Fígados na geladeira

Um experimentado parlamentar da base governista observa meio atônito e preocupado o curso dos acontecimentos. A presidenta Dilma Rousseff resolveu peitar os poderosos caciques do PMDB – os senadores José Sarney (AP), Renan Calheiros (AL) e Romero Jucá (RR) e o deputado Henrique Eduardo Alves (RN) à frente. Mandou, pelo novo líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB-AM), avisar o fim das “velhas práticas” na relação política. Endossou o aviso de Eduardo Braga, em entrevista à revista Veja, dizendo que não gosta de “toma-lá-dá-cá”. Permitiu – ou, pelo menos, não se mexeu para evitar – que se constituísse uma CPI para investigar a relação do bicheiro Carlinhos Cachoeira com parlamentares – CPI cujo alvo principal será o opositor Demóstenes Torres (sem partido-GO), mas não o único. Não serão focos de confusão demais para um governo só?

Para o parlamentar petista, Dilma escora-se em seus altíssimos índices de popularidade. Coberta de razão, a opinião pública aplaude a presidenta e torce para que ela tenha sucesso na tentativa que faz de mudar a forma da relação política entre o Executivo e o Legislativo, hoje muito baseada na troca de favores, na troca de votos por cargos e verbas. O problema é que, a cada movimento que faz, Dilma vai deixando descontentes pelo caminho que, num termo do próprio parlamentar, vão guardando seus “fígados na geladeira”. Enquanto tudo estiver correndo bem, a presidenta pode manter sua queda-de-braço com os políticos. Mas, se algo der errado e Dilma precisar de apoio, será a hora de os descontentes descongelarem seus fígados. Como será, então?

Mesmo mantido o atual quadro favorável, o cenário já gera, considera o parlamentar, uma confusão que provoca uma certa lentidão no governo, especialmente com relação àquilo que depende do Congresso. Estão aí os problemas correntes na aprovação da Lei Geral da Copa, para dar um exemplo. Com uma CPI em curso, o grau de confusão só tende a aumentar. É bobagem imaginar que a investigação anunciada vai chamuscar apenas o outrora ícone da oposição Demóstenes Torres. Ou resvalar somente em outros oposicionistas, como o governador de Goiás, Marconi Perillo. A história já pegou um auxiliar dos mais próximos do governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, do mesmo PT de Dilma. E há outros deputados da base do governo mencionados. É evidente que as tropas governistas e oposicionistas vão cerrar fileiras para abater o máximo de adversários do outro lado. Todo mundo já citou Ulysses Guimarães nos últimos dias, mas não custa repetir: “CPI, se sabe como começa; não se sabe como termina”.

Para esse parlamentar, tudo fica bem se permanece boa a percepção da sociedade sobre o governo. Mas se acontece uma crise? Se a economia sofre um revés? Se algum escândalo político atinge alguém muito próximo de Dilma, de quem ela tenha maior dificuldade em dispor (será que o comportamento de Dilma sobre as denúncias contra o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, e a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, é o mesmo que teve com outros ministros que caíram? E quem pergunta não sou eu, é o parlamentar interlocutor deste colunista)? Enfim, numa situação de dificuldade, terá Dilma condição de recorrer ao Congresso para buscar estabilidade política?

O que mais espanta esse petista não é nem o esforço para estabelecer uma relação política diferente. Mas a soma disso ao próprio comportamento explosivo de Dilma, que trata os parlamentares como se fossem subordinados. E os subordinados ...

Dois episódios recentes ilustram isso. No primeiro, Ideli Salvatti falava com Dilma e desligou o telefone celular em prantos, em pleno cafezinho do Senado. No segundo, o ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota, levou uma bronca homérica na frente de um grupo de parlamentares que pegava carona no avião presidencial. Um dia, os fígados saem das geladeiras ...

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