 55 centavos são decorrentes de serviços produzidos nos Estados Unidos!

Diante desses números, a conclusão da economista e pesquisadora Galina Hale foi curta e grossa: “Apesar de a globalização ser amplamente reconhecida nesses dias, a economia norte-americana na verdade permanece relativamente fechada”.

Pois é. Na “pátria do capitalismo” há globalização, “pero no mucho”. Enquanto isso, nestas paragens tupiniquins, 59% dos empresários apontam os danos decorrentes da competição dos importados. Eles têm razão: em 2005, o Brasil exportava 1,51% dos manufaturados consumidos nos EUA; no ano passado, perdemos espaço para a China e caímos para 1,26%. No México, respondíamos por 2,39% das importações – e caímos para 1,42%.

Enquanto exportamos menos, importamos mais: os importados chegam a representar 22,7% de tudo o que foi consumido no Brasil. Comentando esse fenômeno, um técnico da Fiesp declarou: “Não me surpreenderia se daqui a seis meses estivermos falando em 30% de participação dos importados no consumo, o que representa mais indústrias fechadas, mais desemprego e transferência de produção para países asiáticos”.

Antevendo o desastre, os donos de nossas mais tradicionais empresas já começam a buscar o capital estrangeiro para vendê-las. Li que “tais transações tomaram conta do mundo dos negócios e a cada ano ganham mais adeptos no Brasil, a ponto de as consultorias especializadas nisso apresentarem faturamentos bilionários”. É verdade: da indústria de mate à de suco de frutas, passando pela de automóveis, laticínios e até de água mineral, lá se vão as empresas “made in Brazil”.

Mas, como essas verdades não são “politicamente corretas”, é melhor não nos preocuparmos com elas. Afinal, como disse Lichtenberg, “nada induz a uma maior paz de espírito do que não ter opinião sobre nada”. E vamos lá comprar o celular!

 

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