Fugidinhas, ovos e distância

Leio na Folha que o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, cercou-se de precauções para escapar de protestos. Diz a reportagem que seus assessores monitoram manifestações organizadas nas redes sociais e o governador convenientemente fica impedido de ir aos locais por questões familiares.

Há uma semana, no, aniversário de São Paulo, acompanhei o noticiário sobre os protestos. Pedras voaram contra jornalistas, ovos voaram contra o prefeito Gilberto Kassab - e, segundo a reportagem da Folha, teriam voado chuchus no governador se ele houvesse ido a uma inauguração no sábado.

Acho que partir para a agressão é o jeito mais burro de chamar a atenção - porque transforma o alvo do protesto em vítima -, mas até que ponto essa desinteligência não resulta justamente do afastamento entre a classe política e os eleitores?

Existe aqui uma questão de fundo. Historicamente os governos brasileiros se colocam a uma conveniente distância em relação a quem paga seus salários. Não é coisa de tucano, nem de petista, nem de peemedebista. É um costume complicado.

Brasília fica no meio do interior de Goiás desde 1960. A sede do governo de São Paulo fica lááááá no Morumbi desde 1970. Quem quer ser ouvido pelos governos federal ou estadual precisa organizar uma forte operação de logística. Em São Paulo, não foi nem uma e nem duas vezes que gente que tentou protestar no Palácio dos Bandeirantes foi mal recebida pela polícia.

Em Buenos Aires, em contraste, o palácio presidencial fica no centro da cidade mais populosa. A administração inteira está ali, na cara da população. Todo dia tem protesto por algum motivo na praça de Mayo, que fica bem diante do nariz do poder. Raramente esses protestos redundam em objetos voadores, aliás. A possibilidade de ter sua reclamação ouvida mais facilmente, mesmo com insistência, provavelmente inibe comportamentos mais extremos.

Ainda sobre esse contraste, outro dia postaram no Facebook uma foto interessante: como os prefeitos de Nova York, Londres, Moscou e São Paulo vão ao trabalho. Ainda que Boris Johnson e Michael Bloomberg tenham tirado essas fotos em operações de marquetagem, o contraste é eloquente:

OK, no século 21 temos as redes sociais, que permitem que qualquer um seja ouvido. Protestar em pessoa, dizem, virou coisa do passado. O negócio, parece, é dar milhares de likes em causas no Facebook, e tome churrascão.

Apesar de eu próprio usar bastante o Twitter e o Facebook, tenho cá minhas dúvidas.

A principal delas é quanto à relativa falta de ouvidos. Nos próximos meses você vai ver políticos redescobrindo o Twitter a rodo, sendo muito fofos e fazendo coraçãozinho com as mãos.

Uma vez eleitos, tratarão o Twitter ou como a presidente Dilma, que simplesmente sumiu (seu último tweet é de 13 de dezembro de 2010), ou como o governador Alckmin, cujos assessores monitoram as redes sociais para determinar quando é conveniente ter uma dor de barriga.

O ideal mesmo era um diálogo mais franco entre governantes e governados. Sem ovos e nem subterfúgios. Mas você acha que isso vai acontecer tão cedo, ainda mais sendo 2012 um ano eleitoral? E o que você está fazendo a respeito?

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